A minissérie "Mrs. America" está disponível através da HBO Portugal.

Foram visionados três dos nove episódios que vão ficar disponíveis até ao final de maio.

Crítica de Daniel Antero.


Examinando um momento tão expansivo e crucial da história americana, "Mrs. America" assume uma posição didática e ambiciosa, recordando várias líderes do movimento feminista e anti-feminista.

Com nove episódios, intitulados a partir do nome de cada uma dessas figuras, a minissérie da HBO criada por Dahvi Waller ("Mad Men") aborda o conflito entre as mulheres liberais que lutaram pela aprovação da proposta de Emenda da Igualdade de Direitos na Constituição dos EUA, que validaria uma garantia constitucional de direitos iguais para as mulheres, banindo qualquer discriminação baseada no sexo, e as donas de casa conservadoras que orgulhosamente se opuseram.

Entre as mulheres que vamos acompanhar estão Gloria Steinem (Rose Byrne), a criadora da revista feminista Ms.; Shirley Chisholm (Uzo Aduba), a primeira mulher negra a concorrer à presidência; Bella Abzug (Margo Martindale), uma estratega pragmática, que sabe o que pode obter num Congresso liderado por homens; Betty Friedan (Tracey Ullman), autora do livro pioneiro "The Feminine Mystique".

Projetando reconhecimento, ressentimento e pesar, "Mrs. America" narra a história e as razões que irão frustrar os seus ideais, pois o desmoronamento da ERA [Equals Right Amendment] será vaticinado às custas da maior ativista da oposição: Phyllis Schlafly, a fundadora do movimento STOP ERA.

Ela é a figura central do primeiro episódio, "Phyllis", onde através de uma sorridente Cate Blanchett, régia e de olhar impenetrável, vemos o crescendo das suas posições anti-feministas. Não deixa e ser curioso que apesar de subjugada por homens poderosos em reuniões onde era a autoridade em determinada matéria, Phyllis Schlafly pretendia poder e a oportunidade apresentou-se.

No segundo episódio, saltamos para o outro lado da barricada e acompanhamos o mundo de "Gloria" Steinem, enquanto esta procura afastar-se dos avanços de Bella Abzug, que pretende tornar-se uma voz no jogo político.

Neste ponto, a responsabilidade de "Mrs. America" enquanto lição de história torna-se mais evidente, com um caráter denso e explicativo, onde mais do que vivermos as forças e fragilidades das mulheres apoiantes da ERA, vamos assistindo à exposição da agenda feminista e da estratégia política para inspirar os eleitores e os legisladores a votarem “SIM”.

Já "Shirley", o terceiro episódio, compõe uma aula de discussão da raça em relação ao feminismo, à identidade pessoal e ao panorama político, seguindo a campanha presidencial da ativista negra Shirley Chisholm, detalhando os movimentos de bastidores da Convenção Nacional Democrática de 1972, onde foi pressionada a libertar os seus delegados para o candidato George McGovern, que acabaria derrotado nas eleições por Richard Nixon.

Intersecionando a psicologia e o ativismo, a manipulação e as ilusões egocêntricas de cada uma das envolvidas, "Mrs America" cria drama e lutas internas entre figuras vibrantes.

Discorrendo sobre vários tipos de pensamentos, atitudes e vivências sobre o ser-se mulher, cada episódio ajudam a revelar como os interesses individuais podem degradar o nível de decência e acabarão por prejudicar a missão.

Estreada a 18 de Abril na HBO Portugal, com três episódios disponibilizados, é certo que "Mrs. America" irá oferecer uma viagem intrigante ao passado, em modo de estudo de personagem e ensaio feminista.

4/5

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