Não fosse o caso de os Kraftwerk terem a ligação simbiótica que se sabe com a tecnologia e até pareceria estranho a entrega de óculos 3D na entrada do Hipódromo de Cascais, palco do regresso a Portugal dos patriarcas da fusão entre a eletrónica e a pop.

Apesar dos óculos, o espetáculo visual é simples, sem que haja nisto um juízo de valor; é que comparado com parafernálias visuais hoje em voga entre os grandes do rock e da pop, os Kraftwerk primam pela sua habitual economia que se funde bem com o seu estoicismo robótico. Tal como a música que, potencializada pela atualização tecnológica, soa tranquilamente contemporânea. Talvez o grande milagre seja esse: mesmo que muitas vezes eles executem reproduções fieis dos originais, o techno + pop do grupo soa pacífico dentro da modernidade. Assim não poderia, vindo de tal procedência, ser um espetáculo nostálgico. Ou datado.

Uma “blitzkrieg” de “Computer World”, álbum de 1983, abre o concerto: a civilização da quantificação (“Numbers”), a impressionante premonição da era cibernética de “Computer World” (diz a letra: “Interpol and Deutsche Bank, FBI and Scotland Yard, Business, Numbers, Money, People… Computer World”), ou o computador como forma de combater a solidão (“Computer Love”).

Nem toda a gente do rock dos anos 1970 sabia como enquadrá-los ou sequer gostava deles - “muito eletrónicos” ou dificilmente passíveis de ser inseridos no rótulo “progressivo”. Mas quando tudo desmoronava diante da hecatombe punk, eles não tinham nada a ver com isso: um ano depois de “Never Mind the Bollocks”, lançavam o seu álbum mais icónico, “The Man Machine” (1978), sem serem importunados. Afinal, também os alemães anunciavam uma nova era.

À partida não há nada de surpreendente na trajetória inicial dos Kraftwerk: vêm da terra onde Stockhausen fazia subversões com a eletrónica desde os anos 1950 e que abrigou, no final dos 1960, uma série de grupos posteriormente batizados de “krautrock”. Mas enquanto luminárias como os Can ou os Neu se ficavam por uma música mais experimental ou outros navegavam nas fronteiras do progressivo, como os Tangerine Dream, os Kraftwerk ousaram juntar a eletrónica com uma fragrância pop.

Em sua defesa, no entanto, diga-se que o technopop da banda sempre foi marcado por uma forte carga conceptual. A icónica capa de “The Man Machine” e as palavras da faixa-título (“The Man-Machine/pseudo human being/Man Machine, super human being”) são ilustrativas de uma fusão entre música e ideias, que abrigavam numa mesma abordagem visual e filosofia.

Em Cascais os “pseudo” seres humanos “contactam” com os espectadores apenas via satélite: na viagem de “Spacelab” a nave espacial plana no espaço até encontrar o “pin” de Portugal no mapa e a canção termina com um “disco voador” a aterrar no Hipódramo. O público delira.

créditos: EDP CoolJazz

Nada mais emblemático da fusão da eletrónica com a pop do que a bela “The Model”, com algo mais próximo de uma letra (uma subtil crítica ao mundo da moda) que Hutter foi capaz de engendrar. Entre os momentos luminosos do espetáculo estão o passeio de “Autobahn”, cuja capa do álbum original ganha uma animação que leva a audiência à estrada para acompanhar o tema que os colocou na rota do sucesso internacional em 1974. Um ano depois, lançavam “Radioactivity”, cuja versão executada mistura a original com a presente no álbum “The Mix” (1991) – esta com os acrescentos na letra que alertavam para os desastres nucleares de Harrisburg, Chernobyl, Sellafield e Furkushima.

Arrebatadoras serão ainda a recriação de “Electric Cafe” e o assombroso trânsito noturno de “Trans-Europe Express” na sua fusão com “Metal on Metal” e “Abzug”, ambas antecedendo a sua música mais famosa e reverenciada, “The Robots”.

Para o final fica um trio de “Eletric Cafe”, eventualmente o álbum mais complexo e sofisticado do grupo e onde o tema era a própria música: dos sons de “Boing Boom Tschak” ao inventário de “Techno Pop”, para encerrar com uma poderosa versão de “Musique non Stop”, onde cada músico vai saindo de cena e despedindo-se do público com uma vénia.

Os “pseudo humanos” não precisam de palavras: parafraseando a letra de “The Robots”, eles já carregaram as baterias das almas robóticas e deixaram-nas cheias de energia. O público agradece.

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