'Ninguém neste meio se entende, mas este meio não faz falta a ninguém'.

Esta constatação de João Monteiro surge em jeito de conclusão após a reflexão sobre os mais de 40 anos de história do cinema português que perpassam pelo seu “Interstícios da Realidade – o Cinema de António de Macedo”, que encerrou o Doclisboa.

Dada a variedade e a qualidade dos depoimentos o filme termina por ser mais, no entanto, do que o resgate da penumbra de Macedo, o seu propósito explícito. Por outras palavras, João Monteiro regista o surgimento das fações do cenário luso – onde godardianos e não-godardianos confrontavam-se por um lugar ao sol no panorama intelectual dos anos 60.

Assim, António-Pedro Vasconcelos, Fernando Lopes, Alberto Seixa Santos, José Fonseca e Costa e António Cunha Telles, entre outros, contam a própria história de uma arte que ainda hoje sofre para comunicar com o público nacional – e, quando o faz, é à triste maneira das comédias televisivas.

'É um processo de destruição que vem desde a Segunda Guerra Mundial, foi-se perdendo esse gosto de se ver cinema português quando os americanos entraram em força.' O realizador de “Interstícios da Realidade” apenas faz eco do que toda a gente sabe: 'No cinema português é o ‘yin’ e o ‘yang’ – entre filmes comerciais televisivos e nomes prestigiados nos grandes eventos internacionais. Esta guerra de guerrilha nunca vai acabar'.

Neste sentido, a narrativa da carreira de António de Macedo conforme construída pelo documentário mostra a tentativa de se fazer cinema de género e a relutância com que isto foi tratado ao longo das décadas pelos opositores desta procura.

SETE BALAS NA ELITE INTELECTUAL
As ruturas começaram nos anos 60, quando o Cinema Novo português logrou ter qualidade sem público. António de Macedo, por seu lado, tentou fazer cinema de género numa altura em que a intelectualidade estava mergulhada nos pressupostos estéticos da 'Nouvelle Vague' [Nova Vaga] e do Neorealismo – correntes em algum ponto conectadas com a militância política de esquerda.

'Macedo sempre teve uma tendência ‘suicida’ em termos cinematográficos. Assistindo-se a ‘Sete Balas para Selma´ [a sua segunda longa-metragem, de 1967] fico com a sensação que ele fez de propósito, para separar logo as águas e cortar o mal pela raiz. Ele sempre foi avesso a clubes', diz João Monteiro.

De facto, a proposta desta produção de Cunha Telles que, com este filme, iria de vez à falência após outros três falhanços nas bilheteiras, beira o inacreditável. Afinal, quem se lembraria de filmar cá um enredo de ação em ritmo de paródia dos filmes de agentes secretos, situando o seu enredo nos confins da província lusitana? Entre mortos e feridos nesta intriga internacional no campo, ninguém compreendeu.

MÁS COMPANHIAS E FILMES NO PORTA-BAGAGEM
Para Monteiro, “Sete Balas para Selma” forneceu boa munição para quem já olhava o realizador de lado – primeiro por ele manter a amizade com alguns cineastas que trabalharam no regime de Salazar.

'Não caía bem, até porque ele era um autodidata completo – diferente dos outros, que puderam estudar fora', diz.

Mas a coisa piorou quando, ironicamente (e a façanha repetir-se-ia nos anos 70), acabou por ser ele, com o seu filme de estreia, “Domingo à Tarde” (1962), a tornar-se o único cineasta do Cinema Novo a chegar ao Festival de Veneza – na altura o mais prestigiado do mundo. 'Gerou-se aquele tipo de inveja muito português', avalia Monteiro.

Corria o ano de 1962 e o diretor do evento, comunista convicto nestes tempos de ideologias, recusava-se a aceitar candidaturas de obras vindas de países fascistas. Mas Cunha Telles, carregando o filme com Isabel de Castro e Ruy de Carvalho no elenco clandestinamente no porta-bagagem do carro, conseguiu fazê-lo lá chegar. Para João Monteiro não se fez menos do que justiça: 'Tecnicamente, é o melhor dos três filmes que inauguram o Cinema Novo', diz, comparando-o com “Verdes Anos”, de Paulo Rocha e “Belarmino”, de Fernando Lopes.

GUERRAS FINANCEIRAS E UTOPIA COOPERATIVA
A política foi outro ponto de discórdia. Ninguém explica melhor do que o próprio Macedo no seu depoimento para o filme: 'Para o Estado fascista eu era comunista. Para os comunistas eu era fascista. E eu era um anarco-místico pois para mim ambos eram totalitários à sua maneira'.

O que não significa que fosse um descrente à moda do pós-modernismo atual. Num depoimento antigo, Macedo fala com entusiasmo da criação do Centro Português de Cinema (CPC), visto por ele como uma forma utópica dos artistas trabalharem em cooperativa. A ligação da entidade à Fundação Gulbenkian manteve os dissidentes unidos – e quase todos os cineastas importantes da época, incluindo Manoel de Oliveira e João César Monteiro, fizeram filmes entre 1972 e 1974.

'Eles faziam votação e distribuíam entre si o dinheiro. Mas era uma paz armada. Depois do 25 de Abril começaram a guerra pelos subsídios, fazendo vítimas. Macedo foi uma delas e isso não é uma teoria da conspiração', assinala Monteiro.

A IMAGEM QUE FALTA: TERÁ EXISTIDO UMA AVENTURA EM CANNES?
Foi novamente o marginalizado António de Macedo a alcançar outro triunfo inesperado – um Festival de Cannes já em larga ascensão desde o maio de 68.

"Portugal não preenchia o requisito de quotas para inscrever filmes. 'A Promessa' era uma coprodução com a Espanha e como eles não tinham filmes enviaram este. E foi selecionado para a competição principal!'

Como um bom exemplo destas vicissitudes do cinema português, na sua investigação Monteiro não conseguiu encontrar uma única foto do realizador e da sua equipa em Cannes. Já para revista 'O Cinéfilo', editada por António-Pedro Vasconcelos e Fernando Lopes, numa crítica que mereceu um 'mea culpa' do primeiro em “Interstícios”, “A Promessa” era um filme terrível.

O teor da missiva espanta Monteiro: 'A maior crítica que faziam era pelo facto do filme lembrar Sergio Leone e Sam Peckinpah! Imagina se o mesmo argumento fosse hoje usado para o cinema de Tarantino…'

TRIP PSICADÉLICA

É também desta época “O Princípio da Sabedoria” (1975), o filme com Guida Maria, Sinde Filipe e Carmen Dolores que fez João Monteiro, então nas suas funções no Motelx, enveredar pelo passado para descobrir 'quem era aquele velhinho simpático' por trás de um filme que ele descreve como 'uma viagem psicadélica de três horas que lembrava Jodorowski e era um grande filme!'

VERDADES E MENTIRAS
Não consta que António de Macedo tenha feito uma comédia explícita, mas Monteiro acredita que ele foi mais longe do que o clássico “A Vida de Brian” (1979), dos Monty Python, na sua impressionante iconoclastia que derrubava impiedosamente os mitos da Verdade Revelada cristã.

Baseada numa peça de teatro com apenas três personagens e recriando cenários 'romanos' na Costa da Caparica, “As Horas de Maria” (1979) era inspirado nos achados do Manuscrito do Mar Morto para criar uma versão apócrifa da história de Maria.

Certamente o escândalo foi grande: as nuvens revolucionárias do 25 de abril já se curvavam à Direita quando, fora de tempo e com três anos de atraso, sai no circuito comercial. Mas como tantas vezes acontece, com os protestos, as agressões a membros da equipa na antestreia e o envolvimento de padres numa campanha de difamação a partir dos púlpitos, “As Horas de Maria” teve uma ampla campanha de marketing involuntário e atingiu os 100 mil espectadores.

MUITO ALÉM E ADIANTE: A SCI-FI PORTUGUESA
No sistema português, um sucesso comercial não significa ter dinheiro para fazer outro filme e mesmo com os impressionantes números do seu trabalho anterior, Macedo fez apenas mais três longas de ficção nos anos 80.

Com “Os Abismos da Meia-Noite” (1982) e “Os Emissários de Khalom” (1988, foto), a aventura foi na senda da ficção científica. No seu depoimento, o cineasta expôs o seu desejo de que outros realizadores a seguir pegassem no seu exemplo e o explorassem – fazendo, se possível, melhor que ele. Tal nunca aconteceu.

'O problema com esses filmes', analisa Monteiro, 'é que até ficarem bons precisam de uma prática. Quando isso não existe, não há técnicos e ele tentou fazer na lógica do ‘vamos ver o que se consegue’. Apesar de terem envelhecido mal esteticamente, tem uma ambição que surpreende'.

EPÍLOGO: FANTASMAS MAIS VIVOS QUE OS VIVOS
O epitáfio deu-se com uma história gótica baseada nos contos de Karen Blixen 'em que os fantasmas', segundo o realizador de “Interstícios”, 'parecem mais vivos do que os vivos'.

“Chá Preto com Limão” correu muito mal nas bilheteiras e conforme destaca o crítico e historiador Jorge Leitão Ramos, 'quando perdeu o público, Macedo perdeu o seu último suporte'. Como resultado, ele nunca mais recebeu subsídios para desenvolver projetos. Até ao ano passado.

Com isso tudo, António de Macedo foi parar à literatura onde, pelo menos, houve uma pequena cena literária de ficção científica. Na última edição do Motelx, depois de vencer um concurso de finalização do ICA, o cineasta remontou uma antiga série televisiva que havia feito para a RTP em 1991 e apresentou “O Segredo das Pedras Vivas”.