Uma nova regra do Festival de Cannes feita à medida da Netflix levou a empresa de streaming a optar por não submeter filmes à edição deste ano, informou Ted Sarandos, diretor de conteúdos numa entrevista à Variety.

O Festival, que anuncia sua seleção esta quinta-feira, determinou a exclusão da secção competitiva, que concorre à Palma de Ouro, de todos os filmes que não sejam exibidos nos cinemas franceses.

"Queremos que os nossos filmes estejam em pé de igualdade com os demais. Se existe o risco dos nossos filmes e cineastas receberem um tratamento desrespeitoso no festival (...) acredito que é melhor não estarmos lá", referiu Sarandos, que acusa o festival de preferir "celebrar a distribuição em vez da arte do cinema" com a nova regra.

Entre os filmes que potencialmente ficam de fora estão "Roma", de Alfonso Cuaron, "Hold the Dark", realizado por Jeremy Saulnier, e "Outlaw King", de David Mackenzie. Na secção de clássicos certamente caberia a exibição de "The Other Side of the Wind", o filme que Orson Welles nunca terminou antes da sua morte em 1985, algo que a Netflix fez.

No ano passado, a Netflix optou por não distribuir para os cinemas o seu filme "Okja" para não retardar a exibição entre seus assinantes, que esteve na corrida à Palma, o que gerou polémica. Também concorreu com "The Meyerowitz Stories", de Noah Baumbach.

A lei francesa determina que após a estreia nos cinemas, um filme deve aguardar quatro meses para ser lançado em DVD ou no sistema OnDemand. Depois de 10 meses pode ser exibido na TV aberta e após 36 meses em qualquer serviço 'streaming', como o da Netflix.

A Netflix não descarta exibir os seus filmes nos cinemas franceses, mas rejeita esperar três anos para tê-los na sua plataforma.

"Esperamos que [Cannes] mude as regras, se modernize [...]. Propomos que Cannes se reúna com a comunidade mundial do cinema", explicitou o mesmo responsável da empresa, que indicou que terá representantes no festival para potencialmente comprar títulos.

Vale a pena recordar que a entrada da Netflix no circuito de cinema abrindo os cordões à bolsa está no centro de um grande debate.

"Mudbound - As Lamas do Mississípi" era um filme da plataforma e foi o caso de maior sucesso na última edição dos Óscares, conseguindo quatro nomeações, incluindo a de Melhor Atriz Secundária para Mary J. Blige.

No entanto, Steven Spielberg defendeu durante uma entrevista à ITV News que este tipo de produções nem sequer deviam concorrer a esses prémios.

Para o realizador, o serviço de streaming aproveita-se de um pormenor técnico: a regra da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de que os filmes têm de estar numa sala de cinema no condado de Los Angeles durante uma semana para se qualificarem. E garante que a facilidade de lançar um filme na Netflix vai prejudicar o próprio cinema no futuro.

"Menos e menos realizadores vão ter de lutar para conseguir o dinheiro ou competir em [festival de cinema] Sundance ou conseguir uma daquelas divisões especializadas dos estúdios para lançar os seus filmes nas salas de cinema", explicou.

Spielberg acrescenta que os realizadores vão ser atraídos para serviços de streaming como a Netflix porque poderá ser um caminho parcialmente mais fácil para ganhar prémios, outro estratagema com o qual não concorda.

"Mais e mais deles vão deixar o negócio dos serviços de streaming financiar os seus filmes, talvez com a promessa de uma pequena janela de uma semana nas salas de cinema para se qualificarem para os prémios. Mas, na verdade, a partir do momento em que se comprometem com um formato televisivo, são um telefilme", salientou.

Os bons filmes da Netflix, concluia, "merecem um Emmy, mas não um Óscar."

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