Na sequência de questões enviadas à DGPC pela agência Lusa sobre a montagem da exposição que não chegou a abrir, este organismo do Ministério da Cultura respondeu que o adiamento se deveu à pandemia de COVID-19, que obrigou ao encerramento de espaços culturais entre 14 de março e 18 de maio.

"Devido à situação de pandemia e à necessidade de cumprimento do plano de contingência adotado pela DGPC, ao nível da segurança e saúde pública, tornou-se necessário o adiamento da inauguração da exposição por três meses", justifica a entidade.

A DGPC acrescenta que a exposição “Dissonâncias” teve a sua "inauguração adiada para 30 de setembro de 2020, por acordo entre a diretora do museu e a DGPC, tendo em conta a necessidade de ajustar a programação do MNAC de 2020, face ao prolongamento de exposições anteriores em virtude da pandemia, e à necessidade de realizar os procedimentos de contratação pública essenciais à sua concretização, os quais estão neste momento adjudicados aos respetivos fornecedores".

Na terça-feira, o jornal Público noticiou que a exposição não chegou a abrir, por "falta de dinheiro para projetores e sinalética".

Com base no relato da diretora, a notícia indicava que "Dissonâncias", com 87 obras de 48 artistas, em pintura, desenho, escultura, fotografia e instalação, que ocupa mais de metade das salas do museu, deveria ter sido inaugurada em junho, depois de sucessivos adiamentos forçados pela pandemia da COVID-19, e por problemas técnicos na montagem, com a falta de seis mil euros para os resolver, acabou por ficar de portas fechadas.

E mesmo que os problemas não sejam resolvidos, não poderá ser visitada, porque há obras que têm de ser retiradas para salvaguarda da sua integridade, segundo o jornal.

A Lusa contactou a diretora do MNAC, Emília Ferreira, que remeteu os esclarecimentos para a DGPC.

"Em relação às questões colocadas, esclarece que a programação do museu, relativamente ao último trimestre de 2020, tem estado a ser trabalhada entre a direção do Museu, Dra. Emília Ferreira e a DGPC, meramente ao nível formal no sentido do cumprimento da programação do MNAC proposta pela sua diretora", acrescenta aquele organismo.

A DGPC adianta que no dia 17 de setembro vai inaugurar no MNAC a exposição “O Elogio da Melancolia”, do artista António Faria, que é uma readaptação da exposição que esteve no Museu do Côa. No dia 1 de outubro, terá início o programa “LOOPS”.

"Neste sentido, a DGPC confirma que o MNAC dispõe de todas as condições técnicas para apresentar a programação proposta pela sua diretora, relativamente ao último trimestre de 2020", declara ainda a tutela, classificando de "excelente" o trabalho que está a ser desenvolvido pela equipa do museu.

Na quarta-feira, a presidente do Conselho Internacional dos Museus-Portugal (ICOM na sigla em inglês), Maria de Jesus Monge, considerou a situação em causa "muito grave, sobretudo numa altura de pandemia, em que as equipas dos museus estão a fazer um grande esforço para manter estes espaços abertos e a funcionar".

"Aparentemente há um desconforto por parte da tutela com esta exposição, porque contém maioritariamente doações dos próprios artistas", comentou Maria de Jesus Monge, acrescentando que "tem havido um anúncio de investimento do Ministério da Cultura em arte contemporânea, mas isso é posto em causa nesta mostra. O que se veria ali é a boa vontade dos artistas".

De acordo com o Público, a exposição "é composta exclusivamente por obras compradas pelo Estado ou doadas por colecionadores e artistas na última década", e inclui nove compradas com dinheiros públicos, de autores como Columbano Bordalo Pinheiro ou José Maçãs de Carvalho, "mas a esmagadora maioria do acervo de que é feita 'Dissonâncias', resulta de doações de artistas" como Ana Vidigal, Cristina Ataíde, Rodrigo Oliveira, Inês Norton, Pires Vieira, e de outras do Grupo de Amigos do museu ou de colecionadores privados, como Maria João Santos, Armando Cabral e Teresa Baldé.

Na opinião do presidente da Associação Portuguesa de Museologia (APOM), João Neto, "é uma situação grave, na medida em que as obras foram doadas, e os doadores devem merecer respeito pela tutela".

"Foi uma desatenção, um lapso estratégico, pois se o Ministério da Cultura tem vindo a comprar obras de arte contemporânea a artistas, deveria ter, no mínimo, consideração pelos artistas que não venderam – mas doaram - as suas obras a todos os portugueses, para ficarem num museu", sustentou o responsável, contactado pela Lusa.

Para João Neto, "são visíveis os problemas que a pandemia causou nas finanças do Estado, mas esta era uma das exposições que deveria realmente abrir”, apelou.

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