Explosões e muita emoção antecedem o deslize à la James Bond do protagonista da noite. “Fever”, eterna canção celebrizada por Peggy Lee em 1958, passeia-se pelo palco de uma ponta à outra, contagiosa, epidémica.

Foi numa sala de espetáculo lotada e bem sentada que os primeiros versos de "Haven’t Met You Yet" quebraram a inibição da voz e do corpo, a convite do cantor canadiano. Simples, sorridente e sedutor, Bublé acerta todas as notas do mais bem sucedido single de "Crazy Love" (2009). Uma performance tão perfeita quanto um serão na sala de estar, à meia luz, com o disco em loop.

Numa breve pausa, o crooner deu as boas-vindas a uma cidade já rendida, no concerto que marcou o seu regresso, três anos depois, aos palcos nacionais. "No pressure", brinca Michael Bublé. Sem mais demoras, desce ao público para uma foto com uma nuestra hermana acompanhada pela mãe, recebe uma camisola oferecida por entusiastas de países do Leste europeu, sobrando ainda tempo para uma explicação sobre beijinhos, à boa maneira espanhola. Humor para dar e vender, consumado com uma piada sobre Justin Bieber.

O gentleman de serviço apresenta “Try a Little Tenderness” com uma receita sua, do seu método de amor. Um jovem Frank Sinatra, com atitude de miúdo rebelde! A propósito, chega de mansinho a calorosa "You Make Me Feel So Young" e a banda junta-se à frente do placo, num vai e vem quase subliminar. Antes de “Come Dance With Me” – pronta para um cha cha cha de tons tropicais – há tempo para uma versão personalizada pelo homem de fato preto e sapatinho de verniz, de “Moondance”, original do cantor irlandês Van Morrison.

Sempre em modo flirt automático, Bublé canta, pouco depois, o infalível "Feeling Good", tema icónico na voz de Nina Simone, com a maior demonstração instrumental do concerto. E a audiência rouba o primeiro obrigado da noite.

Tempo para respirar fundo e assistir à devida apresentação da "team Bublé", com direito a ficha técnica e uma dedicatória individual a cada músico. Um grupo brilhante que, nas palavras do artista, faz de si "mais do que um mero cantor de karaoke". “I’ve Got The World On A String” serve de homenagem aos amigos com quem trabalha, secçao rítmica incluída, apresentada a fundo, com uma história sobre heranças de artistas e repertório pelo meio.

“Everything”, uma das primeiras canções compostas por Bublé, fez-se acompanhar pelo piano numa introdução suave, que se desenrola até ao tema pop, doce e ritmado, indispensável na primeira noite de concertos em Lisboa. Delicioso foi o momento que se seguiu, quando uma criança subiu ao palco para um “hello” envergonhado e uma demonstração de passos de dança com cheiro a açúcar e ingenuidade.

Depois de uma chamada de atenção "às pessoas ricas", mais reservadas na plateia, chegou a oportunidade para os eternos românticos se deixarem levar por “That’s All”, de Nat King Cole. Os músicos de sopro dão lugar a artistas portuguesas de violinos e violoncelos em punho, bonitas, concentradas e profissionais.

A interpretação de “Close your eyes”, o mais recente single de "To Be Loved", lançado em 2013, terminou à conversa com as artistas lisboetas e com uma dedicatória: "This is for you, this is yours, people".

Para relembrar o passado, Bublé canta “How Can You Mend a Broken Heart”, dos Bee Gees. “Home” faz, de seguida, suster a respiração e conter a emoção, faz embalar os corpos e mãos, faz os dedos entrelaçarem-se.

A surpresa da noite chamava-se “Get Lucky”. Uma das músicas mais ouvidas em 2013, dos robots da eletrónica Daft Punk e do mestre Pharrell Williams, transformou a Meo Arena numa verdadeira pista de dança sobre o Tejo, com Bublé a desfilar até ao mini palco no extremo da sala, acompanhado pelo ensemble vocal Naturally 7, que se tinha apresentado na primeira parte da noite.

A última fila passou a ser a frente da casa, pronta para receber uma serenata de clássicos. E como a felicidade não olha a idades, a dança colectiva passeou-se por “Who’s Loving You”, “I Want Your Back” e “To Love Somebody”.

Vozes carregadas de jazz, soul, demonstrações acapella e algum beat box prepararam, entretanto, os corações para “All You Need Is Love”. Este é o concerto ideal para celebrar o amor, numa noite para os namorados, antecipada. O tempo passa, assim como a vontade de estar sentado. Entre correrias e breves despedidas aos familiares e amigos, muitos foram os fãs que se colaram aos lugares da frente a tempo de “Burning Love”. "It's a beautiful day", canção entoada por um poderoso sing along, serviu de até já.

Num encore instantâneo, veio "Cry Me A River", com Bublé já de blazer. Em ascensão até à explosão pirotécnica, vêm-se olhares extasiados, telemóveis ao alto e sorrisos sem fim, daqueles que provocam dor no maxilar.

“Save the Last Dance for Me" foi mais uma dose de carinho distribuída, incansavelmente, pela Arena fora. Do fundo do coração, dos pulmões e do diafragma para uma sala de espetáculos em silêncio, em suspense e completamente apaixonada, ouve-se “A Song For You”. E, já de tela caída, Bublé canta sem microfone! Sem margem para a aplausos que comprometessem a ocasião, Bublé pôde despedir-se me grande. E, com um beijo aos pés do palco, terminaram duas horas de uma overdose de romance à moda antiga, intemporal!

Texto: Sara Fidalgo

Fotografias: Marta Ribeiro

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