A obra incontornável de H.G. Wells, publicada em 1897 e que imagina um ataque alienígena à escala global, já viu muitas vidas, sendo porventura as mais célebres a emissão radiofónica de Orson Welles de 1938, que lançou o caos por muitos acreditarem que uma real invasão estava a acontecer, e o filme de 2005 de Steven Spielberg com Tom Cruise e Dakota Fanning. Agora, "Guerra dos Mundos" volta ao pequeno ecrã numa série que é mais drama do que ficção científica e onde os extraterrestres continuam a a atacar o planeta, mas não são mais do que um mote para olhar para como as relações humanas mudam num cenário apocalíptico e como o instinto de sobrevivência pode gerar reações tão extremadas.

Esta "Guerra dos Mundos", com estreia marcada para 28 de outubro às 21h40 na FOX, e emissões seguintes às segundas-feiras às 21h30, é uma coprodução entre a FOX Europe e o francês Canal + pensada para três temporadas, foi criada por Howard Overman ("Misfits", "Merlin") e divide-se entre o Reino Unido e a França, tanto na narrativa como na produção. O elenco é meio inglês, meio francês, a série é falada em duas línguas e ação decorre nos dois países.

A premissa vem do livro, mas foge-lhe nos cenários, no tempo e na abordagem: a população mundial é praticamente dizimada depois do aparecimento de uma transmissão alienígena de uma forma muito pouco sangrenta e com pouco mais rasto de destruição visível que os cadáveres na rua. Daí em diante, a história vira-se para a reação de pessoas comuns a um cenário onde quem sobrevive é o mais forte e para como aquele acontecimento vai afetar as suas relações.

A encabeçar a lista de atores confrontados com o fim do mundo estão Gabriel Bryne ("Os Suspeitos do Costume", "Hereditário"), Elizabeth McGovern ("Downton Abbey", "Era uma vez na América"), Léa Drucker ("Custódia Partilhada", "L'Homme de Sa Vie") e Stephen Campbell Moore ("Época das Bruxas"), que se sentaram à conversa com o SAPO Mag em Paris, depois da antestreia mundial da série.

Veja a entrevista com o elenco de "Guerra dos Mundos":

O criador da série, Howard Overman, que diz não ser "um grande fã de ficção científica", leu o livro aos 16 anos e nunca o esqueceu: "o livro causou um grande impacto em mim. Agora, 30 e tal anos depois, surgiu a oportunidade de o adaptar. Leio alguma ficção científica mas não sou um fã hardcore, mas foi um daqueles livros que me ficaram sempre na memória. A ideia da invasão alienígena foi apenas o ponto de partida e espero que tenhamos feito uma série muito diferente".

Overman e o produtor Johnny Capps quiseram uma outra abordagem, para o público do século XXI. "É claro que o H.G. Wells era um génio muito à frente do seu tempo, mas o fim... Mesmo quando vi a versão com o Tom Cruise sempre achei que aquele momento final de 'está tudo bem, eles morreram e nós estamos seguros' inconsequente e que não dizia nada sobre nós como humanos. Espero que o final da nossa série, três temporadas depois, diga algo e signifique algo em vez de ser uma coisa aleatória", explicou o produtor.

A ideia de que é mais uma série dramática do que se aproxima do género de Ficção Científica foi algo que agradou ao realizador dos quatro primeiros episódios, o belga Gilles Coulier. "Não queria fazer uma série com um cenário pós-apocalíptico de destruição e sangue. Queria que víssemos o que acontece ao mundo quando quase toda a gente cai morta no chão, sem pescoços torcidos ou explosões de sangue, apenas pessoas que caem mortas. As referências que usei não vieram do género de Ficção Científica, vieram de outros filmes de que gostei e que questionam relações entre personagens. Tentámos fazer com que o mundo parecesse o mais normal possível, tirando o facto de as pessoas estarem mortas", disse.

"Acho muito interessante a ideia de explorar o comportamento humano criando um inimigo externo, a ideia que o H.G. Wells teve em 1890, de nos atirar para a possibilidade de sermos aniquilados e ver como é que os humanos reagem nessa situação e o que diz de nós e do lugar onde estamos hoje", disse a atriz americana Elizabeth McGovern, que na série interpreta Helen, uma mulher desavinda com o ex-marido mas que vai ter de se juntar a ele para conseguir sobreviver.

Gabriel Byrne, que interpreta Bill, o ex-marido obsessivo de Helen, diz que, apesar de conhecer as várias adaptações da obra, não viu nenhuma delas e lembra que o mais importante é a história: "li o livro quando tinha 15 anos, achei que era um thriller e assustou-me mas agora apercebo-me do quão profundo é, e isso não se consegue interpretar. Acho que não pensámos muito nisso, só contámos a história".

"Guerra dos Mundos" no presente e como cada adaptação se aplica ao seu tempo

Guerra dos Mundos
Elizabeth McGovern e Gabriel Byrne em "Guerra dos Mundos"

Em qualquer adaptação de "Guerra dos Mundos" os extraterrestres são os invasores mas são também figuras para simbolizar os males dos tempos em que cada uma foi feita."Quando o H.G. Wells escreveu o livro muitas pessoas pensaram que era sobre a colonização, quando o Orson Welles fez a emissão de rádio ela demonstrou o poder da comunicação em massa, quando o Spielberg fez o filme foi na sombra do 11 de setembro e a nossa versão terá diferentes interpretações. Várias pessoas dizem 'devem estar a referir-se ao aquecimento global, ao Brexit ou à migração em massa. As pessoas aplicam o seu próprio medo à história e interpretam-na com base nisso", sublinha Howard Overman.

Na série, o inimigo externo quebra as barreiras criadas entre pessoas de meios, classes e contextos diferentes e une-as num objetivo comum: a sobrevivência. "Particularizar o momento em que estamos hoje, o de um mundo crescentemente dividido em que os países estão a recolher pontes e a construir muros e com a tecnologia a criar uma realidade em que nos estamos a isolar cada vez mais é muito interessante. Quando temos um refugiado, no fim da pirâmide social, a juntar-se a uma família britânica no meio do ataque ou um casal desavindo a juntar-se para sobreviver, o inimigo comum está a quebrar essas barreiras e a uni-los", explica a atriz Elizabeth McGovern.

A ideia é partilhada pela atriz francesa Léa Drucker, que na série interpreta a cientista Catherine: "o facto de haver um acontecimento catastrófico como este coloca todos os humanos ao mesmo nível. O homem mais poderoso vai estar na mesma posição que um jovem migrante que tenta sobreviver há meses de formas muito duras. Faz-nos questionar o que é ser um ser humano de uma forma quase filosófica. Esta questão está muito viva hoje".

Uma produção britânica e francesa, com o Brexit pelo meio

Guerra dos Mundos
Léa Drucker e Adel Bencherif em "Guerra dos Mundos"

Na antestreia mundial da série, em Paris, o produtor Johnny Capps celebrava o facto de, no meio do turbilhão Brexit, a produção cuja rodagem se dividiu entre França e o Reino Unido e juntou um elenco inglês e francês ter sido bem sucedida e sem percalços dignos de nota, algo que reforçou quando nos sentámos à conversa com ele no dia seguinte: "sentimos a sombra do Brexit durante a produção porque inicialmente era suposto entrar em vigor a 19 de março e depois foi sendo adiado e tivemos de pensar no que íamos fazer porque nessa altura estávamos a filmar em França e tínhamos de preparar as entradas e saídas da equipa. Mas o que sentimos foi que tivemos equipas britânicas, belgas e francesas a falar diferentes línguas e a trabalhar em conjunto de forma incrível, correu tudo de forma perfeita".

"Isto é 'A Guerra dos Mundos', não é a guerra no Reino Unido ou em França, e é importante ter dois locais separados, acho que pareceria menos abrangente se se passasse só num país", frisa a atriz Natasha Little, que interpreta uma mãe de adolescentes no Reino Unido a tentar reunir-se com o marido que está em França.

O seu filho adolescente é interpretado por Ty Tennant, filho do ator David Tennant que, com uma carreira ainda a começar, se diz entusiasmado por trabalhar com um elenco diversificado como este. "Fui a uma audição, achei que tinha corrido mal, mas depois chamaram-me de novo. Fui e conheci o Gilles (Coulier) e ele foi incrível. No fim da rodagem, no último dia, fomos todos jantar e ele chamou-me lá fora e disse-me que sabia que me ia escolher desde que viu o primeiro vídeo que lhes enviei e que só me chamou depois porque quis conhecer-me. Afinal tinha corrido bem e tinha merecido estar ali", explica.

Stephen Cambpell Moore, que na série veste a pele de Jonathan, o pai separado da família e a tentar regressar ao Reino Unido, é o ator inglês que mais contracenou com o elenco francês. As diferenças entre o trabalho dos dois, diz, está na naturalidade: "há uma qualidade de proximidade neles. Nós britânicos trabalhamos muitas vezes coisas muito literárias ou de época e o cinema francês tem aquele elemento de naturalismo em si. Acho que às vezes no Reino Unido, por vários constrangimentos, temos de contar histórias de uma forma ligeiramente mais redutora e adoro a forma como o Gilles (Coulier, o realizador) nos disse para levarmos o tempo que fosse preciso e isso para mim, enquanto ator, é libertador.

Os elogios são mútuos e geraram até alguma concorrência durante a rodagem, com ingleses e franceses preocupados se a sua performance estaria à altura da dos atores da outra nacionalidade. "Nós, atores franceses, fantasiamos muito com os atores ingleses mesmo na escola. Quando estamos na rodagem e sabemos que o elenco inglês está no outro estúdio pensamos 'será que somos suficientemente bons?' (risos)", disse a atriz francesa Léa Drucker.

"Guerra dos Mundos" chega esta segunda-feira, dia 28, às 21h40, à FOX.

O SAPO Mag viajou a convite da FOX Portugal.

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