Palco Principal – Como surgiu a sua paixão pelo reggae?

Prince Wadada – A minha paixão pelo reggae surgiu nos anos 90, finais dos anos 80. Na altura estava na escola. Sempre gostei de Bob Marley e tinha a intenção de aprender inglês. Uma das ferramentas mais práticas que eu tive foi o disco do Bob Marley, “Uprising”. Mesmo com a dificuldade que eu tinha, em Angola, de frequentar um curso mais intensivo, optei por aprender por conta própria e fui atrás desse disco, do “Uprising”, e apaixonei-me completamente. Foi assim que comecei a gostar mesmo muito do reggae.

PP – Então, Bob Marley acaba por ser a sua maior referência musical. Quais são as outras?

PW – O Bob Marley foi a primeira porta que encontrei, mas depois passei a conhecer outros músicos, como o Burning Spear, Peter Tosh. Foi nessa altura que eu transitei do reggae clássico para um reggae mais moderno, com uma coisa mais digital. Foi assim que eu comecei na música como artista.

PP – No início da sua carreira, formou os G. C. Unity com Kool Kleva e Gangsta Dú. Por que decidiu separa-se deles e iniciar a sua carreira a solo?

PW – Eles [Gangsta Dú e Kool Kleva], na época, eram vocalistas de hip-hop e continuaram com as suas carreiras. Resolvi sair dos G. C. Unity porisso mesmo, porque eu não queria uma associação com o hip-hop.

PP – Como surgiu o nome Prince Wadada?

PW – O Prince surge por homenagem a um músico-poeta jamaicano, já falecido, que se chamava Prince Far I, e o Wadada surge por causa de uma música do Burning Spear. Eu morava no sexto andar e então metia música com um som muito alto. Como gostava muito dessa música, que era a Black Wadada, e punha-a a tocar várias vezes, os meus vizinhos passaram a chamar-me de Wadada. E pronto, o nome ficou.

PP - O seu percurso musical está muito ligado ao dos Kussondulola. Acha que o facto de ter trabalhado com esta banda o ajudou a atingir sucesso na sua carreira a solo?

PW – Sim, porque eu estou em Portugal desde 1998 e, nessa altura, para um músico africano entrar dentro do circuito da música portuguesa, era muito, muito complicado. O Janelo dos Kussondulola serviu, nesse caso, como um padrinho. Apercebeu-se das minhas qualidades e achou que podia, também, trabalhar no projecto dele. Convidou-me para fazer a tournée e para participar no segundo ou terceiro disco dele. Era tudo o que eu queria. O próprio Janelo convidou-me também para participar noutro projecto, os Linha da Frente, com outros músicos já de renome na praça do music hall português. Foi uma outra forma de ganhar o meu espaço e de me dar a conhecer.

PP – A sua música Táxi Para Luanda foi um dos seus maiores êxitos. Acha que algum dia vai conseguir fazer uma música com tanto sucesso?

PW – Táxi Para Luanda chega a ser um clássico, porque é uma música que diz muito de mim, de quando vim para cá viver e aquela vontade de não querer estar aqui, querer ir embora, aquela frustração de estar longe da família. Essa música em concerto tinha uma personalidade muito assumida e acho que isso, até hoje, tem esse peso. A Naticongo era uma música que também passava muito nas rádios e nos festivais todos que eu fiz. Hoje, por acaso, já não consigo fazer um concerto onde não tenha essa música [Táxi Para Luanda] incluída. Há sempre alguém que a pede e obrigatoriamente tem que fazer parte do repertório, mas espero, como qualquer músico e qualquer criador, que apareçam outras coisas com a mesma qualidade ou maior ainda.

PP – Já actuou em vários festivais portugueses, tal como o Sudoeste TMN. Gosta do ambiente dos festivais, ou prefere actuar emespaços mais intimistas?

PW – Eu gosto dos dois. Devo dizer que um concerto onde me senti mesmo muito bem foi, por exemplo, num concerto como o Sudoeste. No entanto, gosto também daquele concerto mais intimista, da salinha pequena, onde o artista consegue olhar no olho do público e consegue fazer uma interacção mais fácil e puxar o público para mais perto da música. O diálogo também é mais intimista. Sinceramente, gosto muito, mas não consigo diferenciar, porque cada um tem o seu momento, o seu calor. Existe uma forma de estar nos sítios completamente diferente. A acústica também é outra. Acho um concerto num auditório sempre mais quente, mas nos grandes festivais o calor também não fica atrás, porque quando temos casa cheia e o pessoal a aderir ao concerto, acaba sempre por suplantar os concertos de auditório.

PP – Já dividiu o palco com artistas como Gentleman, Patrice e Damien Marley. Qual a sensação de pisar o palco lado a lado com grandes nomes do reggae internacional?

PW – A sensação é sempre de satisfação e de um certo orgulho, porque já sabemos a responsabilidade que temos em abrir um palco. O orgulho porque é uma forma de reconhecimento por parte das próprias promotoras do espectáculo. Falando precisamente do Sudoeste, quando abri o concerto do Anthony B, sabendo que ele pediu para que nós fizéssemos um encore, sabendo o nível da música deles, claro que deixa contente qualquer artista na minha situação. É uma coisa que não se descreve assim com muita facilidade. Eu prefiro continuar humilde, mas é uma satisfação que deixa qualquer artista contente.

PP – Gostava que a música que faz aqui em Portugal chegasse mais facilmente até Angola?

PW – Sim. Já houve alturas em que a música que se fazia em Angolase ouviamuito aqui e a música que se fazia em Portugalse ouviamuito em Angola, mas, por alguma razão, já não. Nós temos tudo para existir esse tipo de intercâmbio. Sinceramente, eu acho estranho como é que não existe um intercâmbio maior. Não falo só sobre a música, falo sobre a arte.

PP – Sobre a cultura em geral...

PW – Exactamente. Há muita coisa que precisa de ser falada, há muita coisa que precisa ser trocada. Há músicos que já andam há anos a dizer que precisam vir para cá. Precisam de não tocar só para as comunidades africanas, mas tocar também para o público português, e vice-versa. Há muita música boa, por exemplo, eu tive em Angola o ano passado e vi que a maior parte da juventude lá não conhece qual é a música que se faz, qual é a música actual, contemporânea, que se faz agora em Portugal. Isso, sinceramente, deixa-me um bocado triste, porque Portugal tem muito para dara Angola e Angola tem muito para dar a Portugal. Esse aspecto é que me entristece.

PP – Acha que o reggae tem evoluído ao longo destes últimos anos?

PW – Em Portugal, tem evoluído muito. Agora há muitas bandas, há muitos grupos. As coisas, quando começam, não têm aquela qualidade que é possível, precisam do decorrer do tempo, de mais ensaios, de mais trabalho. Lembro-me que, quando comecei a tocar, havia dois ou três bateristas de reggae mesmo bons, e hoje já existem muitos no Porto, no Algarve,etc. Isso tudo porque muitos nomes sonantes da música reggae vêm para Portugal fazer concertos e isso abre um bocado a mentalidade dos músicos. As pessoas também já têm outra forma de abordagem, porque passam a ver, na primeira pessoa, a nata do reggae jamaicano. Isso ajuda muito a crescer e eu, como músico, só tenho a agradecer, porque quando, por exemplo, não tenho um baterista por um motivo qualquer, tenho sempre um leque de três ou quatro músicos a quem eu posso recorrer para o substituírem.

PP – Nas suas músicas podemos encontrar vários estilos musicais, para além do reggae, como o dancehall ou o hip-hop. No entanto, o seu nome surge sempre associado ao reggae. Isso entristece-o?

PW – Não fico triste pelo comentário. Sendo um músico de reggae, a única coisa que me deixa triste é o facto de muitos músicos de reggae terem muita dificuldade de entrar num outro estilo, por exemplo, por norma só tocam em concertos de reggae ou só tocam em festas de reggae. Eu, por acaso, já passei essa barreira. Reggae ou rock ou outra coisa qualquer é tudo música, é tudo notas. Quando a conotação é para segregar, eu fico triste, porque eu acho que um músico de reggae é para tocar em vários festivais e misturar com outros músicos, porque música é música e coisas como gueto do metal, gueto do reggae, não gosto. Isso deixa-me triste. Agora, quando sou conotado como músico de reggae, eu digo sim, sou músico de reggae, mas abro um parêntesis, pois sou músico de reggae de Angola que vive em Portugal e toca com músicos portugueses, coisas completamente diferentes. A minha música tem muito de Angola, mas tambémmuita influência do que se faz cá em Portugal. Essa é a identidade da minha música. Nunca o Prince Wadada do reggae jamaicano. É sempre um Prince Wadada com uma música própria.

PP – Alia muito a sua espiritualidade, uma positive vibe à música. Acha que é importante estarem ligadas uma a outra?

PW – Sim acho, mas isso também tem muito a ver com a minha forma de ser. Eu sou uma pessoa que estou sempre a tentar puxar o lado positivo e fugir dos conflitos, a puxar as pessoas para a consciência, para as coisas boas, para aquilo que realmente faz falta. Tento estar atento para fazer uma crítica social construtiva. Eu acho que isso também cresceu um bocado com o próprio movimento reggae, porque o reggae, quando surgiu, fê-lo como uma bandeira contra a discriminação, uma bandeira contra todo o tipo de injustiça social, eeu não fujo a essa regra. Aprendi muito com as coisas que vou ouvindo e aprendi muito com outros músicos que me influenciam muito.

PP – Quando vai ser lançado o novo trabalho do Prince Wadada?

PW – O novo disco acabou de sair. Eu tenho estado à espera que venha da fábrica já há duas semanas e talvez, a partir de segunda-feira, já vamos ter o disco nas lojas. Já está há cerca de quatro meses há venda na Internet nos sites de venda de mp3, mas fisicamente está aí na próxima semana. Já tenho enviado umas cópias para as rádios. O título do último disco é “Kazukuta”, que quer dizer confusão, e esse disco é um bocado disso, no bom sentido, porque temos vários ritmos.

PP – E o que é que esse disco tem de diferente dos anteriores?

PW – Esse disco é assumidamente afro reggae. Tem muitas malhas com sonoridade africana, principalmente de Angola. Essa é a maior diferença. Eu faço a música como uma espécie de pesquisa, vou à procura da minha verdadeira identidade, é um bocado isso.

PP – E acha que este disco vai ter mais sucesso que os anteriores?

PW – Isso é imprevisível. A única coisa que posso dizer é que estou muito contente com ele, que o feedback das pessoas tem sido muito bom e os concertos têm estado a aparecer. É a única coisa que eu posso dizer. Também nunca fui muito dependente da venda dos discos. Sempre me baseei no show ao vivo. A minha música sempre foi assim. Não gosto muito do lado do laboratório, do estúdio. Eu sou amante da estrada, do concerto. Desde que esse disco me traga concertos, dou-me como satisfeito.

Melanie Antunes

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