Uma tarde de domingo ensolarada e com muitos fãs a enfrentarem o calor em longas filas no Parque das Nações para ver uma banda que, por estas alturas, vai batendo alguns recordes de longevidade: são 42 anos de atividade, 17 álbuns de estúdio e uma quantidade assinalável de “tours” gigantescas – sempre com a mesma formação (Bono, The Edge, Adam Clayton, Larry Mullen Jr.).

Mais importante que isso é uma certa fidelidade de princípios em tempos em que estes andam bem voláteis. Os U2, liderados pelos “reverendo” Bono, convidam os seus fãs não apenas a uma celebração qualquer, mas a uma carregada de um proselitismo político que a estas alturas é um tanto necessário.

Mantém-se assim a coerência histórica de um grupo que alcançou o estrelato mundial com um álbum cujo título se referia aos diversos conflitos armados existentes no período (“War”, de 1983) e cujos primeiros “hits” lamentavam as tragédias do conflito anglo-irlandês (“Sunday Bloody Sunday”) ou comemoravam a vitória do Parido Solidariedade, de Lech Walesa (“New Year’s Day”), na Polónia.

Visões do apocalipse

A abertura da “Innocence + Experience Tour” traz uma perspetiva histórica tão simples quanto certeira dos rumos da Europa: imagens de destruição perpassam o ecrã retangular gigante espalhado pelo meio da Altice Arena. As imagens lembram a tragédia da 2ª Guerra Mundial; Portugal não esteve lá, mas não foi esquecido: a referência a Lisboa, em 1926, não deixa passar o momento de instalação de um período fascista que duraria 40 anos.

A mensagem não é niilista (saem palavras de esperança da boca do “ditador” de Charles Chaplin no ecrã), mas a ponte com o presente (imagens de Putin, Donald Trump) estabelece: o descalabro da Europa começou com a eleição de populistas xenófobos.

Passada a mensagem entram os vibrantes acordes de “The Blackout” que fazem o público das áreas dos balcões se soltar das cadeiras como que impulsionado por molas. A música é representativa: vem de “Songs of Experience”, um álbum à partida de reflexões pessoais que é atrasado em mais de um ano depois da eleição de Trump e do Brexit para que refletisse a situação do mundo contemporâneo. Por outras palavras, o que era ser um simbólico “apocalipse” pessoal de Bono, tornou-se num comentário coletivo.

Veja as fotos do concerto:

Em direção à luz

Mas os U2 não vivem só de política e os sentimentos e memórias de Bono foram imaginados como evoluindo da inocência (o álbum “Songs of Innocence”, de 2014, que tratava de temas da infância) para a experiência do último trabalho.

Este fala de luzes, de alcançar a sabedoria depois da “experiência” e reecontrar a inocência; independentemente disto, o que Bono vê quando canta “I can see the lights in front of me”, em “Lights of Rome”, é literal: os “smartphones” estão ligados e há pessoas que nunca os desligarão neste tipo de consumo de cultura muito ao gosto do século XXI.

Na terceira música os fiéis seguem o líder ou, mais precisamente o “riff” de dois acordes de The Edge”, na primeira experiência de êxtase coletivo da noite: “I Will Follow”, faixa de abertura do primeiro álbum dos U2. Não por acaso, introduzia nos longínquos anos 80 uma banda de “rock” que fazia citações da Bíblia e exibia preocupações pacifistas.

Confessionário

Com uma vasta coleção de “hits” para escolher, um deles é “Beautiful Day”, executada após mais uma de “Songs of Experience”, “Red Flag Day”. As duas únicas faixas de “Songs of Innocence”, álbum saído, de resto, de um atribulado processo criativo que durou cinco anos, fazem com a combinação das imagens alguns dos momentos mais bonitos da noite.

“Iris (Hold me Close)” é uma sentida homenagem de Bono à sua mãe, falecida no funeral do próprio pai com um aneurisma quando ele tinha apenas 14 anos – facto que o marcou por toda a vida”. A música é acompanhada por imagens familiares.

Já em “Cedarwood Road” o ecrã exibe uma espécie de um longo “travelling” sobre a infância do cantor na rua que dá nome à canção – revisitando ainda o seu imaginário onde cabe Maria, José e Jesus ao lado de David Bowie!

Hora da missa – parte 1

A inconfundível batida de “Sunday Bloody Sunday” (Larry Mullen Jr. vai tocá-la em movimento, com um só tambor) anuncia que é hora de ficar em sentido, pôr as mãos no coração e cantar o hino. Todos obedecem essa ordem invisível; ninguém lamenta e o momento é esperado, mas emocionante.

O primeiro programa do ritual termina com “Until the End of the World” – vinda dos tempos em que Bono e Wim Wenders, no início dos aos 90, tentavam imaginar como seria a música do século XXI.

A banda sai de cena e a audiência fica com uma historieta animada que teve como base o vídeo de “Hold me, Thrill me, Kiss me, Kill me”, de 1995, música que toca enquanto o enredo se desenrola.

Isto é apenas “rock’n’roll”

O grupo ressurge num palco menor para uma entrada esfuziante de “rock´n´roll”: “Elevation” e “Vertigo” concorrem para um dos grandes momentos da noite, ao seguir ao qual Bono se põe novamente a filosofar.

Ele quer que toda a gente entenda: preocupação rara em eventos internacionais, o ecrã gigante tem legendas em português. Esta reflexão é sobre a fama – sobre a vertigem que o sucesso traz ao “rock star”, sobre o facto de ele acreditar na mentira de que é superior à “enfermeira” ou ao “bombeiro”, ao uso da “droga de eleição” até que a experiência o redima. Ou não... O que se segue é “Even Better than the Real Thing”.

É mais uma de “Achtung Baby”, porventura o melhor álbum dos U2, e que esconde algumas pérolas que passam ao lado das mais conhecidas. Uma delas é a belíssima “Acrobat”, executada a seguir – música que nunca sequer tinha sido tocada ao vivo antes desta “tour”.

Hora da missa – parte 2

Às referências a “The Hall of Mirrors”, dos Kraftwerk, segue-se Macphisto, o vilão da animação anterior, que volta encarnado pelo próprio Bono a partir de um truque visual. Ele é o representante da Europa fascista e pergunta ao público: “há algum fascista aqui? Não? É uma pena!”.

Depois de “You’re the Best Thing About Me” Bono reflete sobre outra grande aventura experienciada pelos membros do grupo nos aos 90: construir uma família. “Summer of Love” celebra esse momento nas praias do Mediterrâneo, onde as crianças brincavam e os adultos ainda “eram mais crianças do que elas próprias"

Entretanto, no ecrã, um barco de refugiados vai-se infiltrando nesta paisagem paradisíaca do mar. É tempo de “Pride (In the Name of Love)”, que o cantor dos U2 compôs há muito tempo para o líder pacifista Martin Luther King Jr.; agora é tempo de imagens agressivas, do lixo neonazi espalhando ódio e suásticas por uma ideia de Europa na qual o artista nunca deixará de reiterar a sua fé. “Nós recusamo-nos a odiar, porque sabemos que o amor é o que funciona!”, grita.

As velas

“Get out of Your Own Way” antecede outro clássico, a já referida “New Year’s Day” (antes da qual as evocações óbvias dos nomes do país do futebol, Cristiano Ronaldo e Eusébio, ganham o curioso acréscimo de António Guterres) e a banda encerra com “City of the Blinding Lights”.

No encore final cumpre-se a agenda politicamente correta com imagens da publicação “womentakeover” e uma “Love Is Bigger than Anything in Its Way”, com o seu vídeo, marcado por imagens de defesa às minorias LGBT, reproduzido.

Antes disto as luzes apagam-se para os fãs acenderem os isqueiros (os “smartphones”, aliás) em “One” e, depois disso, o concerto é encerrado com “13 (There Is a Light)” – obra saída de uma experiência de quase-morte de Bono que causou-lhe uma forte impressão.

Diante de uma agenda política sincera, uma “persona pública” construída sobre um tom confessional, alguns arroubos messiânicos, “merchandising” (com “t-shirts” a € 35), parafernália visual, um som de microfone que por vezes tornava a voz de Bono estridente, um bom punhado de momentos inesquecíveis e um público dedicado, fiel e emocionado, é possível fazer nossas as palavras do cantor quando tenta falar (muito mal, mas com boa intenção) português no final: “Foi muito fixe. Divertimo-nos muito”.

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