Nunca na história do cinema um criador de efeitos visuais foi tão popular e mitificado como Ray Harryhausen, venerado por nomes como Steven Spielberg, James Cameron, Peter Jackson, George Lucas, Tim Burton, Guillermo del Toro, John Landis e Nick Park. Mestre na animação em «stop-motion», Harryhausen criou as mais diversas criaturas em cerca de uma dezena e meia de filmes fantásticos, que marcaram várias gerações de cinéfilos. A família do artista acaba de divulgar que o animador faleceu em Londres, aos 92 anos.

O fascínio de Harryhausen pela animação de volumes surgiu em 1933, quando ele viu pela primeira vez «King Kong», cujo gorila gigante foi criado por Willis O'Brien. Inspirado pelo que viu, dedicou-se nos anos seguintes a fazer filmes de animação «stop-motion», primeiro sozinho em casa e mais tarde profissionalmente, como animador, na série «Puppetoons». Em 1947, tornou-se assistente do seu ídolo O'Brien noutro filme com um macaco gigante, «Mighty Joe Young», que lhe abriu as portas do mundo dos efeitos visuais.

O filme que o lançou verdadeiramente foi «O Monstro dos Tempos Perdidos», em 1953, o primeiro em que ele foi o responsável completo pelos efeitos, neste caso de um dinossauro à solta em Nova Iorque. Harryhausen foi aperfeiçoando cada vez mais as suas criaturas e a integração das mesmas nas cenas de imagem real, em filmes que marcaram o cinema da sua época. No início surgiram «O Octopus» (1955), com um polvo gigante a aterrorizar a costa leste dos EUA, «A Invasão dos Discos Voadores» (1956), com uma invasão do planeta por discos voadores, e « O Monstro do Planeta Vénus» (1959), com uma criatura anfíbia à solta em Roma.

Em 1958, Harryhausen lançou-se nos filmes a cores com «A Sétima Viagem de Sinbad», no qual é também co-produtor, função que acumulará na maioria das películas seguintes. Com uma técnica cada vez mais elaborada (a que a publicidade chamará Dynamation), o artista deixou aqui a ficção científica para se dedicar às histórias de pura fantasia, com criaturas fantásticas que ficarão no imaginário coletivo. Seguem-se assim «Os 3 Mundos de Gulliver» (1960), «A Ilha Misteriosa» (1961) e «Jasão e os Argonautas» (1963), o seu filme mais mítico, com a inesquecível cena da luta à espada com os esqueletos.

Seguiram-se «Quando o Mundo Nasceu» (1966), «Ao Sul do Rio Grande» (1969), «A Nova Viagem de Sinbad» (1974) e «Sinbad and the Eye of the Tiger» (1977). O seu último filme foi «Choque de Titãs», em 1981, numa época em que os seus efeitos visuais começavam a parecer datados quando comparados com a nova sofisticação do meio que se sucedeu ao sucesso de «Star Wars» em 1977.

Porém, a humanidade que Harryhausen concedeu às suas criaturas e a pura capacidade de colocar no ecrã algo que nunca antes tinha sido visto valeram-lhe a veneração de uma legião de fãs, que o celebraram até ao fim da vida, na qual se incluem alguns dos maiores nomes a trabalhar na área do cinema fantástico desde a década de 70.