O terceiro dia da edição 2012 do festival Paredes de Coura foi marcado por inaugurações e pelos retornos às margens do rio Coura. Estrearam-se, no que a esta edição diz respeito, dois palcos - um pequeno, junto à praia fluvial, e o principal, por onde vão passar os nomes maiores do certame minhoto - e assistiu-se ao regresso de bandas como dEUS e The Temper Trap ao local onde já foram muito felizes, em anos passados. Também o bom tempo voltou, após alguns chuviscos matinais, ao anfiteatro natural mais badalado de Portugal, e para ficar - espera-se. Adeus impermeáveis, adeus lama, adeus galochas!

Quando os Glauco inauguraram o palco jazz, já mais de uma centena de pessoas os aguardava na relva, cumprindo os vários chapéus-de-sol espalhados pelo recinto dois propósitos distintos: a proteção do sol e da sempre eventual chuva. Afinal, estamos no Minho! Sucederam-lhes em palco os dois vencedores do concurso organizado em parceria com o "JN" - os Elektra Zagreb e A Beta Movement.

Às 18h00, subiu ao palco Willis Earl Beal, diretamente de Chicago. O cantor, de aspeto durão - calças de ganga justas, palito no canto da boca, luvas de cabedal, óculos escuros, andar altivo - revela um vozeirão, que não teme em exibir, em contraste com uma expressividade profunda, que tão bem nos transmite os mais óbvios sentimentos de abandono e solidão. A forma como a sua face se distorce demonstra uma sinceridade rara na longa tradição blues-soul. Em palco, carrega uma bandeira, que ora enverga como uma capa de toureiro, de pé numa cadeira, ora como uma viúva, cobrindo o seu corpo curvado, onde pode ler-se "Nobody" - palavra que também surge escrita na t-shirt negra que veste.

A inaugurar o palco principal estiveram os irmãos Kitty, Daisy and Lewis. O trio fez-se acompanhar por mais alguns músicos, sempre mantendo o estilo retro que os caracteriza, que tende, por vezes, para o rockabilly, outras para uma espécie de reggae e ska.

Como bons irmãos, partilham todos os brinquedos, trocando de instrumento a par e passo. Todos cantam. No início de Going Up The Country (2008), que continua a ser o estandarte da banda, apesar da idade, Lewis senta-se, pronto para arrancar com a canção, mas o órgão troca-lhe as voltas, começando a tocar uma batida pré-gravada - o que motivou imediato riso entre os presentes, e alguma frustração por parte da banda. A canção em si é um ótimo cartão-de-visita da banda - um dueto entre irmãs, que partilham o microfone, ao mesmo tempo que uma toca harmónica e outra faz uma batida simples numa tarola.

De volta ao palco Vodafone FM: os noruegueses Team Me, que têm despertado interesse tanto dentro como fora do seu país natal, sobem para um palco enfeitado com balões coloridos. O ambiente adequa-se ao espírito alegre da banda, que entra em palco ainda de óculos escuros e, com uma Lomo, aproveita para fotografar a audiência, que responde com ânimo ao indiepop do projeto. Um dos pontos altos do concerto foi o tema Favorite Ghost: começa como uma balada, mas cresce até uma explosão de psicadelismo louco.

Os Midlake subiram ao palco principal perante uma multidão, que optou por um lugar sentado, em detrimento dum lugar de pé, junto ao palco. A banda toca um indiefolk bucólico, completo por uma flauta, inúmeros instrumentos de sopro e ainda um órgão, que se adequa perfeitamente ao espírito contemplativo da audiência, àquela hora. Apresentam-se num português esmerado, aparentemente decorado, que conquista o público, que mostra reconhecer canções como Roscoe.

Enquanto os Midlake conquistavam o público português no palco EDP, no palco secundário surgiram os Dry The River. Comparados, frequentemente, a Mumford and Sons, os britânicos tocam um indiefolk mais indie que folk, e, ao contrário dos Midlake, pedem que a audiência se levante, dance ou, no mínimo, bata o pezinho. Apesar da curta carreira, conseguem atrair bastantes espetadores, a maioria curiosa para assistir ao vivo à interpretação de “Shallow Bed”, disco de estreia. Os aplausos mais fortes fizeram-se ouvir no trecho inicial de New Ceremony.

Já com o sol completamente escondido, os The Temper Trap voltaram ao palco principal de Paredes de Coura. Consigo trouxeram o recente disco homónimo. London's Burning dá o pontapé de saída, logo seguida por Need Your Love, primeiro single do novo álbum.

Generoso em palmas, o público responde com entusiasmo, não só às canções mais antigas do coletivo, como às mais recentes. Love is Lost e Fader fazem recordar o espetáculo de há dois anos, exatamente no mesmo local. Já Trembling Hands obtém uma reação menos calorosa.

Junto ao palco secundário, centenas de fãs agruparam-se para ver Patrick Watson e ficarem a conhecer o disco editado esta primavera, "Adventures in your own backyard". Artista de culto em Portugal, Watson recebe em Paredes de Coura a curiosidade e o reconhecimento dos presentes, que não hesitam em aplaudi-lo canção após canção - o que o deixa visivelmente radiante e o faz saltar com alegria entre o piano, na lateral do palco, e o microfone, bem no centro. E é aqui que, sob a luz de um único holofote, toca Words in the Fire, numa versão muito intimista, acompanhado apenas por guitarra e um instrumento invulgar.

Já no palco EDP, surge Alexis Krauss e os seus Sleigh Bells, num registo totalmente oposto. Defensores do «quanto-mais-alto-melhor» (a distorção é a grande divindade do rock), os Sleigh Bells chocam quem desce do concerto de Watson, com o palco abandonado a seis imponentes amplificadores, aos quais estão ligados os dois guitarrista que a acompanham.

Além de Krauss, que berra, dança e pula, existe ainda espaço para as batidas eletrónicas, com Krauss a assemelhar-se, por instantes, a uma Karen, dos Yeah Yeah Yeahs, mas sob o efeito de esteroides. A dança vira delírio em canções como Thri Shred Guitar, e até o single com relevos pop surge numa versão capaz de fazer salivar os guitarristas do filme "This is Spinal Tap", protagonizado por uma banda de Hair Metal ficcional, cujo guitarrista manda instalar um nível extra no volume dos amplificadores.

A noite prosseguiu com o regresso dos dEUS às margens do rio Coura. Um verdadeiro mar de gente cobriu as colinas do anfiteatro natural para os receber de pé, pela terceira vez em Paredes de Coura, deixando pouca - ou nenhuma - relva livre. A performance dos belgas iniciou-se ao som de The Architect e logo continuou com Constant Now, a receber uma resposta estrondosa do público. Instant Street, uma das mais rodadas da banda nas rádios portuguesas, foi o grande momento do concerto, com o seu final, instrumental, a ser um exemplo do melhor que o grupo tem para oferecer.

Do último disco, "Following Sea", trouxeram, entre outras, Quatre Mains, recebida com atenção, em francês. O espetáculo prosseguiu em modo rock, com picos de sensualidade, oferecidos pela voz de Tom Barman. O carinho do público português foi retribuído música após música.

Aos Digitalism coube a tarefa difícil de suceder ao cabeça de cartaz, ainda com o espaço carregado de fãs da banda belga e com os relógios já a dar horas. Uma dispersão do público era compreensível, mas, surpreendentemente, não foram muitas as pessoas a abandonar o recinto, com os germânicos a conquistaram rapidamente o público com a sua música eletrónica. Com os braços no ar, os presentes celebravam os momentos mais calmos de cada canção, sempre em estado alerta, à espera das explosões contagiantes, que resultavam numa dança a mil pés. Um moche tímido ainda deu o ar da sua graça - algo invulgar nas performances de música eletrónica.

Com os espetáculos encerrados no palco EDP, a festa continuou com Totally Enormous Extinct Dinossaurs e Kavinsky, agora no segundo palco que, mesmo durante os concertos da noite, manteve um número fixo de fãs dos DJs, encostados às grades.

Texto: Henrique Mourão
Fotografias: Iris Rocha (em atualização)

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