A canção “Valsas Portuguesas” surgiu-lhe pela frente numa altura em que procurava as suas próprias raízes, e assim, partiu em busca da ligação a Portugal nesta canção tão popular na Terra Nova, Canadá.

Esse elo, percebeu o escritor, não seria assim tão óbvio, por isso decidiu contá-lo no livro infantil “The Mistery of the Portuguese Waltzes” (“O Mistério das Valsas Portuguesas”, em tradução livre), que chegará, em breve, às livrarias portuguesas, pelas mãos da Poética Edições.

Richard Simas é descendente de terceira geração de uma família que, originalmente, foi do Pico até à Califórnia, à boleia da pesca baleeira.

Nunca contactou muito com a herança cultural portuguesa, devido à “versão da costa oeste” da imigração portuguesa, que é muito diferente da que se encontra na costa leste americana, onde a cultura portuguesa é fortemente celebrada, explica à Lusa.

“Na ordem socioeconómica, havia os suíço-italianos no topo, ingleses e irlandeses a seguir, depois os portugueses e depois os mexicanos. Os portugueses estavam no fundo da ordem social, por isso não era vantajoso, especialmente porque a minha mãe não era portuguesa, cultivar essa ideia”, esclarece o escritor.

As referências que tinha eram vagas: “Por exemplo, quando íamos a um casamento, ou um aniversário, íamos a um clube que se chamava D.E.S. Ninguém me explicou o que isso significava. Eu achava que era um clube privado pertencia à nossa família e as nossos amigos. Tínhamos lá orquestras, música, toda a gente dançava. Foi só mais tarde que percebi que era o Divino Espírito Santo”.

Foi em Montreal, para onde se mudou “por causa da arte, do teatro e da cultura francesa”, que acabou por contactar mais com a cultura portuguesa, já que acabou por dirigir, durante 14 anos, um teatro que ficava “no coração do bairro português”.

“Ia às padarias, cafés e tinha a sensação de que estava, de alguma forma, relacionado com aquelas pessoas, mas ficava por aí”.

Em 2007, decidiu dedicar-se à escrita a tempo inteiro e aprender a tocar clarinete. Como via “as procissões com as filarmónicas portuguesas”, abordou-os, “mas a ideia era escrever uma história, não era tocar com eles”. Queria “ir ao encontro daquela música muito atrativa, mas também muito antiquada”.

“Eram as festas do Santo Cristo e as festas do Espírito Santo – toda a gente nas ruas. Tinha algo que imediatamente me disse alguma coisa”, afirma.

Embora admita que, na filarmónica, encontrou “uma conexão emocional muito grande, imediatamente”, acabaria por se cansar de tocar “sempre a mesma coisa, sempre da mesma maneira”.

À falta de evolução musical, acrescia o facto de ser “americano, e há sempre um ponto em que não se pode pertencer completamente àquela família”, confessa.

Ainda assim, aquele contacto foi importante, e começou a aprender português, para se aproximar de Portugal, também através da literatura.

As “Valsas Portuguesas” apareceram-lhe em 2016, quando se juntou a uma banda judia e conheceu um saxofonista de São João, na ilha canadiana da Terra Nova, que lhe apresentou ao popular tema folk.

“Como escrevo artigos sobre música e cultura pensei que podia ser um artigo. Era o assunto perfeito para mim”, conta.

A canção foi composta pelo acordeonista Art Stoyles, e faz parte de um álbum “em que seis canções estão identificadas como canções tradicionais portuguesas”.

“Cinco delas soam exatamente a canções de folclore português, mas a sexta, as ‘Valsas Portuguesas’, não soa nada como uma canção portuguesa”, explica o autor.

Foi esse mistério que o levou, primeiro, até à Terra Nova e, mais tarde, a Portugal, para descobrir a origem desta música.

A pista estava na dedicatória – ao capitão Manuel da Silva.

Richard, que não sabia nada acerca da campanha portuguesa de pesca do bacalhau, cedo se dedicou a estudar o tema. Também cedo se apercebeu que a busca não seria fácil, já que Manuel da Silva é um nome muito comum. Felizmente, capitães com esse nome, havia só um.

O homem em questão já tinha morrido, mas conseguiu entrar em contacto com familiares, que confirmaram que o capitão tocava música.

No entanto, os familiares “não conheciam a música, nunca tinham ouvido falar de Art Stoyles” e adiantaram que o capitão tocava “guitarra e não acordeão”.

Depois de falar também “com acordeonistas, músicos e musicólogos” apercebeu-se que “ninguém em Portugal sabia nada sobre esta canção”.

Também do lado canadiano da história as incongruências eram muitas.

“Fiz entrevistas e pesquisa. Estava a tentar juntar as partes, basicamente, através de palavras. Cheguei a um ponto em que pensei: ‘não tenho a certeza do que é verdade ou não’”, explica.

“Há emoção naquela música, não há dúvida de que há uma emoção terna de anseio, a que se pode chamar saudade ou outras coisas. É dolorosa e também uma celebração ao mesmo tempo. Gosto de deixar a coisa por aí. Se conseguisse descobrir mais, gostava de descobrir mais”, afirma.

Não está desiludido por não ter encontrado uma resposta definitiva, admite: “Ter questões é um pretexto para aprender coisas. […] Encontrar a origem é um trabalho para académicos. E é um trabalho válido e importante, mas um escritor, que trabalha com ficção, está sempre à procura do porquê”, conclui.

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