Bruce Springsteen, o principal chamariz deste último dia de festival, revelou-se o autor, em conluio com a sua E Street Band, da prestação mais soberba presenciada no decorrer das 5 datas do certame.

Não há nada que de mal que possa ser apontado à prestação dos Kaiser Chiefs, no Palco Mundo do Rock in Rio. Ricky Wilson, à semelhança dos senhores que se seguiram (talvez à exceção de Tim, na medida em que os Xutos e Pontapés se valorizam melhor como um todo), nasceu para estar em cima do palco, para lidar com o público e gingar perante as câmaras, das quais exibe uma extrema consciência. Porém, apesar de constantes em terras lusitanas e do sucesso dos dois primeiros discos da banda, quis parecer-nos que a memória dos presentes, esta tarde, teve dificuldade em recuar até à primeira década de 2000, sendo que canções como I Predict A Riot, Ruby e Oh My God acabaram por ser mais trauteadas do que propriamente cantadas pelo público.

Profícuo em acrobacias, que inclusivamente lhe valeram o famoso episódio da perna partida em Paredes de Coura, Wilson não se fez rogado e desceu no slide que muito dos que passaram pelo Palco Mundo haviam referido, incrédulos, sobrevoando as cabeças do público enquanto cantava. Uma proeza com dupla pontuação, porque além de, no fundo, ter feito a atuação dos Kaiser Chiefs, teve o condão de despertar as alminhas mais adormecidas que se foram encontrando junto ao palco.

Os senhores que se seguiram, dispensam apresentações. De certa forma, é como se estivessem a tocar em casa, não só dadas as inúmeras vezes que passaram por Portugal, mas também porque há já muito tempo que fizemos questão de roubar Saul Davis a “terras de sua majestade”, desde que se enamorou por uma portuguesa.

Assente num alinhamento que contemplou todos os êxitos de maior relevância da história dos James, o concerto viveu essencialmente da presença algo excêntrica de Tim Booth, ora perdido em danças autistas em cima do palco, ora entoando fortemente os refrões das canções de que todos mostrámos ter saudades. Um modo salutar de estar em palco, que disse ter aprendido graças aos ensinamentos do mestre Springsteen, cuja música não apreciava particularmente, até ter sido arrastado para um concerto em Birmingham, pelos amigos, aos 17 anos. “Os meus ídolos dos 16 anos eram todos autodestrutivos.”, e com Springsteen aprendeu uma nova maneira de estar em palco, em oposição ao glamour trágico profissionalizado pela maioria das estrelas do rock.

Se Cristo caminhou sobre as águas, Tim Booth tentou caminhar sobre o público, num passeio frustrado de pouco mais de três passos, mas que ilustra muito bem a relação de proximidade entre os James e os fãs nacionais, que inclusivamente, a pedido, tentaram sentar-se quando chegou a vez de Sit Down, uma tarefa complicada dado o afunilamento de gente na área circundante ao palco principal. Solidário, foi Booth quem acabou por sentar-se na beira do palco, a finalizar um concerto que acabou por não ser só para a camada fidelizada, mas para todos os que cresceram embalados pelo espetro radiofónico e se juntaram ao refrão, deixando o cantor visivelmente embevecido.

Tão costumeiros como a Ivete Sangalo em andanças pela Cidade do Rock - pelo menos naquela edificada no Parque da Bela Vista de dois em dois anos -, aos reis do rock português foi dado o privilégio de antecederem Bruce Springsteen no alinhamento.

Com a habitual assistência de t-shirts de mangas arregaçadas e bandanas vermelhas (à quais se juntaram umas cor-de-rosa de patrocínio muito esperto), num alinhamento pouco surpreendente, os Xutos e Pontapés deram um concerto cumpridor, que arrancou em força com Contentores, se alastrou por todo o recinto, entoado a quase 70 mil vozes, e fechou com a mais fraquinha balada “Prá Sempre”.

A título de curiosidade, esta foi a terceira atuação de Zé Pedro a edição de 2012 do RIR, depois de ter passado pelo Palco Sunset ainda sobre a batuta dos Xutos, e de ter fechado a noite de sábado no espaço Vodafone Showcases, com os Ladrões do Tempo.

Poucos temas depois de uma avassaladora entrada em palco, marcada pelas saudações na língua de Camões, Bruce Sprinsteen revelou-nos a sua missão: estimular os nossos órgãos sexuais com o poder do rock 'n roll. Verdade seja dita, a coisa não se fez por menos, com os clássicos do cancioneiro springsteeneano a desencadearem uma euforia fora de série na quantidade imensa de pessoas que acorreram, a noite passada, ao Parque da Bela Vista só para o verem e ouvirem. Tenha-se como exemplo a histeria face às primeiras notas sopradas da harmónica, em The River, cujos versos foram entregues às vozes do público.

Alado pela não menos mítica E Street Band, que ganhou um novo elemento quando The Boss chamou a palco uma criança com quem finalizou Waitting On A Sunny Day, Springsteen apresentou-se como líder e maestro de um portentoso espetáculo rock, que a ninguém terá sido indiferente e que não consegue deixar de nos remeter para história que nos foi contada por Tim Booth. Os valores aqui proclamados foram veiculados por uma energia surpreendente, pela forma física invejável de quem, do topo de riquíssimos 62 anos, percorre em acelerada correria as imediações do Palco Mundo.

She's The One, I'm Not Free e Hungry Heart foram anunciadas pelos cartazes roubados ao público. Glory Days atestou, não só, que a noite foi de glória, como foi a Bruce Springsteen a quem coube a glória máxima nesta edição do Rock in Rio. A pretexto de Dancing in The Dark, duas senhoras foram convidadas a subir ao palco para uns passos de dança a convite do “patrão”, a pautarem um regime de simpatia, de quem não tem medo de se misturar com os fãs e receber uns quantos abraços mais atrevidos.

A contagem até quatro berrada em conjunto com o público confirmou a suspeita: Born In The USA, recebida por muitos milhares de braços no ar, levou os fãs ao rubro. O momento mais aguardado, senão o momento maior de uma noite que, a cargo de Springsteen, já se havia revelado imensa.

Duetos luso-brasileiros

Sob um céu azulado, a dissipar toda e qualquer dúvida de chuva que pudesse ter ficado da tarde anterior, Carminho e Pedro Luís deram as boas vindas, numa fusão fado-funk, aos primeiros domingueiros desta 5ª edição do Rock in Rio. No Palco Sunset, a fadista e o cantor brasileiro mostraram-nos trabalhos individuais e uniram-se numa simbiose de ritmos distintos, em língua portuguesa, que acabaram por desaguar na Noite dos Mascarados, de Chico Buarque.

Numa luta de força presencial entre os dois representantes, não dos duelos mas das cooperações luso-brasileiras que se seguiram, David Fonseca teria sido o flagrante vencedor. Só numa primeira etapa, a coqueluche da música brasileira Mallu Magalhães, ainda surpreendentemente desconhecida do público português, teria logo perdido o concurso de popularidade. A fraqueza vocal e alguma insipidez em palco que lhe são características, apesar da simpatia em jeito muito próprio, não ajudaram, tendo mesmo originado alguns comentários menos amistosos da parte do público (“Deixa cantar o David!”), que esperemos que não lhe tenham chegado aos ouvidos. Já este, tem como forte vantagem um forte domínio do público português, que conhece como ninguém, e que facilmente se derrete com a postura carismática do cantor, que não perde uma oportunidade de interação.

Do repertório de Mallu, ainda que meio despercebido, é de salientar o single Velha e Louca que, apesar da versão esmorecida, não deixa de ser uma grande canção. Quanto ao ex-Silence 4, destacamos Superstars e The 80's, enérgica homenagem aos anos 80, que rematou a primeira passagem de David Fonseca pelo Rock in Rio. Para a próxima, desejamos-lhe um palco maior!

Ainda pelo Palco Sunset, Rui Veloso teve o privilégio de se juntar ao Lendário compositor brasileiro Erasmos Carlos, para mais um dueto colaborativo entre o país recetor e a casa mãe do Rock in Rio.

A 6º edição do Rock In Rio Lisboa já se encontra formalmente confirmada para 2014.

Originários do país que irá acolher a próxima edição do Rock in Rio em 2013, na cidade de Buenos Aires, os Tan Bionica deram um pequeno concerto, de modo a aguçar apetites e curiosidades.

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Texto: Ariana Ferreira
Fotografias: Filipa Oliveira (exceto Bruce Springsteen: Agência Zero)

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