"Parasite", do coreano Bong Joon-Ho, é o filme distinguido com a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2019.

É a segunda vez consecutiva que a Palma de Ouro vai para o cinema asiático: há um ano o prémio foi para "Shoplifters", do Japão.

As decisões foram anunciadas ao cair do pano este sábado da 72ª edição, que começou a 14 de maio.

Curiosamente, "Parasite" foi apresentado no festival no mesmo dia do filme de Quentin Tarantino e foi por este completamente ofuscado.

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Na verdade, "Era uma vez em... Hollywood" é mesmo o grande derrotado do festival pois nem um prémio recebeu do júri presidido pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu e que incluía Elle Fanning (atriz norte-americana de "Somewhere - Algures"), Maimouna N’Diaye (atriz e realizadora francesa de origem senegalesa), Kelly Reichardt (realizadora norte-americana de "Wendy & Lucy"), Alice Rohrwacher (a realizadora italiana de "O País das Maravilhas"), Robin Campillo (realizador e argumentista francês de origem marroquina de "120 Batimentos Por Minuto"), Yorgos Lanthimos (o realizador grego de "A Favorita"), Pawel Pawlikowski (o realizador polaco de "Ida", Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, e de "Cold War - Guerra Fria") e Enki Bilal (autor de banda desenhada e realizador).

A consagração do cinema coreano

"Parasite" é o primeiro filme da Coreia do Sul a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, um festival que recebeu críticas no passado precisamente por nunca ter dado a distinção máxima a uma cinematografia com grande vitalidade.

Após a polémica provocada por "Okja", o filme da Netflix selecionado em 2017, Bong Joon-ho apresentou um drama familiar tingido de "thriller" que retrata a violência das desigualdades sociais com grande domínio formal.

Conhecido pelas suas sátiras da sociedade sul-coreana, de "Memories of Murder" (2003) a "The Host - A Criatura" (2006), além de "Expresso do Amanhã" (2013), Bong Joon-ho aumentou a sua propensão para retratar a violência das relações sociais num mundo onde as desigualdades se amplificam, apoiando-se novamente no filme de género para melhor transmitir a sua mensagem.

Segundo Bong Joon-ho, o seu trabalho "descreve o que acontece quando duas classes chocam nesta sociedade cada vez mais polarizada".

No centro da história está  uma família de desempregados, a de Ki-taek, que vivem num escuro e sórdido apartamento no subsolo, onde convivem com baratas. As suas vidas mudam quando o filho Ki-Woo consegue um emprego como professor particular de inglês de uma jovem de família rica, os Park, que vivem numa casa suptuosa com jardim, grandes janelas e decoração de bom gosto.

A família rapidamente se aproveita da situação: por meio de subterfúgios, Ki-Woo faz a sua irmã ser contratada para dar aulas de desenho ao filho mais novo, depois os seus pais como motorista e governanta. Mas se tudo parece correr bem para a família de golpistas, a chegada dos "parasitas" à família Park marcará o início de uma engrenagem incontrolável.

Almodóvar de novo sem nada, mas...

Era grande a expectativa para saber se "Dor e Glória", de Pedro Almodóvar, seria finalmente a sua consagração em Cannes à sexta tentativa.

As expectativas saíram frustradas para a Palma, mas há uma grande "consolação": o Prémio de Melhor Ator foi para o seu alter-ego de sempre, Antonio Banderas, que representa um realizador melancólico no filme descrito como o trabalho mais autobiográfico de Almodóvar.

É apenas o segundo prémio de Cannes para atores num filme do espanhol, após a distinção coletiva em 2006 de Penélope Cruz, Carmen Maura, Lola Dueñas, Blanca Portillo, Yohana Cobo e Chus Lampreave por "Volver".

A britânica Emily Beecham foi considerada a Melhor Atriz por "Little Joe", um filme da austríaca Jessica Hausner sobre a manipulação genética num futuro próximo.

Após décadas, o cinema brasileiro regressa aos grandes

Mati Diop com Sylvester Stallone

O Grande Prémio do Júri, um "segundo lugar" no palmarés, foi para "Atlantique", da franco-senegalesa Mati Diop, a primeira realizadora negra que competia pela Palma de Ouro na história das 72 edições da mostra. A história acompanha os trabalhadores de uma obra num subúrbio de Dacar que decidem deixar o país em busca de uma vida melhor.

O Prémio do Júri, o terceiro lugar, foi para dois filmes igualmente muito elogiados pela imprensa: "Les Misérables", de Ladj Ly (França), e "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles (Brasil).

O primeiro retrata a violência policial num subúrbio de Paris, onde vive o realizador. No caso de "Bacurau", com Sónia Braga (repatindo a colaboração de "Aquarius", há três anos), a longa-metragem de aventura e ficção científica conta a história de um realizador que viaja para o interior do Brasil para rodar um documentário e dá-se conta que os habitantes escondem segredos perigosos.

Não obstante um prémio de realização para Glauber Rocha em 1969 e de interpretação para Fernanda Torres e Sandra Corveloni, "Bacurau" representa a maior distinção do cinema brasileiro em Cannes desde "O Pagador de Promessas", de 1962, valeu a única Palma de Ouro para o país.

Não chegam à terceira Palma, mas irmãos Dardenne recebem outro prémio

A 72ª edição do Festival de Cannes tinha a curiosidade de incluir seis realizadores que já tinham vencido o prémio máximo de Cannes: Tarantino, Terrence Malick, Ken Loach, Jean-Pierre e Luc Dardenne e Abdellatif Kechiche.

No fim, todos saíram de mãos a abanar com exceção dos irmãos belgas Dardenne, que venceram o prémio da realização por "Le jeune Ahmed", sobre a radicalização de um adolescente, que dividiu a crítica.

A distinção pelo argumento foi para um dos maiores favoritos à Palma de Ouro: Céline Sciamma por "Portrait de la Jeune Fille En Feu", sobre uma pintora do século XVIII que recebe a encomenda de fazer o retrato de casamento de uma jovem. A realizadora francesa é conhecida por "Maria Rapaz" e pelo argumento de "A Minha Vida de Courgette".

A Palma também escapou a outro favorito, "It Must Be Heaven", de Elia Suleiman, o realizador de "O Tempo Que Resta", que teve direito à consolação de uma Menção Especial do Júri para o seu relato autobiográfico sobre o exílio do realizador da sua Palestina natal.

A Palma de Ouro para curta-metragem distinguiu "La distance entre le ciel et nous", do grego Vasilis Kekatos, e a menção especial para curta-metragem foi para "Monstruos Dios", da argentina Agustina San Martin.

O documentário "For Sama" de Waad al-Kateab, que filmou a vida na cidade de Alepo, num dos períodos mais violentos do conflito na Síria, foi distinguido, partilhando o prémio desta categoria com o documentário do chileno Patricio Guzman "La cordillera de los sueños", uma obra sobre a exploração mineira no Chile, com o foco nos anos da ditadura militar.

Guzmán estreou em Portugal "O Botão de Nacar" e "Nostalgia da Luz", em que focava igualmente os anos da ditadura chilena.

O cineasta guatemalteco César Díaz ganhou o prémio para melhor primeira obra com o filme "Nuestras madres", que fala das 200.000 vítimas e 45.000 desparecidos do conflito interno no seu país, e dos familiares que sobreviveram.

O PALMARÉS

PALMA DE OURO
"Parasite", de Bong Joon-Ho (Coreia do Sul)

GRANDE PRÉMIO
"Atlantique", de Mati Diop

PRÉMIO DO JÚRI (ex-aequo)
"Les Misérables", de Ladj Ly

"Bacurau" ,de Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles

REALIZAÇÃO
Jean-Pierre & Luc Dardenne por "Le Jeune Ahmed"

INTERPRETAÇÃO FEMININA
Emily Beecham por "Little Joe", de Jessica Hausner

INTERPRETAÇÃO MASCULINA
Antonio Banderas por "Dolor Y Gloria", de Pedro Almodóvar

ARGUMENTO
Céline Sciamma por "Portrait de la Jeune Fille En Feu"

MENÇÃO ESPECIAL
Elia Suleiman por "It Must Be Heaven"

SECÇÃO CÂMARA DE OURO (distingue uma primeira obra apresentada em qualquer secção)
"Nuestras Madres", de César Díaz

SECÇÃO CURTAS-METRAGENS

Palma de Ouro
"The Distance Between Us and The Sky", de Vasilis Kekatos

Menção Especial do Júri
"Monstruo Dios", de Agustina San Martín

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