O álbum, que o músico define como “um disco negro para todas as cores”, viria a tornar-se num dos clássicos do criador de "Realce", "um dos mais visionários", segundo a crítica norte-americana, ao combinar 'reggae', samba, 'funk', anos antes de a 'world music' se afirmar como género a nível global.

"Refavela" traduz sobretudo a longa viagem de Gilberto Gil à Nigéria, em 1977, o seu contacto com o 'afrobeat' do músico e ativista Fela Kuti (1938-1997), criador de "Beasts of No Nation", e a descoberta da 'juju music', que pouco depois se afirmaria a nível internacional.

A letra da canção que dá nome ao álbum original é uma denúncia das condições de vida no Brasil, que ao mesmo tempo reconhece razões da emergência do samba, do rap ou do chamado ‘funk carioca’, nas favelas.

“A refavela /revela o salto /que o preto pobre tenta dar /quando se arranca /do seu barraco (...)/ A refavela /revela o choque /entre a favela-inferno e o céu (...) batuque puro/ de samba duro de marfim”.

O concerto hoje, em Lisboa, conta com Bem Gil, filho de Gilberto, com a cabo-verdiana Mayra Andrade, a italiana Chiara Civello, músicos como o baterista Domenico Lancelotti e o percussionista Thomas Harres, e prossegue a digressão europeia de "Refavela 40", que sucede ao circuito brasileiro iniciado em setembro do ano passado, no Rio de Janeiro.

Durante a digressão, os concertos recuperam o alinhamento do disco de 1977, com canções de Gilberto Gil como "Refavela", "Aqui e agora", "Sandra", "No Norte da Saudade", "Balafon", "Era Nova", mais o "Samba do Avião", de Tom Jobim, e "Ilê Ayê", de Paulinho Camafeu, sem esquecer a "Patuscada de Gandhi", partilhada com os Filhos de Gandhi, na gravação original.

Os concertos, porém, também têm sido alargados a outras criações de Gil, na época, como "Queremos saber", "É" e "A gaivota", sem esquecer a célebre canção do "Sítio do pica-pau amarelo", que o músico compôs na altura para a série televisiva infantojuvenil, inspirada nas histórias de Monteiro Lobato.

Temas de Bob Marley como "Exodus", "Jamming" ou "Three little birds", e de Caetano Veloso, como "Two naira fifty kobo", recordando o 'coração' do Tropicalismo, também têm feito parte do alinhamento dos concertos.

Gilberto Gil, que foi ministro da Cultura do Brasil de 2003 a 2008, tem atuado recorrentemente em Portugal, destacando-se, em anos mais recentes, os concertos com Mariza e a Orquestra Filarmónica das Beiras, no Estádio Municipal de Aveiro, a apresentação dos álbuns "Gil Luminoso" e "Fé na Festa", nos coliseus do Porto e de Lisboa, e ainda atuações, na Casa da Música, no Porto, e no CCB, em Lisboa, com Jaques Morelenbaum e Bem Gil.

Em 2014, atuou a solo em diversas salas, no âmbito da homenagem a João Gilberto.

Há dois anos, Gilberto Gil e Caetano Veloso celebraram 50 anos de carreira com a digressão “Dois Amigos, Um século de Música”, que teve várias etapas em Portugal.

No passado mês de março, com Gal Costa e Nando Reis, apresentou, em Lisboa e no Porto, o projeto "Trinca de Ases", criado em homenagem ao advogado Ulysses Guimarães (1916-1992), opositor à ditadura militar, no Brasil.

No passado mês de maio, Gilberto Gil cancelou o concerto de "Refavela 40", que tinha marcada para Telavive, no próximo dia 04, na sequência dos protestos em Gaza, durante os quais o exército israelita matou 60 palestinianos.

O concerto de hoje à noite em Lisboa é de entrada livre, e tem início marcado para as 22:00.

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