Numa altura onde o cinema dito comercial é feito com mil e um efeitos especiais e batalhas épicas com sangue na guelra, eis que surge um exercício de austeridade intitulado «A Vingança de Michael Kohlhaas».

Baseado no romance «Michael Kohlhaas: O Rebelde de Heinrich von Kleist», uma alegoria anti-napoleónica inspirada em factos verídicos desenrolados no atual território da Alemanha no século XVIII, aqui a história é transportada para França no século XVI e a luta de princípios contra a corrupção instaurada pela monarquia.

Um criador de cavalos e burguês injustiçado, Michael Kohlhaas (Mads Mikkelsen) abandona os ensinamentos da Bíblia e procura justiça a todo o custo colocando a sua família e os seus bens em risco. Na sua demanda reúne um exército impelido por um levantamento popular.

A interpretação de Mads Mikkelsen («Hannibal») é lacónica, tal como este filme, levando o espectador a descodificar os poucos sentimentos que residem numa raiva invisível. A produção empurra-nos para uma reflexão existencial sobre as desigualdades sociais do mundo contemporâneo povoado por um sentimento de opressão e alta corrupção que passa muitas vezes imune a todo tipo de Justiça.

A realização contemplativa de Arnaud des Pallières utiliza uma montagem perspicaz para esconder os poucos recursos, mas neste processo de emagrecimento estilístico perde-se envolvimento e dimensão de outros personagens.

«A Vingança de Michael Kohlhaas» é um objecto niilista e contra a corrente indicado para um público apreciador de cadências mais lentas.
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JORGE PINTO

REVISTA METROPOLIS