A campanha intitulada “O Futuro da Barata é Hoje” arrancou na plataforma PPL (https://ppl.pt/causas/barata) e pretende angariar 190 mil euros “para ajudar a livraria a ultrapassar as dificuldades financeiras geradas pelo impacto da pandemia COVID-19, que provocou uma redução de vendas de quase 90% do volume habitual”, revelou a Barata em comunicado.

A campanha prolonga-se até ao dia 3 de agosto e foi lançada hoje, dia 16 de junho, por ser uma data simbólica para a Barata, pois é o dia em que se comemoram 34 anos da requalificação arquitetónica que criou o atual espaço alargado da livraria.

O valor angariado nesta campanha destina-se a restabelecer os 'stocks', de imediato, a garantir os custos de funcionamento, como rendas e ordenados, até final 2020, a requalificar o espaço histórico para o preparar para a oferta de novas atividades e desenvolver uma plataforma de 'e-commerce', já a partir do terceiro trimestre de 2020.

“A Barata pretende utilizar o montante angariado exclusivamente em prol da melhoria do serviço prestado e, por isso, entende-o como uma forma de investimento direto dos cidadãos na sustentabilidade do comércio de proximidade”, lê-se no comunicado.

Quanto às contrapartidas previstas para os doadores, serão vertidas em produtos culturais, ou seja, uma espécie de crédito em compras na livraria.

Essas contrapartidas vão desde cheques oferta, que podem ser descontados em livros e outros produtos comprados em loja, 'merchandising' exclusivo da Barata (marcadores de livros, postais ilustrados, sacos de pano) até livros assinados e obras de arte, de autores a anunciar.

A par desta iniciativa de ‘crowdfunding’, a Barata propõe-se desenvolver um plano de oferta cultural, formativa e informativa e uma estratégia de comunicação para atrair novos públicos e fidelizar os clientes, que conta assegurar com a sustentabilidade financeira do negócio.

“Esta campanha é justificada pela iminência de encerramento da Barata que vinha já lutando pela sustentabilidade financeira num quadro que se foi agravando ao longo dos anos devido à alteração de hábitos de consumo e de leitura que levaram à redução de clientes e à forma de organização do setor editorial e livreiro, em torno de grandes grupos, que esmagam a presença das livrarias independentes”, esclarece.

A Barata admite que o “difícil equilíbrio de receitas e despesas era mantido graças às vendas semanais, mas “o advento dos dois meses iniciais do confinamento devido ao COVID-19”, que reduziu as vendas em quase 90%, “esmagou” esse equilíbrio precário.

A livraria viu-se então numa “situação insustentável”, vivida sem acesso a quaisquer tipos de apoios, “por a sua atividade e características não fazerem da Barata entidade elegível” para esses apoios.

Ainda assim, durante o confinamento, e apesar de ter tido uma quebra de fornecimento de livros e publicações periódicas, a Barata decidiu manter-se aberta e vender ao postigo.

Procurou também adaptar o seu funcionamento, com o reforço dos meios digitais e a criação de um serviço de entregas ao domicílio para chegar aos clientes, “um esforço assumido mas feito com muito sacrifício pessoal e financeiro, da livraria e dos seus funcionários”.

A Barata é uma empresa familiar, criada por António Barata, em 1957, com um percurso fortemente ligado à história de Lisboa, e chegou a ter uma cadeia de uma dúzia de livrarias espalhadas pela cidade, em pontos fulcrais como o Instituto Superior Técnico e o bairro de Campo de Ourique.

A origem de tudo é a livraria-mãe, na Avenida de Roma, que começou por ser uma pequena loja de livros, papelaria e tabacaria, e que em 1986 sofreu uma transformação arquitetónica que a tornou o espaço que é hoje, com o seu piso em calçada portuguesa e estantes de inspiração modernista.

Nos anos de 2010, para dar impulso ao negócio, a Barata fez uma parceria de âmbito comercial com o Grupo Leya, que lhe permitiu acesso prioritário na comercialização de todas as chancelas do grupo, desde as edições gerais às escolares.

Contudo, foi esta mesma parceria que inviabilizou que a Barata, apesar de ser uma livraria independente dos grandes grupos, pudesse integrar a RELI – Rede de Livrarias Independentes.

Hoje classificada Loja com História, a Barata nasceu há 63 anos, “nas brumas da ditadura”, e foi-se tornando um espaço de comunhão literária, mas também de resistência, de busca e partilha de conhecimento e informação.

Esse posicionamento valeu ao seu fundador a perseguição da polícia política, mas nem assim fechou as portas, alimentando sempre um espaço de cultura e de pensamento livre.

Criada à imagem das “grandes livrarias independentes, herdeiras da Europa das Luzes, precursoras da alfabetização e da promoção do conhecimento, numa lógica plural, humanista e universalista”, a Barata evoluiu em dimensão e oferta, apostando no ensino técnico e na vertente infantojuvenil.

Hoje, a Barata insiste e persiste, afirmando que mais do que uma livraria, é “um projeto pedagógico, de cidadania ativa em prol do livro e da leitura, uma casa que apoia muitas escolas no eixo Areeiro/Alvalade, e que reúne uma comunidade de leitores".

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