A sério? A pergunta impõe-se. Nuno Artur Silva parece mais estar a brincar. Na verdade, diz-nos repetidamente que não é ator. Não é. É autor. No entanto, tal não o impede de fazer uma espécie de stand-up com uma contradição: é um solo... acompanhado. Os Dead Combo e o artista António Jorge Gonçalves são a alavanca que levou Artur Silva para os palcos do Teatro São Luiz, em Lisboa,onde esteve de 7 a 10 de janeiro e ao qual regressa de 3 a 8 de fevereiro (excepto sábado). "A verdade é que logo se verá".

Nuno Artur Silva

SAPO On The Hop: O teleponto serve como apoio uma vez que nunca fez um espetáculo como "Nuno Artur Silva. A sério?"?

Nuno Artur Silva (NAS): Sim, eu não sou um ator, nem um comediante. Eu sou essencialmente um autor e isto é um prolongamento à minha atividade de autor. Por isso, é fundamental para mim ter ali um suporte de texto visível.

Como surgiu a ideia?

NAS: Isto estava na minha cabeça assim de forma vaga, mas quando o Hugo Nóbrega, que é o diretor do Famous Humour Fest, me ligou para apresentar uma noite de comédia para escolher os comediantes, eu quase que instintivamente disse-lhe que não me apetecia fazer isso, que já tinha feito outras vezes. E disse-lhe que desta vez queria fazer um solo. E ele perguntou: "A sério?" (...) Entretanto, desliguei o telemóvel e decidi que queria fazer um solo, mas acompanhado. Telefonei ao meu parceiro e amigo António José Gonçalves, com quem eu já tinha trabalhad0, e desafiei-o a desenhar em tempo real a versão dele do que vai pela minha cabeça no espetáculo. Depois pensei também que queria ter música ao vivo e desafiar um músico, e de repente ocorreu-me que os Dead Combo seriam a banda ideal, sendo isto um espetáculo de humor que é um pouco o outro lado do fado. Tal como os fadistas surgem acompanhados à viola e à guitarra, eu achei que os Dead Combo eram uma espécie de fadistas transviados (...) Estava escolhido o quarteto!

Uma pergunta que é mais uma curiosidade: os desenhos são diferentes todas as noites?

NAS: Os desenhos são diferentes todas as noites, tal como a música varia todas as noites. Isto é: há partes que têm a ver com o guião que estão estabelecidas (...) o que nós fazemos todas as noites são variações à volta de uma partitura.

O Nuno já esteve no papel de ator algumas (poucas) vezes: pelo menos no doc-reality "Isto É O Q", do Canal Q. Não se sente confortável nesse papel?

NAS: Não, não. Eu sinto-me confortável noutros papéis que têm mais a ver com os bastidores.

Mais a escrever papéis, é isso?

NAS: A escrever papéis sinto-me confortável. A representar não me sinto muito confortável. Gosto de falar para públicos, dei aulas muitos anos, gosto de dar conferências, gosto de falar com pessoas, e digamos que isso é o mais longe que eu vou em termos de performance. Por isso, de certa maneira o que eu faço aqui para me defender é tirar isto do território da representação. (...) Estou a meter isto mais no território de conversar com as pessoas.

José Frade

Como reagiu ao caso Charlie Hebdo tendo em conta que, de forma claramente diferente, é certo, faz uma espécie de jornal satírico português, o Inimigo Público?

NAS: É preciso dizer que, enfim, qualquer comparação é absolutamente despropositada...

Claro, claro...

NAS: Nós quando fazemos humor, o máximo que nos pode acontecer é haver um ato de censura, de haver intervenção da entidade empregadora; digamos que nunca a nossa vida estaria em risco na nossa atividade.

E será que alguma vez os cartoonistas do Charlie Hedbo teriam pensado nisso?

NAS: Sim, quer dizer, a partir do momento me que houve o acontecimento de 2011, é preciso ter mais atenção em mexer em matéria que é de facto muito polémica em vários países. Suscita reações mais exacerbadas.

Mas presumo que não concorde que esse medo controle depois as escolhas editoriais?

NAS: Não, absolutamente. Numa sociedade democrática, não deve haver nenhuma hesitação sobre o ato de fazer humor.  Não podemos estar a fazer o humor a pensar: "ai, eu não posso fazer isto por causa de aquilo, aquilo, aquilo..." Não, precisamente, eu acho que a qualidade de uma democracia mede-se pela sua capacidade máxima de fazer humor. De facto, infelizmente, estamos a regredir e está já haver situações em que poderá haver humoristas a pensar duas vezes antes de fazer alguma piada porque é sua vida que está em jogo.

No espetáculo diz: "Nós escolhemos os filmes em que queremos viver". Qual é o seu filme atualmente e em qual gostaria de estar?

NAS: O filme em que eu gostaria de viver? Na verdade, o filme em que eu gostaria de viver atualmente seria passado numa daquelas ilhas do Pacífico Sul, durante uns tempos (...) umas férias com a família para ler livros e escrever só o que me apetece. Isto neste momento era o filme em que eu gostava de estar [risos]. Era mesmo! Mas pode dizer que estou a gostar deste filme de ir todas as noites para o teatro reunir com aquele grupo de amigos para fazer o espetáculo.

Fotos @José Frade

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