Por Roni Nunes, em Berlim

Esbanjando simpatia e boa disposição, Ricardo Pereira explicou que consegue representar em cinema, teatro e televisão porque costuma "tirar férias regulares e cuidar-se". "Ontem, por exemplo, fui à festa do filme, mas à meia-noite já estava a ir embora”, disse.

O ator falou de “Cartas da Guerra”, dos seus novos projetos e também sobre a sua trajetória, e, pelo meio, teceu diversos elogios ao polaco Andrzej Zulawski que, coincidentemente, veio a falecer dois dias depois desta conversa. Antes disso, o imparável Ricardo já estaria no Brasil, onde vai participar na série da Globo “Liberdade Liberdade”, que aborda a história colonial luso-brasileira no período de Tiradentes e da chegada no país da corte de D. João VI.

Se os projetos cinematográficos ainda são secretos, para setembro atua no Teatro Tivoli, ao lado de Irene Ravache, na peça “Ai meu Deus”.

SAPO MAG (S.M.): Como foi a sua entrada em “Cartas da Guerra”?

Ricardo Pereira (R.P.): Eu já trabalho há vários anos com a Margarida Vila-Nova, que é a narradora do filme e esposa do Ivo. Já o tinha ouvido falar da história muitas vezes. Sou suspeito, sempre gostei muito dos textos do António Lobo-Antunes e achei lindíssima aquela ideia de um homem que estava numa guerra na qual ninguém queria estar e mandava cartas-poemas à sua esposa.

Então um dia o Ivo surpreendeu-me e convidou-me para entrar no filme. Achei estranho, pois ele precisava de atores mais jovens para fazer de soldados, que eram enviados muito novos para lá. Então soube que poderia fazer de Major, o único militar de carreira da história, mais velho e amigo do protagonista.

(S.M.): Mas é um militar que quer abandonar a guerra…

(R.P.): Sim, a determinado momento da história e ele é aquele que mais quer sair da guerra, pois já não se identifica com ela, porque não tem um objetivo, já se perdeu talvez desde a sua origem. Ao mesmo tempo, apesar do filme ser de observação, de momentos, de narração da Margarida, o meu personagem faz uma ponte interessante entra a finalidade da guerra e a vontade dos militares de estarem nelas. Ele era um homem misterioso, que tem saudades da sua vida ordenada, onde a mulher tinha um lugar, a “criadita” outro – enfim, era a sua casa, a sua terra.

(S.M.): Nas entrevistas com atores portugueses nota-se muitas vezes uma certa frustração pelo facto de poderem fazer pouco cinema e, pelo contrário, muita televisão – por razões evidentes. Isso é assim consigo?

(R.P.): Eu tenho 36 anos e, entre longas e curtas-metragens, tenho 28 filmes. Por isso, considero-me um privilegiado. Em 2015 fiz quatro filmes, que incluem um dos mais vistos no Brasil (“Meu Passado me Condena 2”, com Fábio Porchat), “Cosmos”, do Zulawski, que foi premiado em Locarno, e “Amor Impossível”, do António-Pedro Vasconcelos – para além do “Cartas da Guerra”. E para o próximo já tenho em agenda mais quatro – dois brasileiros, um espanhol e um português, sobre os quais ainda não posso adiantar nada.

Por isso não posso reclamar, quando não posso fazer é mesmo por causa de agenda e não pela estabilidade que a televisão proporciona. Já tive de recusar projetos por falta de tempo e depois vi-os estrear, o que é uma pena. Por outro lado, considero a minha vida cinematográfica bastante ativa – já trabalhei com mestres como Raúl Ruiz, Fanny Ardant, o próprio António-Pedro – mais a nova geração do cinema português, como o Ivo.

(S.M.): Como foi trabalhar com o Zulawski?

(R.P.): Foi uma aventura brilhante, é um mestre do cinema, completamente abstrato, filosófico mas, ao mesmo tempo, sabe tanto daquilo que está a fazer… Ele tem um enorme sentido estético, de quadro, de unidade de criação. Eu tenho apanhado pessoas que me têm ensinado muito, mas nunca exercendo aquele ensino de passar muita informação de uma vez. Por vezes são pessoas que não têm uma forma objetiva de comunicar, mas que te dão material para chegar a um lugar sem saber que estás a chegar. Isso é brilhante.

(S.M.): Com tantos trabalhos, consegue tempo para parar?

(R.P.):  Consigo, isso é muito importante! Costumo tirar férias, tenho família e quero estar com eles. E também durmo muito bem. Ainda ontem tínhamos a festa do filme e fui deitar-me à meia-noite e só acordei hoje às 9h. Ao mesmo tempo tenho que ter tudo agendado porque trabalho em vários lugares, mas tenho pessoas que fazem isso muito bem por mim.

(S.M.):  É a sua primeira Berlinale?

(R.P.):  Sim, é a primeira vez que venho a Berlim. Pelo facto de ter vindo a trabalhar com realizadores de referência tenho tido a hipótese de ir a vários festivais – já estive em Cannes, San Sebastián, Veneza. Mas ainda me faltam alguns – não pude ir a Locarno quando “Cosmos” foi premiado e ainda quero estar em Sundance… e nos Óscares. Com a minha idade não me posso queixar, as portas do mercado internacional aos poucos vão se abrindo. Não quero cingir-me a um lugar, a um tipo de obra, a um estilo, quero passar por todos eles.

(S.M.): Portugal está a ter uma boa participação aqui.

(R.P.): Em Portugal tem surgido uma nova geração de talentos maravilhosos que faz com que, obviamente, o nosso cinema prolifere. Ao longo dos anos penso que ainda vamos nos fortalecer em quantidade e qualidade. Tem-se vindo a fazer um caminho, embora os incentivos tenham que aumentar.

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