Tempos houve, mais precisamente há 30 anos quando foi lançado “Doolittle”, em que fãs e críticos profissionais podiam sugerir num assomo de entusiasmo e sem maiores constrangimentos que os Pixies eram a “melhor banda de ‘rock’ do mundo”. O álbum vinha depois de outras duas perólas, o EP de estreia “Come on Pilgrim” e “Surfer Rosa”.

O tempo passou: ninguém consegue ser absolutamente genial em todos os momentos e a seguir veio o agradável “Bossanova” que, a despeito do título, trazia mesmo era os tons suaves da surf music para limar a agressividade brutal dos antecessores. E não aconteceu muito mais: “Trompe le Monde” foi o epitáfio desta primeira fase e deste só o noise de “Planet of Sound” surgiu no extenso alinhamento (em torno de 40 canções, consoante o espetáculo) que tem composto a digressão europeia do grupo norte-americano.

Em 2004 a banda ressurgiu, passou por Portugal no Super Bock Super Rock e correu o mundo todo (literalmente), esgotando salas para tocar “apenas” os clássicos. O concerto do Campo Pequeno não chega ao ponto de levar a dizer que talvez fosse melhor antes: se as faixas dos mornos “Indie Cindy” (2014) e “Head Carrier” (2016) foram poucas, as do álbum do ano passado, “Beneath the Eyrie”, foram muitas.

O álbum, respeitável com seus tons “góticos”, com especial destaque para as performances de “In the Arms of Mrs Mark of Cain“ e “Los Surfers Muertos”, faz com que o concerto tenha sido marcado pela alternância entre euforia e silêncio respeitoso, com o grupo a alinhar o vasto repertório através de uma atuação estóica e que dispensa as diversas noções do que muitas vezes se entende como “espetáculo”.

Pixies no Campo Pequeno
créditos: Tiago Cortez Pinto/ Everything Is New

Dentro das variações de alinhamento que os Pixies têm apresentado na sua digressão europeia, Portugal teve sorte: os trabalhos começam com a poderosa “Gouge Away”, servindo como introdução para a gloriosa “Hey”, a quarta canção a ser apresentada e onde o público pôde mostrar que sabia de cor a sua apoteose de romantismo sórdido: “Hey / Been trying to meet you / Hey / Must be a devil between us / Or whores in my head / Whores at my door / Whores in my bed / But hey / Where have you been? / If you go, i will surely die / We're chained”.

Francis renega qualquer papel de “mestre de cerimónias” e animador de festas e coube a Joey Santiago romper a “comunicação” através da ideia de que “somos-quatro-tipos-comuns-a-tocar-e-isso-basta”, tirando o chapéu para mostar que é o terceiro “pixie” que já está calvo e a fazer “magia” com os seus pedais.

A simplicidade franciscana de tudo (deve-se encontrar um trabalho visual mais pretensioso numa qualquer banda amadora que toque por aí aos fins de semana) atira a responsabilidade para a execução de petardos como “Mrs. Grieves”, “Bone Machine” e “Debaser” – essa convocando o público a gritar que “é um cão-andalus” e fazendo Buñuel sorrir em algum lugar. Fica para o clone de Kim Deal, Lenchantin, encerrar a comunhão com “Gigantic”.

Francis parece estar, no entanto, mais interessado em romper a austeridade que marcou a sua relação com o público durante as passagens pelo Super Bock Super Rock ou pela última atuação na Altice Arena: percorre o palco a acenar e fazer vénias, reunindo-se com todos os outros no final para agradecer.

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