
O convite para um serão de metal industrial há muito que fora anunciado, mas só ontem à noite a tour Made in Germany, que já data de 2011, trouxe a máquina Rammstein aos palcos nacionais, após a visita em 2010, aquando do Rock in Rio Lisboa, vestindo todos os que se passeavem nas imediações do Pavilhão Atlântico de negro, mais camisola, menos camisola.
A impaciência reinava nas cerca de 16 mil pessoas que marcaram presença na sala de espetáculos lisboeta- plateia cheia, bancadas muito bem compostas -, com assobiadelas e gritos de desespero a fazerem-se ouvir até a banda dar ar de sua graça, às 21h15, com os primeiros acordes da politicamente incorreta "Ich tu dir weh", um dos singles que o álbum "Liebe Ist Fur Alle Da", de 2009, conheceu. Explosão de alegria. A cortina do palco abre-se e uma fumaça invade a plateia, dissipando-se pouco depois, deixando a descoberto os membros da banda, à exceção do vocalista Till Lindermann, que desceu do teto do pavilhãoatravés de uma plataforma que, aterrada no seu destino, evidenciouo peculiar casaco rosa do líder dos Rammstein e os seus já característicos movimentos pseudo sexuais, que não tardaram a aparecer, sempre muito bem acompanhados por brutais explosões de pirotecnia.
Em “Wollt ihr das Bett in Flammen sehen?”, já sem casaco, Lindemann permanece imóvel enquanto observa tudo o que está à sua frente, tal e qual como um mestre de cerimónias. Usa um objeto nas mãos que lhe permite criar faíscas e o fogo cuspido pelo palco intensifica-se, para aquecer ainda mais o ambiente. Apoiados por uma forte componente visual, os Rammstein lançam-se, então, à rapida “Keine Lust”, tema que gera uma grande interação entre os presentes e o vocalista, que se vai movimentando energicamente por cada um dos lados do palco.
Depois de uma “Sehnsucht” e de uma “Asche zu Asche” que não tiveram tantos aplausos como seria de esperar, a loucura instala-se quando se ouvem os primeiros segundos da sombria, mas atraente, “Feuer Frei!”, com os guitarristas Richard Kruspe e Paul Landers a ajudarem à festa, colocando máscaras que disparavam fogo.
Cai o pano e, por breves momentos, o palco escurece. O público, sedento de mais energia, queria mais. Muito mais. Ouve-se, então,“Wiener Blut”, para depois se passar para uma sangrenta “Mein Teil”, onde Lindemann, vestido de cozinheiro, puxa para o palco uma panela gigante, onde se iria meter o pianista Flake Lorenz (impossível não ficarmos hipnotizados com os seus frenéticos passos de dança). Depois de afiadas as facas, era altura de dar lume ao cozinhado.
“Mein Herz brennt” é tocada numa versão muito melódica e solene, apenas ao piano, colocado a meio do palco para o efeito. Um dueto interessante de sever entre Lindemann e Lorenz, a demonstrar que, além do metal industrial, os Rammstein também conseguem criar momentos mais sensíveis, mas igualmente teatrais.
Na música “Benzin”, algo inquietante acontece: um suposto membro do público invade o palco e Lindemann pega-lhe fogo, antes do mesmo ser retirado de cena pelos seguranças - um episódio engraçado, mas algo forçado e fingido.
“Du riechst so gut” gera, pouco depois,nova explosão de vivacidade por parte do público, que investe num mosh convicto, enquanto o vocalista se entretém, de arco e flecha na mão. Mas é com a estupenda “Links 2-3-4”, do saudoso álbum “Mutter”, de 2001, que o Atlântico atinge o êxtase total, com a coreografia, a lembrar o serviço militar, a confirmar-se como uma das grandes armas da música, que o público parece saber de cor, apesar da pouca afinidade com a língua. "Du Hast" conquista, pouco depois, semelhante efeito, com os fãs da banda a festejarem entre explõsões de pirotecnia, como se não houvesse amanhã.
A famosa “Buck dich” leva todos os elementos do coletivo, exceto o baterista,até ao centro do palco, para aquela que se viria a revelar uma das partes mais inesquecíveis do concerto: Lindemann pega no pianista Lorenz, que faz pose de cão, rasga-lhe as calças, evidenciando o seu rabo, para depois simular uma cena de sexo, que acaba num banho de água dirigido ao público. Sorrisos marotos invadem a plateia, antes da representação chegar ao fim, sem antes um piano ser destruído.
Ainda antes do encore, ouve-se a balada“Ohne dich”, são feitos os agradecimentos e as despedidas da praxe. Enquanto a banda não regressa, uma reflexão sobre o que acabámos de assistir: os Rammstein são, sem qualquer dúvida, uma banda talhada para atuar ao vivo. Usam e abusam da pirotecnia, dos fortes jogos de luz, das encenações - algo que se viu reforçado nos últimos três temas da noite: a incrível "Sonne", que mostra o símbolo dos Rammstein a arder por cima do palco; "Ich Will, uma das mais aplaudidas da noite, com o vocalista a arriscar nas primeiras palavras em português da noite - "Levantem as mãos!!!"; e "Pussy", liricamente pobre, mas com um forte cariz sexual, que encerra o concerto, mas sem antes o vocalista dar umas boas pancadas no suporte do microfone e ainda distribuir espuma através dum canhão. E caem os habituais confettis. Emocionante.
Texto: Alexandre Rodrigues
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