Contactado pela agência Lusa, o vice-diretor da Exhibitio, Jorge Viegas, alertou que a crise "pode colocar em causa a sobrevivência de algumas galerias, sobretudo as mais jovens", e recordou que o setor da Cultura ainda estava a recuperar da crise económica de 2008.

"Vai depender da saúde financeira das galerias e dos artistas com que trabalham. Os galeristas podem não querer endividar-se novamente para enfrentar isto", comentou o galerista da 3 + 1, com sede em Lisboa.

A Exhibitio, criada no ano passado, conta com cerca de 20 galerias de arte e veio ocupar o lugar da Associação Portuguesa de Galerias de Arte, cuja atividade foi sendo desativada nos últimos anos.

"Ainda não fizemos nenhum contacto formal, mas a situação das galerias de arte é igual à de qualquer empresa porque temos fins lucrativos, portanto ficamos excluídos do fundo do Ministério da Cultura, e o mesmo é válido para muitos dos artistas da área das artes visuais", comentou o galerista.

A direção da associação está particularmente preocupada com os artistas porque "a grande maioria trabalha com recibos verdes, mas só os passa quando há vendas, e não entram nos parâmetros exigidos pelos apoios" anunciados.

"O mesmo acontece com os apoios anunciados por exemplo pela Fundação Gulbenkian, que é mais dirigido a contratos que foram cancelados, portanto associações ou entidades e companhias, e não para artistas, cuja maioria não tem contratos, como é o caso das artes plásticas e visuais", alertou o galerista.

Jorge Viegas considera a situação "muito triste", e adianta que tem recebido diversas chamadas telefónicas de artistas que, ao tentarem preencher o formulário na plataforma ´online´, "esbarram contra campos de preenchimento obrigatório que inviabiliza qualquer ajuda".

A Galeria 3+1 encerrou a 13 de março, como muitos destes espaços, na sequência das exigências sanitárias para fazer face à pandemia da COVID-19, quando estava para inaugurar uma exposição de João Ferro Martins, com muitas peças inéditas.

Questionado pela Lusa, sobre a possibilidade de continuar a atividade online, o vice-diretor da Exhibitio disse que "é preciso ter cuidado com esta modalidade virtual".

"Há obras que se podem mostrar online, como a video-arte, mas no caso da pintura, escultura ou instalações é totalmente diferente, há uma necessidade da presença física, de exposições", defendeu.

As galerias não querem que o público se habitue ao formato online para que, após a crise, regressem à frequência normal das exposições dos seus espaços.

"As principais preocupações agora são: como nos vamos manter vivos e ativos nestes tempos de quarentena, e como ajudar os artistas para evitar que a atividade deles fique congelada", resumiu.

A Galeria 3+1 não teve ainda cancelamento de vendas, mas muitas foram adiadas, o que "vai certamente afetar a atividade comercial".

Questionado sobre o impacto do adiamento da ARCOlisboa pela organização, Jorge Viegas aproveitou para sugerir à Câmara Municipal de Lisboa que faça, mesmo assim, as habituais aquisições de arte com o seu fundo, "independentemente da não-realização da feira", este ano.

Outras soluções para o imediato, na opinião do galerista, passam pela reativação de compras de obras de arte para os museus, pelo Ministério da Cultura, "que deixaram de existir há muitos anos".

Também propõe que o Ministério da Cultura, através da coleção de arte contemporânea, efetue já as compras no valor de 500 mil euros que tinha anunciado, e até "antecipem as compras de 2021".

Um dos problemas que a Exhibitio antecipa quanto à recuperação do mercado de arte em Portugal é o da sua grande dependência em relação a Espanha, "que vai ser bastante afetada".

Sobre a ideia de que a arte é um bom investimento em tempos de crise, disse: "Isso é apenas válido para os artistas conceituados. É de esperar que, assim que as grandes leiloeiras internacionais como a Christie´s e a Sothebys voltem ao ativo, se ultrapassem recordes de vendas de algumas obras, mas não serão de artistas emergentes".

Contactado também pela Lusa, Francisco Pereira Coutinho, da Galeria São Mamede, também receia pela sobrevivência de algumas galerias de arte do país, porque "durante meses não se vai vender nada".

"Estamos muito apreensivos. O futuro é uma grande incógnita. Fizemos alguns contactos para venda que não deram em nada", revelou à Lusa.

Cristina Guerra é outra galerista cujo trabalho está "em modo de espera", mas com grande vontade de voltar ao ativo: "Isto assim não é viver. Tenho esperança de reabrir no início de maio", disse, contactada pela Lusa, depois de ter fechado a galeria, em Lisboa, a 14 de março.

Em abril iniciou um processo de lay-off da galeria, que possui cinco trabalhadores.

"Neste momento não há muito a fazer. Eu preciso de criar as exposições, de contactar com os clientes presencialmente, e mostrar as obras dos artistas", explicou, sobre as suas necessidades, que espelham as de muitos galeristas do país.

"A minha maior preocupação é para com os artistas. Eles é que estão mais desprotegidos", disse à Lusa.

Em Portugal, segundo o balanço feito hoje pela Direção-Geral da Saúde, registaram-se 311 mortes, mais 16 do que na véspera (+5,4%), e 11.730 casos de infeções confirmadas, o que representa um aumento de 452 em relação a domingo (+4%).

Dos infetados, 1099 estão internados, 270 dos quais em unidades de cuidados intensivos, e há 140 doentes que já recuperaram.

Mais informações sobre o COVID-19.

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