
Quarta-feira no Tivoli começa a ser um programa habitual entre amigos, que se juntam para ouvir e cantar música feita por homens e guitarras. À porta da sala de espetáculos de Lisboa, ainda havia quem (re)lembrasse o encanto do concerto de Marcelo Camelo, há uma semana atrás. Por isso, a tarefa do performer desta noite não seria pera doce.
Num cenário acolhedor, pintado em tons vermelhos, Miguel Araújo entra sozinho, muito concentrado em agarrar a guitarra certa, entre a meia dúzia que o rodeava. Começam, então, os acordes de “Sete Passos (Carolina)”, baladade amor saída do seu primeiro disco a solo, “Cinco Dias e Meio” (2012), e a letra, para espanto do público, passa em rodapé na frente do palco, para que todos possam seguir a história com atenção. “Canção do ciclo preparatório” faz-se, de seguida, acompanhar de um belo piano, abraçado por uma capa às flores e pela batida suave da bateria. O Tivoli continua atento ao correr das palavras e aos pés de Miguel AJ – o seu nome artístico enquanto membro d' Os Azeitonas. Carolinaé substituída por Patrícia, antes de “Matéria do Coração” vir falar das desgraças do mundo, no telejornal.
Na noite que marca a sua estreia em nome próprio no Tivoli, Miguel resolve dar um cheirinho de como o seu provisoriamente intitulado "Disco de Crónicas", poderá vir a soar. “Cartório” traz ao palco o trio de sopro Hornsters. A sonoridade, essa, lembra um diner, algures numa estrada nacional americana, a caminho de Las Vegas, à procura de um cartório oficial. E eis que Samuel Úria, que assina a autoria do tema "Império", de 2009, e que andava pelas redondezas, se junta ao ensemble.
“Agora uma música do repertório d’Os Azeitonas. Escrevi esta música e mostrei-a ao João Salcedo (Salsa) e ele disse-me que era igualzinha a uma outra música que já existia... Era igual àquela música do Pinóquio”, conta e, entre o cantarolar e o riso de quem lembra aquela personagem de animação, surge um coro de jovens profissionais para dar voz a “Cantiga de embalar jovens adultos”. “Capitão fantástico”, com o seu revólver de plástico, deixa que o jovem Araújo conte a sua história à sala que já lhe tinha, a esta altura, rendido todos os aplausos.
Em 2012, perante a sua mestria como compositor, surgiu a encomenda de um tema para a cantora Ana Moura e para o seu disco "Desfado" – recentemente apresentado no icónico programa de Jools Holland –, que, para lá das diferenças de géneros musicais, acolheu com todo o amor “E tu gostavas de mim”. Diz o cantor que “às vezes o homem é capaz de coisas maravilhosas, mas fazer com que o amor lhe seja retribuído não é tão fácil como o homem na lua ou o Boavista campeão”. Seguiu-se um tema inédito, ainda sem título, que fez Miguel pensar sobre o porquê dos títulos das suas músicas serem todos tão grandes... "A culpa é da Sociedade Portuguesa de Autores", informa o cantor, com humor e carinho à mistura. “Jardim” é um música sobre a metáfora que é a vida: começar a caminhar, a descoberta de ter pés para andar para lá do colo da mãe. Uma música deliciosa.
O outro amigo que se junta à festa é um homem do Fado, que todos conhecem por António Zambujo. Vem para cantar “Lambreta”, do mais recente trabalho de estúdio, “Quinto”, com a sua voz, que derrete corações. Como um trio não estaria completo sem mais um, Úria regressa para cantarem “Triunvirato”. Este tema lembra cantautores como Leonard Cohen, Bob Dylan e Johnny Cash. Com alguns pequenos acidentes de percurso, Miguel consegue representar o seu papel de Bob Dylan.
O protagonista da noite trouxe-nos, ainda, ao ouvido “A rosa da minha rua”, que tocou com um cavaquinho moreno, cantando os seus tempos em Lisboa, quando vivia na Rua da Rosa. No Porto, cidade onde mora atualmente, tem feito mau tempo, tempo de chuva e vento, mas Lisboa já deixou o sol entrar. Com o calor, Miguel foi correr para a praia e quase tentou um mergulho, mas a água fria ia-lhe congelando um dedo do pé – e que mote melhor para “Fizz de Limão”?
Os Hornsters voltam e, com eles, uma mesinha com um copo de vinho tinto, para hidratar as cordas vocais de quem canta “Os Maridos das outras” - o ponto alto da noite, com o público a cantar todas as palavras, desta vez sem olhar para o ecrã. Momentos antes deste clássico tocar, falou-se de operações ao septo nasal... Talvez por isso se tenha seguido no alinhamento “Autopsicodiagnose”, uma fanfarra hipocondríaca que pôs todos os pés a mexer.
Depois de uma saída breve e de aplausos incessantes, Miguel retorna e tira do baú a primeira canção que compôs em português. Chama-se “Desdita” e é tocada nas cordas de um magnífico violoncelo, que acompanha o dedilhar da guitarra. A noite pedia mais cantigas e, sem ninguém contar, chegou “Vocês sabem lá” – um clássico da música portuguesa, de 1958 -, que trouxe consigo sorrisos, mãos dadas e beijinhos.
Depois do charme musical, o grande momento da noite seria protagonizado por duas pessoas que, a pedido de Miguel, se levantaram do público e foram até ao palco. Diogo, o namorado, ajoelha-se perante Carolina, a namorada, e faz a derradeira pergunta. O “sim” quase nem se ouviu, tamanha a felicidade (e vergonha miudinha) da recém-noiva e a sala encheu-se de felicitações. Para ajudar na digestão amorosa, veio “Reader’s Digest”, em formato de bailarico. O festejo, continuaria noite dentro...
Sara Fidalgo
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