O primeiro álbum, “Vibra”, que será editado em maio, conta com o apoio da Direção-Geral das Artes e tem como “objetivo artístico central, combinar a plasticidade dos espaços públicos e suas inerentes características acústicas, na composição das peças musicais”, disse o músico à agência Lusa.

Além dos instrumentos gravados em estúdio, vão decorrer gravações em espaços como a estação Salgueiros do Metro do Porto, a lagoa do Parque de Serralves, as áreas de ligação entre as salas da Casa da Música, a câmara anecóica da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e galerias subterrâneas do Rio de Vila, situadas entre São Bento e a Praça da Ribeira.

Quanto à escolha do título, “Vibra”, homónimo do projeto, o compositor explicou que é “uma alusão à dimensão mecânica do som”, a vibração.

“Os espaços públicos escolhidos são considerados do ponto de vista formal, como instrumentos musicais, contribuindo com a sua volumetria e idiossincrasias geométricas, na própria conceção musical”, explicou João Pedro Coimbra.

Vibra é um projeto artístico que propõe a composição das obras musicais, a sua execução, gravação áudio e vídeo e posterior registo físico e digital.

Um outro momento do projeto existirá "aquando da sua apresentação pública e posterior digressão nacional e internacional”, realçou o compositor à Lusa.

Para cada peça registada em disco, “existirá uma faixa extra correspondente, que conterá apenas o som ambiente do local onde a obra for gravada, sem qualquer intervenção ou estímulo externo".

O compositor pretende assim "fixar um retrato sonoro destes locais, estimulando a imaginação do ouvinte, com a recriação mental do edificado. A volumetria destes espaços, não foi idealizada com o fim de uma reprodução musical, mas é essa ausência de tratamento acústico que confere uma personalidade, uma presença que se sente, que se pretende capturar e cujas condicionantes são 'parceiras' no ato da composição”, afirmou o músico.

“Do ponto de vista estético –- prosseguiu João Pedro Coimbra --, as obras compostas enquadram-se numa linguagem pós-minimal e estocástica [aleatória], onde o processo evolutivo depende do ambiente acústico onde se inserem. A escolha destes espaços prende-se com as suas propriedades acústicas, nas suas capacidades de amplificarem a peça escrita, mas, sobretudo, como ‘parceiros’ e móbil, na composição das peças, através de microfones colocados na sala que a vão 'escutar' e, depois, na ‘reemissão’ do material sonoro, em tempo real”.

A direção artística e composição são de João Pedro Coimbra, o desenho de som, captação e registo são de João Brandão.

Licenciado em Produção e Tecnologias da Música, pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) do Porto, João Brandão fundou, em 2007, os Estúdios Sá da Bandeira. Em 2016, o jornal Público apontou-o como “um dos cinco produtores portugueses mais influentes na última década”. Em 2017 criou a Arda Recording Company, a construir, atualmente, um complexo de cinco estúdios de gravação e pós-produção áudio em Campanhã, no Porto.

João Pedro Coimbra colaborou com as bandas Três Tristes Tigres, Osso Vaidoso, Bandemónio e foi um dos fundadores dos Mesa (2002-2016), tendo trabalhado, entre outros, com músicos como Alexandre Soares, Ana Deus, Rui Reininho, Ana Bacalhau, Pedro da Silva Martins, Jorge Benvinda, Frederico Cardoso, Dimitris Andrikopoulos, Tiago Guedes, Jorge Coelho e Jorge Queijo.

João Pedro Coimbra estudou na Escola de Jazz do Porto e na Escola Caiús, onde foi aluno de Pedro Barreiros, Nelson Cédrez, Joaquim Teles, Mário Barreiros e Brendan Hemsworth.

Profissionalmente, iniciou-se como percussionista e baterista no Ballet-Teatro do Porto, foi músico da Orquestra de Jazz do Porto e fez parte dos Bandemónio (1993-1996), banda que acompanhou Pedro Abrunhosa.

Foi com as Três Tristes Tigres, com quem ainda colabora, que começou a integrar 'samplers', de forma a aumentar as possibilidades tímbricas da bateria.

“Explorar a utilização e integração da eletrónica com instrumentos acústicos” esteve sempre presente no seu trabalho e foi sempre alvo de estudo, disse.

A sua tese de mestrado em “Teoria e Composição”, apresentada em 2013, na ESMAE, intitulou-se “Aproveitamento de elementos de Estética Glitch, na escrita para instrumentos tradicionais”.

Desenvolve trabalho de investigação, na área da “semiótica dos sons”, especialmente ao nível das “mitologias da perceção”, que realizam uma hierarquização sonora, através da atribuição de significados, transmitidos culturalmente e consequentemente adotados como padrões, explicou.

O compositor é licenciado em Jornalismo Internacional (1998), com uma pós-graduação em Direito da Comunicação pela Universidade de Coimbra (1999).

João Pedro Coimbra afirmou-se “fortemente influenciado pelo pós-modernismo de Jean-François Lyotard, Alain Touraine e Boaventura de Sousa Santos”.

“A música é feita de múltiplos sistemas estruturados de forma parcialmente análoga à que ocorre numa língua. As meta-narrativas musicais abriram novas oportunidades na dialética entre compositor e ouvinte, e a inclusão de novas unidades de sentido”, disse.

Com os Mesa conquistou um Globo de Ouro/SIC-Caras, e um Dance Club Award, entre outros galardões recebidos com os Bandemónio e as Três Tristes Tigres.

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