"Noite turva", que integra a competição oficial, é o resultado de um longo projeto cinematográfico de Diogo Salgado, iniciado há três anos, ao sabor das dificuldades de financiamento e da disponibilidade emocional para o concluir, como contou à agência Lusa.

Esta curta-metragem é o primeiro filme do realizador conimbricense de 26 anos e foi iniciado depois de ter estudado na Escola Superior de Teatro e Cinema, onde se formou em direção de fotografia.

A curta-metragem é uma narrativa sobre dois rapazes que brincam numa floresta, sendo que um deles desaparece junto a uma lagoa, já de noite.

"Eu retrato um episódio que poderia ter acontecido na minha infância, mas não está desconectado das minhas preocupações atuais, por isso é que me fez abordar desta forma. É um filme com crianças, mas não é infantil na sua forma e na sua perspetiva sobre o acontecimento", explicou Diogo Salgado.

O filme é sobretudo visual, marcado por planos escuros, pelos sons da vida na floresta, sobretudo à noite, e não tem diálogos nem qualquer narração.

"Narrativamente, o cinema tem essa ferramenta muito poderosa, da imagem e do som comunicarem, abstendo-se da palavra e isso é o que mais me seduz no cinema, daí o filme ter as características que tem", defendeu.

Sobre esta ficção, Diogo Salgado afirma que tem subjacente questões que o acompanham desde a infância: "do que é lidar com o desaparecimento de alguém, com o fim de uma relação com a alguém, com a morte, com o final das coisas".

Entre "o processo bastante solitário de iniciação" do projeto e a montagem, em 2020, o realizador recordou algumas dificuldades em conseguir apoios e nem sempre teve "a disponibilidade emocional para avançar com o projeto".

"Trabalhei numa galeria de arte, servi à mesa, fui rececionista de hotel, tudo isto enquanto preparava o filme. Foi uma grande mixórdia de atividades ao longo destes anos. Não conseguia sobreviver daquilo que o cinema me poderia oferecer", contou.

"Noite turva" teve estreia nacional em 2020 no festival Curtas de Vila do Conde, onde foi premiado, e faz agora a estreia internacional em Cannes, o que Diogo Salgado considera muito bom e surpreendente, tendo em conta que sentiu "falta de confiança" em concluir o projeto.

"É sempre bom mostrar o filme e fazer com que chegue as outras pessoas. O melhor que Cannes oferece é esta janela de projeção enorme do nosso trabalho e isso é recompensador", considerou.

Atualmente a fazer um mestrado em cinema, Diogo Salgado admite "alguma urgência em concretizar certas ideias", mas vai esperar pelo retorno da circulação de "Noite turva" em Cannes e, possivelmente, noutros festivais.

O 74.º Festival de Cinema de Cannes decorrerá de 06 a 17 de julho, dia em que serão anunciados os vencedores das competições.

Ainda no capítulo das curtas-metragens, nos programas em Cannes dedicados a projetos cinematográficos ainda em curso, em desenvolvimento e pós-produção, serão mostrados a profissionais os filmes "Entre a luz e o nada", de Joana de Sousa, com produção de Pedro Fernandes Duarte, e "O fim do verão", de Marco Veloso, com produção da Escola Superior de Teatro e Cinema.

Na Quinzena de Realizadores, um dos programas paralelos do festival, estrear-se-á "Diários de Otsoga", de Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro.

Quem também estará em Cannes é o realizador David Pinheiro Vicente, com o projeto da primeira longa-metragem, intitulado "Entre o passado e o futuro", que foi desenvolvido no âmbito do programa Cinéfondation e que contará com coprodução luso-francesa da O Som e a Fúria e La Belle Affaire.

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