Com a casa quase cheia, a banda entrou em palco tranquilamente: teclados e amplificadores atrás e, bem no centro, a inconfundível bateria siamesa, a partir da qual Hélio Morais e Joaquim Albergaria deram início às hostilidades, servindo de imediato “Primeira”, “Cume” e “Clarão” , três temas do novo disco e que, talvez por culpa de um público algo tímido, passaram algo ao lado, deixando à vista que “Clarão” não é um disco tão óbvio e tão fácil quanto se esperaria. Não obstante os temas resultaren incrivelmente bem ao vivo, o público ainda não está completamente cúmplice deste novo trabalho. Mas é, certamente, uma questão de tempo. Talvez por isso mesmo, e depois de fazer questão de agradecer aos presentes, Hélio tenha feito o reparo: “Eu sei que lançámos o álbum há pouco tempo, e ainda não houve tempo para decorar as letras. Mas o ritmo é universal, ou não?”

A partir daqui iniciou-se uma bonita festa, e o regresso ao primeiro EP, através de “Mudo e Surdo”, originou a primeira grande reação da noite: braços no ar, ancas a abanar, corpos em simbiose e a música alongada por mais uns minutos, numa jam onde Fábio Jevelim mostrou tudo o que de bom trouxe a estes PAUS, com um solo que teve tanto de sónico como de trip espacial.

Seguiram-se as palavras de ordem de “Pontimola”, carregada de tensão, mas que ironicamente (grita-se "p’ra trás! p’ra trás"!) pareceu aproximar mais o público e a banda. “Ouve Só”, tema de abertura do registo de estreia de 2011, fez a ponte para “Bandeira Branca”, o single de avanço de "Clarão", que, ainda mais enérgica e quase tribal, como no videoclip, teve o condão de ser recebida em êxtase e finalmente soltar o público. “Nó” é tudo quanto se pode esperar de uma música com este nome - um verdadeiro nó cego de ritmos e cadências, guiados por uma guitarra esquizofrénica, mergulhada num fuzz tão imenso que deixaria muita banda de Stoner orgulhosa.

Nesta altura, e já com o público entregue à banda, chegou o ambiente sinistro que vira explosão rock de “Negro” e a dançável “Cauda Turca”. Logo a seguir, “Muito mais Gente” e “Deixa-me Ser”, hinos desta nova geração e cantados em uníssono por público e banda, que deixou bem claro o porquê de ser um dos projetos mais entusiasmantes em Portugal.

Nem o aproximar do final - “Estas são as últimas”, atirou Hélio - impediu a festa de ser feita, com “Corta-Vazas”, tema de abertura do novo disco, aqui servido bem no final, a revelar-se um excelente momento ao vivo. A acabar, “Pelo Pulso”, o primeiro tema do primeiro EP, que, apesar de quatro anos terem passado, ainda nos tem pela garganta e, mais que isso, ainda nos tem completamente abismados com o talento destes músicos.

A pedido do público, ainda houve lugar para um encore, onde a banda aproveitou para agradecer a quem esteve presente. Nem um pedal estragado foi impedimento para o celebrar deste Clarão! “Língua Franca” foi o final em grande que todos desejavam, com direito a um original crowdwalking de Makoto, já em euforia generalizada, contrastando por completo com a tímida postura do início do concerto. Um Clarão iluminou Lisboa - e nós estivemos lá para ver!

Texto: David Silva

Fotografias: Hugo Guerra

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