A cantora e compositora portuguesa Sara Serpa é uma das 14 mulheres do coletivo We Have Voice, criado nos Estados Unidos, que em maio de 2018 lançou o Código de Conduta para as artes performativas, em que identifica e explica como agir perante situações de abuso de poder ou de discriminação sexual.

Em entrevista à agência Lusa, a artista diz que espera que o código de conduta seja traduzido para português e seja adotado pelas instituições portuguesas, porque “facilita as relações entre instituições e artistas, quando alguma coisa corre mal”.

A carreira musical de Sara Serpa iniciou-se em Portugal, onde, segundo a cantora, o jazz continua a ser, maioritariamente, um meio artístico “masculino”, não só em termos de músicos, mas também de professores, curadores e também jornalistas.

Desta forma, Sara Serpa identifica que as mulheres são uma minoria, o que afeta as relações profissionais.

Apesar de não ter sofrido nenhuma situação grave de abuso de poder ou discriminação sexual, Sara Serpa afirma que, “obviamente”, já ouviu “muitas 'bocas' e comentários sobre mulheres, que normalmente os músicos de género masculino não farão entre eles” sobre o corpo ou a roupa, e que fazem “associar características físicas com a capacidade de trabalho”.

“O código de conduta deu-me mais poder e assertividade de identificar situações que às vezes me faziam sentir desconfortável e que eu não conseguia perceber porquê”, explica a cantora, que também reconhece que “toda a gente nesta comunidade de artistas tem um papel e um poder”.

“O meu local de trabalho pode ser um ensaio em casa de alguém, pode ser um estúdio, pode ser um hotel quando estou em digressão. É muito fluído e há muitas barreiras (…) que podem propiciar abusos de poder e agressão sexual”, alerta a cantora.

O código de conduta do We Have Voice já foi adotado por 57 instituições nos Estados Unidos da América, Canadá, Austrália e Itália.

Residência artística em Nova Iorque

A cantora iniciou este mês um ano de residência artística numa das mais importantes instituições culturais de Nova Iorque, a Park Avenue Armory, para promover a responsabilidade social com o projeto “Aquarius”.

A residência artística de Sara Serpa, a primeira pessoa portuguesa a conseguir um espaço na Park Avenue Armory, começou este mês, com total liberdade e sem nenhuma condição, tudo devido à vontade de agir perante as preocupações sociais da cantora e de contribuir para uma sociedade mais acolhedora.

A crise migratória no Mediterrâneo e a ignorância por parte da sociedade foi o que inspirou Sara Serpa, que mora nos Estados Unidos há 14 anos, a propor o projeto interdisciplinar “Aquarius” à instituição nova-iorquina Park Avenue Armory, que lhe deu as chaves de um estúdio ao lado do Central Park durante um ano.

Em entrevista à agência Lusa, Sara Serpa confessou que “Aquarius” é um produto do que a faz sofrer e a preocupa no mundo e tem como objetivo “criar um espaço”, através da interdisciplinaridade da música, imagens e voz, “onde possa haver reflexão e reconhecimento de que todos nós temos um papel para criar sociedades mais hospitaleiras”.

A cantora antecipou que vai transformar a sala num “santuário criativo”, já que a Park Avenue Armory lhe confere um ambiente “muito acolhedor e propício para a criatividade”.

É a partir daqui que a portuguesa vai desenvolver um dos projetos mais ambiciosos da sua carreira, que a vai levar em viagem aos centros de acolhimento de migrantes na Europa para tentar compreender “porque é que a comunidade civil em diversos países (…) continua a ignorar o que está a acontecer, que é realmente uma tragédia internacional”.

“Estar aqui dá-me acesso a imensas fontes, imenso material que eu, estando em casa, por exemplo, não teria acesso”, disse a compositora, acrescentando que os eventos culturais promovidos pela instituição e o contacto com as escolas são um importante acréscimo para o trabalho.

“Um espaço em Nova Iorque, deste tamanho, com um piano…”, refletiu a compositora, “é verdadeiramente um privilégio”.

A Park Avenue Armory é uma organização sem fins lucrativos, instalada no edifício do antigo Sétimo Regimento Militar (Seventh Regiment Armory) com a missão de revitalizar o monumento com oferta cultural, artística e educativa, promovendo o contacto entre artistas, curadores, população e escolas.

O “Aquarius” insere-se numa série de projetos que a artista de jazz já tem desenvolvido sobre a relação entre Europa e África e a relação imperialista que diz que continua a existir no mundo, para os quais se foi inspirando na história da família.

Os pais e um avô de Sara nasceram em Angola e é esta parta da história familiar que a inspira para os seus trabalhos, como se vê também no projeto “Recognition”.

Trata-se de uma combinação entre filmes mudos gravados pelo avô em Angola, com uma máquina Super-8, que ganharam uma banda sonora e uma nova narrativa pelas mãos de Sara, um projeto que foi sempre apresentado ao vivo e que vai ser transformado num álbum, em julho.

Em outubro, a cantora vai passar por diversos palcos portugueses – como o Centro Cultural de Belém e o festival Bragança Jazz – para promover o disco “Close Up”, gravado em trio com a saxofonista Ingrid Laubrock e o violoncelista Erik Friedlander.

Sara Serpa vai a Portugal duas vezes por ano e gosta sempre de aproveitar as oportunidades profissionais que a levam à Europa para passar pelo país. “É importante para mim e para a minha sanidade mental”, afirmou.

“Estou em Nova Iorque, que é uma cidade onde a oferta cultural é imensa e onde há imensa experimentação, criatividade, competência e competitividade. Todas essas coisas forçam uma pessoa a dar o seu melhor constantemente para conseguir sobreviver em termos profissionais”, concluiu a cantora portuguesa, sobre o seu percurso.

Sara Serpa nasceu em Lisboa, começou a tocar piano aos sete anos e, com onze, entrou na Escola de Música do Conservatório Nacional, em Lisboa. Mais tarde, ingressou no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, onde se licenciou em Reabilitação e Inserção Social.

Já nos Estados Unidos, em Boston, frequentou a Berklee College of Music e o New England Conservatory of Music, onde concluiu o mestrado em Jazz de Performance.

Em 2008, estreou-se a solo com o disco “Praia”, ao qual juntou outros dez discos até agora, o último dos quais, "Close Up", foi lançado no ano passado.

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