Uma académica japonesa defendeu que os príncipes não estão a fazer um gesto romântico ao beijarem as heroínas dos populares contos de fadas como "A Bela Adormecida" e "Branca de Neve e os Sete Anões".

Para Kazua Muta, eles estão, na verdade, a cometer "atos sexuais obscenos quase compulsivos num parceiro inconsciente", uma imagem que é perpetuada pelos filmes da Disney.

A docente de  Estudos de Género e Sociologia da Universidade de Osaka, autora ainda de um livro sobre assédio sexual no local de emprego, partilhou em dezembro na sua rede social a ligação para a notícia de um homem preso por beijar uma mulher a dormir num comboio.

"Quando se pensa racionalmente sobre 'Branca de Neve' e 'A Bela Adormecida', que falam de uma 'princesa a ser despertada pelo beijo de um príncipe', estão a descrever agressão sexual a uma pessoa inconsciente", escreveu a acompanhar a ligação.

O comentário gerou algumas reações de apoio ("Não se pode andar por aí a beijar pessoas inconscientes; o facto de que acordaram não é essencial") e mais de crítica ("Não se pode aplicar as leias modernas ou éticas aos contos de fadas", "Se podemos aplicar as leis do mundo real à ficção, o contrário também se pode aplicar").

Após a controvérsia ter chegado à comunicação social japonesa, Kazua Muta escreveu um artigo a desenvolver o seu ponto de vista: se alguém não olha para os contos de fadas de uma perspetiva crítica, essencialmente estão a dizer que o assédio sexual é aceitável.

"Existiram muitas respostas críticas que defendem que 'uma vez que a princesa e o príncipe viveram felizes para sempre no fim, existe um consentimento presumível em relação ao beijo, portanto não há problema'. No entanto, este entendimento disso é na verdade perigoso. Este tipo de mentalidade fabrica a noção de que 'os fins justificam os meios' e até que ponto isto permite a ocorrência de violência sexual?", questiona a académica.

Aos que defendem que "este tipo de desmantelamento da nossa cultura e tradições causa mais mal que bem", ela argumenta ainda que além das versões da Disney e mesmo dentro dos contos de fadas japoneses, a figura masculina beija "sem consentimento expresso", portanto estão na realidade a cometer crimes sexuais.

Defende ainda que vários destes crimes parecem "imitar" as ações das personagens masculinas nesses contos e associou isso à hashtag #MeToo do movimento contra os assédios que se tornou especialmente relevante em Hollywood nos últimos meses.

"Sob tais circunstâncias, mudar o reconhecimento do que é violência sexual por parte da sociedade não é uma coisa fácil de fazer. No entanto, devemos dizer estas coisas de forma audível e corajosa", defendeu.

Em novembro, Sarah Hall, uma mãe inglesa também se tornou notícia ao apelar para que o livro "A Bela Adormecida" fosse retirado do currículo da escola primária do seu filho por causa da sua "mensagem sexual inapropriada", uma vez que a história ensinava às crianças que eram aceitável beijar uma mulher que não está consciente.

"Acho que é uma questão específica de comportamento sexual e consentimento na história de 'A Bela Adormecida'. É sobre dizer: isto ainda é relevante, é apropriado?", explicou ao Newcastle Chronicle.

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