Poderão ficar desiludidos os que se renderam completamente perante a fórmula orelhuda com que os cinco rapazes de Lisboa se apresentaram em 2011. Mais natural seria atracar as guitarras na empatia espontânea e na febre dançável de "Gazela" – e que vontade dá de cantar. Mas os Capitão Fausto estariam a enjeitar parte fulcral do seu código genético: a paixão pelo experimentalismo, pelos jogos de sintetizadores, pelas camadas, camadas e mais camadas sobrepostas e pela entropia propositada que nos dá tempo e espaço para imaginar.

Deixamos para trás duas mãos cheias de canções imediatas e recebemos, pela astúcia de uma "Raposa", um disco para deixar a fermentar e degustar devagarinho. Com a mesma disponibilidade com que a banda gravou "Pesar o Sol": numa adega recatada, com tempo mais que suficiente para atentar ao milímetro cada ínfimo pormenor de uma textura tão composta. Com tempo, também, para diferentes disposições. É por isso que é tão rico e a cada nova audição nos surpreendemos com novos detalhes, agradavelmente subtis e nada inocentes.

Videoclip de "Maneiras Más":

A voz sempre arrastada de Tomás Wallenstein emaranha-se nos outros instrumentos e passa a ter de dividir com eles o protagonismo, com claro prejuízo para as letras. Mas nem assim fica por notar um generoso conjunto de trechos ardilosos, inevitáveis a quem anda a comer «educação moderna ao jantar». Destacam-se nessa categoria a própria "Prefiro que não concordem" e a "Célebre Batalha de Formariz".

Preferiram o caminho menos óbvio ao facilitismo que a boa recepção do primeiro álbum lhes permitia. Despediram-se definitivamente da forma verso-refrão. Isso mostra estofo e coragem para se porem novamente à prova, o que, por si só, não seria suficiente para conseguirem um segundo álbum à altura do estatuto que com justiça conquistaram.

O que nos consegue deixar completamente impávidos são as constantes mudanças de ritmo, a passagem súbita das guitarras rabugentas para uma melodia contemplativa e a enorme intensidade que a bateria e o baixo conseguem, em qualquer momento, garantir. Em "Lameira", por exemplo, escusam-se grandes gramáticas: o tom denso e ritmo tão lento que embala são interrompidos, a certa altura, por um solo colorido de teclas completamente contrastante. É só um exemplo do prato do dia deste "Pesar o Sol", entre muitos: "Maneiras Más", um dos singles de avanço, ora rebenta, ora se estende em prolongados devaneios. Não é um álbum desorganizado e sem fio condutor; é, antes, o fruto de muito cuidado, excelente técnica, e criatividade a transbordar de cinco cabeças. E entusiasma ainda mais notar que, com adrenalina e nervos de um concerto, as músicas têm força mais do que suficiente para se agigantarem sem reservas.

Os Capitão Fausto sacudiram a pressão da ribalta para um canto. E não se limitam a confirmar as expectativas que semearam; dão-lhes nova vida, tornando-as ainda maiores. Feitas as contas, eles são do melhor que temos neste momento. Aqueçamos os ânimos.

@Pedro Pereira

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