Por Roni Nunes, em Berlim

Pode dizer-se que a passagem dos portugueses pelo Festival de Berlim, a maior de sempre, acabou bem – não só pelo inesperado triunfo da jovem Leonor Teles no âmbito das curtas-metragens com o Urso de Ouro por "Balada de um Batráquio".

Conversando com os envolvidos durante o festival, no entanto, o SAPO MAG descobriu verdadeiras epopeias que fazem com que apenas a chegada ao festival já tenha sido um enorme triunfo.

Ivo M. Ferreira: “Somos sempre o lixo, sempre os últimos”

Com Ricardo Pereira, Margarida Vila-Nova e Miguel Nunes, “Cartas da Guerra” foi a única longa-metragem portuguesa em competição e o seu realizador, Ivo M. Ferreira, não esquece o que passou ao longo de quatro penosos anos de problemas de financiamento – a que vieram somar-se um sem número de dificuldades nas filmagens.

“Tanta agonia não mata mas mói. É muito romântico falar de perseverança, mas esse lado heroico da forma como se faz cinema em Portugal já me aborrece”, diz.

Enquanto oferecia ao júri da competição um belíssimo devaneio em preto-e-branco sobre o absurdo da guerra colonial, Ivo não esquece as suas próprias batalhas. Em causa o “ano zero” de Passos Coelho, os atrasos do ICA e, consequentemente, as ressalvas dos demais parceiros em investir. “Somos sempre o lixo, sempre os últimos. Espero que após Berlim essa situação da política cultural em Portugal finalmente se regularize”.

Já em relação às filmagens, com quatro semanas particularmente complicadas em Angola (os restantes cenários foram recriados em Alcochete), o cineasta diz apenas: “Nem quero lembrar. Não estou preparado para falar disto ainda”.

Enquanto aguarda o lançamento do filme em Portugal (ainda sem data), Ivo acredita que poderá ser mais atrativo para as mulheres – até pelo apelo romântico evidente da história. Ao mesmo tempo que não é um filme de guerra, aborda com algumas cenas realistas os dramas dos soldados metidos num conflito sem sentido. “Sempre me fascinou como um país com dez milhões de habitantes resolva usar 1 em cada 100 pessoas para a guerra”.

O realizador atira-se agora ao seu novo projeto, cujas filmagens começam ainda em 2016. Interessado em outras paragens, “Hotel Império” debruça-se sobre um período histórico de Macau – focando na destruição do património histórico e arquitetónico da antiga colónia portuguesa.

Uma aventura nos Andes: “Houve um momento em que pensei que ia desistir”

Dificuldades também para Salomé Lamas, que ousou embrenhar-se com uma equipa de filmagem pela cidade mais alta do mundo durante cinco semanas para compor o seu “Eldorado XXI”, apresentado na secção Fórum.

O que enfrentou foram problemas de toda a ordem – como as temperaturas muito baixas e as doenças na equipa, mas também a falta de segurança crónica, que os obrigava a fazer longos trajetos para, depois das filmagens, abrigarem-se numa cidade mais segura.

As tensões foram enormes e, em pelo menos uma ocasião, ela pensou que não iria existir filme, que teriam de desistir. Mas “Eldorado XXI” sobreviveu e chegou a Berlim, retratando através de ousadias estilísticas a vida de uma terra de ninguém absoluta.

E agora uma equipa com… quatro integrantes

Bem distante destes problemas estiveram os muito jovens realizadores Sérgio da Costa e Maya Koza que, residentes na Suíça, moveram-se para Portugal em busca de inspiração para o seu Rio Corgo, vencedor de dois prémios no Doclisboa.

Com uma equipa composta por apenas quatro pessoas, eles seguiram as perambulações do seu protagonista no interior português e, como registos de problemas, ficaram apenas as oscilações de humor do seu protagonista-andarilho, um homem marcado também por alguns internamentos em instituições psiquiátricas. O feito de chegar a Berlinale, no entanto, é notável e eles comemoraram estar numa mostra ao lado de artistas consagrados que admiram, como Wang Bing.

Portugal Film: a vitória do cinema de autor

Já a Portugal Film pode comemorar o facto de ter indicado três curtas-metragens que vieram a ser selecionadas pelo Festival de Berlim (duas delas em competição) – entre as quais a vencedora, “Balada de um Batráquio”.

Conforme salientou a sua diretora, Ana Strindberg, o objetivo da instituição, que tem um caráter cultural e apoio do ICA, é garantir através de uma vasta rede de contactos internacionais que pequenas produções independentes consigam ter uma estratégia de distribuição adequada.

Um dos objetivos é investir nos jovens e esse foi o caso do filme de Leonor Teles, o primeiro feito por ela depois de completar o curso, que foi acompanhado desde a pós-produção pela Portugal Film.

A ênfase na 'arthouse' é clara: “Só há cinema de autor em Portugal. São estes os filmes que circulam internacionalmente, aqueles que trazem prestígio para o país”, arremata.

O primeiro a estrear

“Posto Avançado do Progresso”, produção de Paulo Branco, será o primeiro filme a estrear comercialmente – já em março. O filme conta a história de um processo de enlouquecimento na selva, foi dirigido por Hugo Vieira da Silva e protagonizado por Nuno Melo e Ivo Alexandre.

Trailer do filme "Balada de um Batráquio"

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