Os Rolling Stones nasceram no início dos anos 1960, no Reino Unido, mas os fãs portugueses esperaram quase três décadas para ver a banda de Mick Jagger, Keith Richards e companhia ao vivo e a cores. O concerto foi marcado para o feriado de 10 de junho, de 1990, um domingo, no Estádio José Alvalade, em Lisboa.

Apesar de não ter sido o primeiro concerto de estádio em Portugal - The Police (1980), Roxy Music (1982), Rod Stewart (1983) e Stevie Wonder (1984) atuaram no início da década de 1980 no Estádio do Restelo; The Cure subiram ao palco do Estádio José Alvalade em 1989 -, o concerto dos Rolling Stones em 1990 foi o grande espetáculo que colocou Portugal no mapa do circuito europeu dos grandes concertos de estádio.

Há 30 anos, as bancadas e o relvado do estádio encheram-se para receber a banda britânica, que já contava com 28 anos de carreira e que trazia na bagagem temas como "Start Me Up", "You Can't Always Get What You Want", "Paint It Black" ou "Can't Be Seen".

Para a maioria dos espectadores, a estreia dos Rolling Stones em Portugal foi também a sua primeira ida a um estádio para ver um concerto. E a ansiedade para ver os britânicos começou meses antes, com a corrida às bilheteiras e aos passatempos, recorda Teresa Lage, da RFM, em conversa com o SAPO Mag. "Foi um grande presente para os fãs portugueses e ainda por cima vieram no dia 10 de junho. Era a maior banda de rock do mundo. Foram 60 mil pessoas. E lembro-me de uma reportagem que dizia que as pessoas levavam os seus walkmans, que havia pessoas de todos os estilos, 'freaks, metaleiros, patrões, empregados, filhos, pais... Foi realmente gente de todos os géneros possíveis e imaginários. Toda a gente que gostasse de música, tinha de estar ali", recorda a produtora/ coordenadora de produção da RFM desde 1990 e que acompanhou a vinda do grupo a Portugal.

ROLLING STONES
Rolling Stones na Amsterdam Arena, em junho de 1990

O concerto dos britânicos estava inserido na digressão "Urban Jungle Tour" (foi a última digressão em que Bill Wyman integrou os Rolling Stones), que sucedeu ao álbum "Steel Wheels". Na Europa, a viagem dos 'Stones' começou a 18 de maio, em Roterdão (Países Baixos) e passou por várias cidades na Alemanha antes da chegada a Lisboa.

Às três da manhã no aeroporto de Lisboa e uma hospedeira despedida

Apesar do concerto estar marcado para o dia 10 de junho, os Rolling Stones aterraram em Lisboa no dia 7, depois de um concerto no Olympiastadion, em Berlim. Os britânicos chegaram ao aeroporto da capital portuguesa por volta das três da manhã, como recorda Teresa Lage.

Aeroporto de Lisboa 3.20 da manhã de dia 7 de Junho 1990
Aeroporto de Lisboa | 3h20, 7 de junho de 1990 créditos: Teresa Lage

"Fomos às três da manhã esperá-los e acabaram por sair pela 'porta do cavalo'. Mas vimos as malas, coisas gigantes, e estava um monte de gente à saída do aeroporto de Lisboa e mesmo lá dentro. Até tenho uma fotografia. Depois soubemos que eles já tinham saído e fomos de carro atrás deles, para o hotel Meridian", lembra.

Na aventura, Teresa Lage tinha também ao seu lado Paulino Coelho, locutor da Rádio Renascença. "A grande memória que tenho foi termos andado atrás deles. Fomos para o aeroporto e seguimos a carrinha com as malas e estávamos em direto na rádio - as madrugadas faziam-se em direto. E um colega meu saiu do carro da Renascença, no caso estava na RFM, e foi descarregar as malas e chegou a estar nos quartos deles", recorda o locutor que acompanhou a vinda dos britânicos a Lisboa. "Na época, entrevistámos uma hospedeira que vinha com eles no voo privado e disse que o Mick Jagger era muito antipático... e à conta da entrevista que nos deu, à RFM, foi despedida por ter violado o dever de confidencialidade", conta, lembrando que "andámos até às cinco ou seis da manhã atrás deles".

"Quando chegámos lá, uns fãs disseram-nos que eles eram 'feios e baixinhos'. E foi exatamente a sensação que eu tive quando eu os conheci pessoalmente", lembra Teresa Lage, entre risos.

Bonecas insufláveis e um alinhamento só com sucessos

Além da 'perseguição' aos músicos, a equipa da RFM acompanhou todos os preparativos. "Acompanhámos tudo desde o primeiro parafuso que foi posto no palco, na segunda-feira anterior. Todos os dias estávamos lá a acompanhar a construção do palco e a preparação do espetáculo", recorda Paulino Coelho em conversa com o SAPO Mag.

ROLLING STONES
Recortes de jornais créditos: Teresa Lage

No total, no terreno, os preparativos para espetáculo duraram uma semana. Pela primeira vez foram criadas áreas especiais, como áreas vips - apesar de não ter sido o primeiro concerto em estádio, em Portugal, foi a primeira produção de grande escala. "O concerto dos Rolling Stones foi especial. Não foi o primeiro concerto de estádio, mas na estrutura de concerto e produção... nunca tínhamos tido. Não havia sítio para os artistas tocarem - não tínhamos ainda o Pavilhão Atlântico [atualmente Altice Arena], portanto não tinhas concertos de arena; só tinhas concertos pequenos, nos Coliseus, ou  Pavilhão de Cascais", lembra Teresa Lage.

"Foi uma coisa do outro mundo, foi um fim de tarde/noite mágico. Fomos para lá muito cedo, só para assistir porque já não podíamos fazer nada, mas foi uma coisa absolutamente mágica. Eu vi coisas que nunca tinha visto e foi daqueles concertos que ficam para a história", confessa Paulino Coelho.

"A coisa mais fabulosa que eu vi foram as duas bonecas gigantescas insufláveis [de 'Honky Tonk Women']. Para já, foi o maior palco que eu vi na minha vida e depois, de repente, aparecem duas bonecas insufláveis sentadas no topo do palco, lá em cima e julgo que se viam de fora do estádio. Para mim, foi uma parte absolutamente surpreendente porque ninguém estava à espera daquilo. Mas todo o alinhamento do concerto foi um best of, no fundo. Foi uma coisa uma coisa de outro mundo", garante.

O concerto em Lisboa, que fez parte de uma das digressões de grandes dos britânicos - a digressão começou em agosto de 1989 nos Estados Unidos e inicialmente chamou-se "Steel Wheels Tour" - arrancou ao som de "Start Me Up", "Sad Sad Sad", "Harlem Shuffle" e "Tumbling Dice". O alinhamento (pode ver aqui a setlist completa) contou ainda com "Almost Hear You Sigh", "Ruby Tuesday", "Blinded by Love", "Rock and a Hard Place" e terminou com "Can't Be Seen" (Keith Richards na voz), "Happy" (Keith Richards na voz) e "Paint It Black".

O alinhamento carregado de sucessos e a produção surpreendente conquistaram todos os presentes. "Foi um evento do mais elaborado que há. Lembro-me que estava lá o Marcelo Rebelo de Sousa, que na altura tinha sido candidato à Câmara Municipal de Lisboa, estava o João Soares e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa [Jorge Sampaio]. Foi o primeiro concerto com zonas VIP e etc - não era nada comum porque a maior parte dessas pessoas nem ia aos concertos", conta Teresa Lage.

O furor dos concertos em estádios

Depois do concerto dos Rolling Stones, o país ficou no mapa e as digressões com concertos de estádio passaram a fazer paragens em Portugal. Só no início dos anos 1990, o Estádio José Alvalade, em Lisboa, recebeu Tina Turner, Paul Simon, Carlos Santana, Simple Minds, Bryan Adams, Dire Straits, Guns and Roses, Elton John, Genesis, Michael Jackson, Bruce Springsteen, Bob Dylan, U2 ou os Pink Floyd.

Concerto dos Muse no Estádio do Dragão no Porto

A norte, em 1992, o Estádio das Antas, no Porto, recebeu a primeira e única atuação no nosso país de Frank Sinatra - a primeira parte do concerto esteve a cargo de Herman José. Acompanhado por uma orquestra de mais de 40 músicos em palco, dirigidos pelo filho, Frank Sinatra Jr, foi recebido por sete mil a 15 mil pessoas - os números revelados pela imprensa não coincidem.

Já o novo Estádio do Dragão, recebeu um concerto dos Coldplay em 2012. No ano seguinte, a 'casa' azul e branca encheu-se para receber a 10 de junho os Muse. Em 2014, foi a vez dos One Direction esgotarem o estádio.

Já o recorde de maior assistência de um concerto pertence a Ed Sheeran - nos dois concertos no Estádio da Luz, em Lisboa, o músico britânico juntou mais de 120 mil pessoas.

* Imagens da foto de topo: Teresa Lage

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