"Se tu abre uma câmara na periferia, em qualquer lugar, e deixa ela quietinha dez minutos, tu prevê o futuro, porque é na periferia que chega primeiro essa energia, porque as pessoas estão desempregadas, doentes, são párias", afirmou o realizador brasileiro Adirley Queirós, a partir de Brasília.

Adirley Queirós repartiu com a realizadora portuguesa Joana Pimenta a criação e realização de "Mato Seco em Chamas", premiado filme independente brasileiro que se estreia na quinta-feira em Portugal e chegará aos cinemas no Brasil em 2023.

"Mato Seco em Chamas" ficciona uma história protagonizada por mulheres - Léa, Chitara, Andreia, as gasolineiras de Kebradas - que dominam um negócio de extração de petróleo e revenda de combustível, numa favela na periferia de Brasília.

Joana Pimenta e Adirley Queirós dizem ter escrito uma ficção que nunca foi filmada enquanto tal, com o argumento a ocupar um lugar secundário no trabalho de produção e de rodagem, ao longo de 18 meses, com os habitantes de Ceilândia, e perante um contexto social e político em que Lula da Silva estava preso e Jair Bolsonaro tinha acabado de ser eleito presidente do Brasil.

"Mais importante que o guião, é a imersão naquele espaço [em Ceilândia]. Construímos o lote, construímos uma ideia de carro, uma ideia de cidade. Ficámos um ano e meio construindo um imaginário de cidade. [...] Achamos que o filme continua contemporâneo. Há eleições no próximo domingo, parecia impensável que Bolsonaro ganhasse e agora não é assim", sublinhou Joana Pimenta, a partir de Harvard, nos Estados Unidos, onde trabalha.

Apesar de a história da extração de petróleo ser o fio condutor, o filme documenta a vida de três mulheres num contexto social marcado pelo crime, pela pobreza, pela violência policial, pelo culto evangélico e por enormes fragilidades económicas.

"É uma periferia inteira que sistematicamente é enviada para o presídio e perde o direito de voto, que também é removida de um processo de escolha política. Todas essas questões que estão no filme continuam bastante contemporâneas e atuais. É muito importante que o filme lide com isso", afirmou a realizadora portuguesa.

Adirley Queirós diz que filmaram uma das três nações que coexistem no Brasil: "Há três nações: A nação da extrema-direita, a nação progressista intelectual e o mundo paralelo que é a periferia".

Sobre a segunda volta das eleições presidenciais no Brasil, marcadas para domingo, o realizador brasileiro antevê um tumulto.

"Se o Lula ganhar, Bolsonaro vai acusar de fraude. Se o Bolsonaro ganhar, o país entra numa catástrofe sem precedentes. Vai ser um horror em todos os sentidos. Essa divisão vai durar muito tempo, vinte, 25 anos. [...] O Bolsonaro é só a ponta de lança. Ele representa o que há de mais perverso na elite brasileira económica", disse.

Joana Pimenta e Adirley Queirós conheceram-se num festival de cinema na Argentina e trabalharam juntos no filme anterior do realizador, "Era uma vez Brasília" (2017).

Depois de "Mato Seco em Chamas", coproduzido entre Portugal e Brasil e que teve estreia mundial no festival de cinema de Berlim, os dois realizadores vão voltar a colaborar em projetos a rodar em Ceilândia.

Joana Pimenta tem em fase de pesquisa um filme sobre "as viagens que mapearam o território brasileiro" e Adirley Queirós está a filmar uma adaptação livre do romance "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa.

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