A programação completa da 28.ª edição do Curtas de Vila do Conde, hoje (18) anunciada, contempla 261 filmes, exibidos entre 03 e 11 de outubro naquela cidade do distrito do Porto, mas também no Porto, em Lisboa, Faro e via 'streaming'.

Com dezenas de estreias nacionais e algumas estreias mundiais, o Curtas regressa com sessões no Teatro de Vila do Conde, ao qual se juntam o Cinema Trindade (Porto), o Cinema Ideal (Lisboa) e o Auditório do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ, em Faro), além de um serviço de 'streaming', pago, que abrangerá cerca de 150 dos filmes selecionados.

A projeção de uma primeira versão de "O Sentido da Vida", de Miguel Gonçalves Mendes, o cinema de mulheres como Kelly Reichardt, Cláudia Varejão e Filipa César, os novos de Rodrigo Areias e do brasileiro João Paulo Miranda, um programa dedicado a obras menos conhecidas de Jean-Luc Godard, o resgate de "O Recado", de José Fonseca e Costa, o filme que ousou mostrar o pior da PIDE, quatro anos antes de Abril, e as competições nacional e internacional a colocarem-se entre "as mais fortes nos últimos anos", segundo a direção, são apenas algumas das propostas destacadas pela organização.

O diretor, Nuno Rodrigues, sublinha a necessidade que o Curtas sentiu de "defender o festival em sala", mesmo tendo em conta as limitações impostas pela pandemia de covid-19, com o festival a passar de julho para outubro.

Com metade do público em sala e sessões mais espaçadas no tempo, para permitir a higienização dos espaços, este é um ano diferente dos outros, afiança, mas também pelas "novas possibilidades" que a pandemia abriu. "Num ano especial, vamos fazer um festival especial", atira à Lusa o diretor.

Continua a apostar num "dos pontos mais fortes do Curtas, a competição nacional", este ano com 17 filmes a concurso, que circulará, após as sessões em Vila do Conde, por outras três cidades, permitindo uma maior apresentação das obras.

"A programação desenvolveu-se com algumas vantagens. A nacional e internacional serão, se não a mais forte, duas das mais fortes nos últimos anos. Com mais tempo, surgiram mais filmes", admite Nuno Rodrigues.

Nessa conjuntura "extremamente benéfica", que levou a um "ano extremamente feliz" em termos de programação, cabem obras de nomes como Nuno Baltazar ("Salto"), Denise Fernandes ("Nha Mila") ou Sandro Aguilar ("Amour"), na competição nacional.

Cinema internacional e ainda "O Recado"

Na competição internacional, pontuam obras como "Mi Piel, Luminosa", de Nicolás Pereda e Gabino Rodríguez, "Nina", de Hristo Simeonov, e "Stump The Guesser", de Guy Maddin, além de novos títulos de Pham Ngoc Lân, Jacqueline Lentzou e Carmen Leroi, enquanto a secção competitiva experimental traz trabalhos de Lúcia Prancha, Ben Russell, Salomé Lamas, Rosa Barba ou Luke Fowler.

Já anunciados estavam o artista em destaque, o espanhol Isaki Lacuesta, com quatro obras e uma exposição, e o ciclo New Voices, dedicado a três realizadoras jovens: Ana Maria Gomes, a panamiana Ana Elena Tejera, que rodou um filme entre o Panamá e as Caxinas, em Vila do Conde, e Elena López Riera, que venceu um prémio no Curtas de 2019.

"São cineastas que trabalham entre a ficção e o documentário, embora com características diferentes", entre o cinema de cada uma, destaca Nuno Rodrigues, que lembra a "grande diversidade" de temas da programação como um todo.

Com a norte-americana Kelly Reichardt, que apresenta a longa "First Cow", à cabeça, mas também nomes como Cláudia Varejão ou Filipa César, o cinema no feminino tem um espaço demarcado no festival, até porque "começa a afirmar-se cada vez mais" na cena internacional.

Assim, o corpo de 261 filmes surge de uma mistura entre "realizadores muito novos e mais desconhecidos" até outros mais famosos, como o ucraniano Sergei Loznitsa, que apresenta "A Night At The Opera" em competição, ou o iraniano Jafar Panahi, que traz "Hidden", mas também Reichardt ou Filipa César.

No Cinema Revisitado, há "One Week", uma curta-metragem centenária de Buster Keaton que "está sempre nas listas das melhores curtas da história do cinema", mas destaca-se também a "habitual cooperação" com a Cinemateca Portuguesa, da qual sai a exibição da cópia restaurada de "O Recado", de José Fonseca e Costa, um "filme marcante de toda a história do cinema português" e da afirmação do Cinema Novo, em particular.

Com data de 1970, rodado em plena ditadura, a quatro anos do 25 de Abril, "O Recado" é a primeira longa-metragem de Fonseca e Costa e coloca em cena a ação da PIDE, a polícia política do Estado Novo.

"Este filme ousou encenar a PIDE a liquidar um resistente, ousou ser frontal e ardiloso", escreveu o historiador e crítico Jorge Leitão Ramos, no "Dicionário do Cinema Português", definindo "O Recado" como "o retrato firme, crispado e triste de uma geração".

Protagonizado por Maria Cabral e José Viana, "O Recado" foi estreado no festival de Sanremo, em Itália, onde recebeu uma menção honrosa, em 1971, dando origem a mostras do novo cinema português e dos seus criadores, em várias cidades europeias, nos anos seguintes.

"Este ano, há um foco muito especial, o programa especialíssimo dedicado a Jean-Luc Godard, por Nicole Brenez. (...) São pequenas joias quase desconhecidas, um lado diferente" do cineasta francês, diz Nuno Rodrigues, sobre um programa que junta 'trailers', anúncios, filmes de publicidade e videoclipes de um dos 'mestres' da Nouvelle Vague.

Na programação destaca-se igualmente a apresentação de uma primeira versão de "O Sentido da Vida", de Miguel Gonçalves Mendes, um trabalho que tem andado a filmar por todo o mundo, ao longo dos últimos cinco anos.

O Curtas inclui também "Vencidos da Vida", de Rodrigo Areias, e vários filmes do brasileiro João Paulo Miranda, incluíndo desde logo o escolhido para a abertura, "Casa das Antiguidades", que foi selecionado para o festival de Cannes 2020.

Filmes como "O Cordeiro de Deus", de David Vicente Pinheiro, ou "Meine Liebe", de Clara Jost - recém-premiado no festival IndieLisboa, como melhor 'curta' nacional -, têm destaque nas várias secções Panorama, assim como obras de realizadores romenos e polacos, primeiras obras de alunos das escolas de cinema nacionais e uma "carta branca" dada ao cineasta francês Frank Beauvais.

O Curtas abarca ainda uma secção de filmes para crianças e exposições na Solar - Galeria de Arte Cinemática, que terá a primeira mostra de Lacuesta em Portugal.

Menos desenvolvida este ano em função das particularidades de eventos presenciais, a secção Stereo traz, ainda assim, "Ganche", um filme rodado nas montanhas da ilha da Madeira e no Atlântico, por Pedro Maia, com o músico Paulo Furtado a apresentar música original ao vivo, ao lado da narração de Íris Cayatte.

Na secção musical, volta a competição de videoclipes e sublinha-se a exibição de alguns documentários, como "A Vida Dura Muito Pouco - Celebrando a obra de José Pinhal", de Dinis Leal Machado, ou o 'falso' documentário, uma ficção humorística intitulada "Ricardo", que segue uma personagem em palco com a banda Sensible Soccers, de Luís Sobreiro.

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