
Dada a entrada em palco, cada elemento da banda assume de imediato o seu posto, o que, de certa forma, obedece à entrega altamente compenetrada aos instrumentos que lhes competem, numa concentração quase autista, base na qual todos os temas se parecem construir.
Legend, faixa de abertura de “For My Parents” (2012), assinalou o início do concerto. O dedilhado clássico e pulsante conduziu a uma progressão contida, que gradualmente foi incrementando sem nunca chegar a explodir em força. Apesar de pretexto para a visita, não foi o último longa duração dos japoneses a dominar a noite, apenas com mais Dream Odissey (cujo onirismo fora acentuado pelo xilofone) e a gloriosa Unseen Harbor, num combo dissonante de melodias fundidas entre as guitarras e o piano elétrico, a integrarem o alinhamento.
A primazia teve-a “Hymn to the Immortal Wind”, lançado em 2009, com Burial at Sea, enorme na conjugação melódica distinta das duas guitarras, a abrir caminho. Em Pure as Snow (Trails of the Winter Storm), o diálogo entre as 12 cordas de Takaakira Goto e Hideki Suematsu rumo à catarse e ao descontrolo sónico resultante da descida de Goto do banco até aos pedais é um exemplo da ascensão evocativa a que os Mono elevaram os presentes, visivelmente hipnotizados. Já Follow The Map surgiu como um interregno de calma pura, em jeito de pontuação de uma beleza indubitável. Introduzido pelo xilofone, o tema Ashes in the Snow agregou o jogo de gradações e esmorecimentos que foram juntando ruído à avalanche sonora que tudo envolveu, no final.
A despedida ficou a cargo de Everlasting Light, a concluir a noite de forma incontestavelmente épica, mas não sem antes ter sido feito um pequeno retrocesso até 2004, e a “Walking Cloud and Deep Red Sky, Flag Fluttered and the Sun Shined”, com Halcyon (Beautiful Days), cuja linearidade rebenta abruptamente num misto de instrumentalidade harmoniosa e distorção.
Findo o concerto, os Mono saíram do palco da mesma forma que entraram, ou seja, no registo presencial ausente de comunicação com o público para além da música. Esta atitude algo ritualizada, que já se tornou familiar para com os peregrinos de andanças mais antigas, talvez tenha apanhado o público recente desprevenido, visto que este se manteve teimosamente à espera de um encore.
Texto: Ariana Ferreira
Fotografia: Hugo Sousa
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