A escritora vencedora do Prémio Oceanos, com “Luanda, Lisboa, Paraíso”, acaba de lançar um novo romance, intitulado “As Telefones” e editado pela Relógio d’Água.

A história deste livro acompanha a relação entre duas mulheres, Filomena e Solange, ao longo de quase quarenta anos, mas com uma particularidade: “uma vez que não vivem juntas, e raramente se veem, falam ao telefone”, contou à Lusa a autora.

“O livro tenta perceber de que modo a conversa telefónica determina a relação entre duas pessoas”, explicou.

A ideia é apresentada ao leitor logo no início: “Não conheço o teu corpo, Filomena. Não conheço o meu corpo. De olhos fechados, não me lembro da tua cara. De olhos fechados, não sei como é a minha cara. Conhecemo-nos por telefone”.

Segundo Djaimilia Pereira de Almeida, a ideia para esta história nasceu da perceção de que “a conversa telefónica é, desde há muito, o género literário da diáspora, entendido num sentido lato, enquanto género literário da relação que mantemos com quem está distante de nós”.

A diáspora é um tema caro à autora, que já o tinha explorado em “Luanda, Lisboa, Paraíso”, neste caso através da história de um pai e um filho que viajam para Lisboa, por causa de uma cirurgia, carregados de sonhos, que rapidamente se desvanecem no embate com a realidade que os espera num país onde não são recebidos como portugueses e são atirados para a miséria.

Mas “As Telefones” tem um segundo plano, que a escritora explica da seguinte forma: “pareceu-me que a conversa telefónica nos transfigura aos poucos; e que, como acontece a Filomena e Solange, pode levar a que não nos consigamos relacionar de outro modo”.

Este é o quarto romance de Djaimilia Pereira de Almeida, depois de “A visão das plantas”, que foi editado no ano passado também pela Relógio d’Água, mas não foi um romance de rápida elaboração, pelo contrário, foi sendo escrito ao longo de nove anos, enquanto a autora se dedicava a vários outros projetos.

Nesse processo, constituiu “um extenso arquivo: recortes de imprensa, gravações, notícias, fotografias, objetos, livros, canções, muitos dos quais começara a colecionar muitos anos antes”.

É, por isso, um romance sem uma narrativa linear, como explica a escritora.

E também, por ter sido escrito durante muitos anos, não foi influenciado pela atribuição do prémio literário ao seu segundo romance.

Uma eventual pressão para manter a fasquia no mesmo nível, ou o contrário, uma eventual inspiração particular, não estiveram aqui em jogo, porque “o livro estava concluído antes da circunstância de ‘Luanda, Lisboa, Paraíso’ ter recebido o Prémio Oceanos", afirmou.

A portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida, nascida em Angola, venceu a edição de 2019 do Oceanos - Prémio de Literatura em Língua Portuguesa, com “Lisboa, Luanda, Paraíso”, que antes já tinha recebido os prémios literários Fundação Inês de Castro e Fundação Eça de Queiroz.

Depois desse romance, e já na Relógio d’Água, a escritora publicou “Pintado com o pé”, uma compilação de textos dispersos e ensaios, e “A visão das plantas”, romance inspirado por uma frase que encontrou no livro “Os pescadores”, de Raul Brandão.

O seu romance de estreia foi publicado em 2015 pela Editorial Teorema e chama-se “Esse cabelo”.

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