A música popular mudou e, na última quinta-feira, viveu-se no Musicbox a prova disso. Vindos dos Açores, Medeiros/Lucas mostraram os lugares e momentos perdidos no espaço e no tempo através de um som refinado, com eletrónica à mistura. A receção, ou melhor dizendo, a primeira parte do concerto, ficou a cargo dos já conhecidos Jibóia e Filho da Mãe.

Medeiros/Lucas

Esta viagem ao arquipélago perdido no meio do Atlântico começou pela atuação de Filho da Mãe e Jibóia. Incessantes, procuraram mostrar como se pode estar numa aparente calma e um momento depois estarmos uma loucura incontrolável, comprovada com a distorção elétrica e amplificada com a maior cadência de loops, e com uma maior intensidade da guitarra de Filho da Mãe.

Eles acabam por ser a prova viva de que não é preciso letras para exprimir ideias ou sentimentos. Duas guitarras servem o propósito para exprimir a loucura e a confusão (novamente com os recursos os loops e os beats) que pode ser a vida. A confusão também surge pela mistura de estilos musicais que os dois procuram.

Por fim, aterramos no concerto que interessava. Mar Aberto é o nome do primeiro álbum de Medeiros/Lucas. O mar, como o próprio nome do disco indica, acaba por ser o tema central de toda a trama. Percorrer lugares comuns, temas que são particulares aos ilhéus, mas que de certa forma se identificam com todos nós em geral. A apatia, a queda uma rotina desiludida, o azar são transformados em faixas que transformam a música popular em algo mais. Algo maior do que é a música popular.

A voz arranhada, desgastada pelo tempo, de Carlos Medeiros, é a personificação perfeita para retratar a história de um fado açoriano. O instrumental, liderado por Pedro Lucas (na guitarra) e que é acompanhado por Ian Carlos Mendoza (percussão), Augusto Macedo (teclas e baixo) e Jácome Armas, é o complemento perfeito para a contemporaneidade das experiências contadas.

A trama das letras é desenrolada sempre com o mar como pano de fundo, ou não fosse um dos símbolos associados ao arquipélago açoriano. Desde logo com o hipnótico Búzio, que contou com a voz feminina de Mitó Mendes como backup, abriu as hostilidades da noite na sala lisboeta. Canção do Mar Aberto, primeiro single do álbum, Rema ou Fado do Regresso são outras faixas que comprovam esta relação inseparável entre os insulares e o oceano.

Já Esfarrapada foge a este tema marítimo, em que retrata de forma solene a relação que entre a sorte e o amor. A ideia visível ao longo do concerto é que é procurada uma calma que é difícil de alcançar. Outra vez, é provada até pela música em si, por um lado calma, sem grande alarve, por outro, caótico e intensa.

A viagem só se concluiu com uma viagem ao passado, com Caracol, tema próprio de Carlos Medeiros que foi interpretado de forma condigna pela banda, e de certa forma cantada por parte do público que encheu o Musicbox.

A apresentação está feita ao público lisboeta, pelo que é de esperar que consigam transmitir as aventuras e sentimentos dos Açores nos próximos tempos. É aguardar, com saudade.

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Fotos: Rita Sousa Vieira

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