Numa carta aberta enviada à Lusa, assinada por 187 escritores lusófonos, que vão do brasileiro Chico Buarque às portuguesas Hélia Correia ou Lídia Jorge passando pelo moçambicano Mia Couto, os signatários mostram-se conscientes de que pode haver um “custo” em “dar palco ao que, em circunstâncias normais, não mereceria uma nota de rodapé”.

No entanto, os autores preferem “correr esse risco face às circunstâncias vividas em Portugal, que [consideram] graves e inquietantes, nos domínios do racismo, do populismo, da xenofobia, da homofobia, das emoções induzidas, da confusão destas com ideias e, em geral, de tudo aquilo que de mais repugnante pode emergir de uma sociedade em crise e em estado de medo”.

“Temos de reagir antes que seja tarde. E usar as palavras contra o insidioso ataque à democracia, ao multiculturalismo, à justiça social, à tolerância, à inclusão, à igualdade entre géneros, à liberdade de expressão e ao debate aberto”, escrevem os autores, realçando que “quem gosta de Portugal jamais diz ‘Vão!’, antes diz ‘Venham!’”.

Os signatários defendem que não se pode olhar para o lado sob pena de se emudecer e, por isso, comprometem-se a “jamais participar em eventos, conferências e/ou festivais conotados – seja de que maneira for – com ideias que colidam com os princípios da tolerância e da dignidade humana”.

"É preciso tomar consciência de que as ameaças que ora rastejam propiciam uma quebra irreparável dos valores humanistas, da solidariedade e do mútuo apoio – valores laborais e de igualdade de direitos constitucionais à saúde, à educação, ao emprego, à justiça, à cultura", escrevem.

O documento apela ainda a “todos os cidadãos portugueses, à sociedade civil, aos professores das escolas e das universidades, a que se distanciem de projetos e movimentos antidemocráticos e ajudem na consciencialização das novas gerações para a urgência dos valores humanistas e para os riscos das extremas-direitas”.

O apelo para uma consciencialização dos riscos vividos face ao ressurgimento destas ameaças e para que assumam também o seu papel nesta luta é deixado também aos órgãos de justiça, à comunicação social, aos partidos políticos, e ainda ao Presidente da República, ao parlamento e ao Governo, para “que exerçam um escrutínio rigoroso da constitucionalidade e assegurem que o fascismo não passará”.

A carta aberta alerta que cultura e literatura “não florescem nestes tempos sufocantes, em que a terrível crise humanitária dos refugiados, nos deploráveis campos às portas da Europa, e a ameaça ecológica e ambiental, à escala planetária, são banalizadas nos noticiários”, salientando que, aos problemas já existentes, se juntarão os que decorrem da crise causada pela pandemia de covid-19: “o alastramento do desemprego e da pobreza, pasto fértil para demagogias, teses anti-imigração, racismos e extremas-direitas”.

“Na certeza de que, como sempre nos mostrou a História, quem adormece em democracia acorda em ditadura”, terminam os autores.

A carta aberta é subscrita por perto de duas centenas de escritores de língua portuguesa, incluindo nomes como Alice Vieira, Almeida Faria, Carlos Tê, Laborinho Lúcio, Ana Margarida de Carvalho, Eric Nepomuceno, Gonçalo Cadilhe, Francisco José Viegas, Isabel Minhós Martins, Itamar Vieira Júnior, Jacinto Lucas Pires, Joel Neto, José Eduardo Agualusa, José Fanha, José Luís Peixoto, Julián Fuks, Luísa Costa Gomes, Luísa Ducla Soares, Manuel Jorge Marmelo, Mário Cláudio, Mário de Carvalho, Nélida Piñon, Ondjaki, Richard Zimler, Rodrigo Guedes de Carvalho, Sandro William Junqueira, Tiago Rodrigues e Teolinda Gersão.

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