O cartoonista Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido pelo pseudónimo "Quino", o criador da emblemática Mafalda, morreu esta quarta-feira aos 88 anos, avançou a imprensa argentina.

As aventuras de Mafalda - a contestatária menina de seis anos fã dos Beatles, defensora da democracia, dos direitos das crianças e da paz e detratora da sopa, das armas, da guerra e do James Bond – foram criadas entre 1964 e 1973, mas as mensagens irónicas sobre a sociedade e em prol de um mundo melhor continuam intemporais.

À primeira vista, Mafalda podia ser uma menina de seis anos, reguila, desafiadora e descarada, mas depressa se percebeu que da sua boca, dos balões que Quino preenchia, saíam comentários mordazes e pertinentes sobre a ordem do mundo, a luta de classes, o capitalismo e o comunismo, mas também, de forma mais subtil, sobre a situação política e social argentina.

Cartoonist Joaquin Salvador Lavado, aka Quino, poses beside a sculpture of his creature Mafalda at the San Francisco park in Oviedo on October 23, 2014  on the eve of the Prince of Asturias awards ceremony. Quino has been awarded the 2014 Prince of Asturias Award for Communication and Humanities. AFP PHOTO/ MIGUEL RIOPA (Photo by Miguel RIOPA / AFP)

Era a Mafalda, a contestatária e insatisfeita, “uma heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é”, descreveu Umberto Eco em 1969, num prefácio a um dos álbuns que Quino dedicou à personagem.

“Olhando para as coisas que fiz todos estes anos, percebo que digo sempre as mesmas coisas e que continuam atuais. É terrível, não?”, referiu Quino, numa entrevista à agência noticiosa espanhola EFE em 2016.

O criador de Mafalda referia-se aos seus “temas de sempre”, como “a morte, a velhice, os médicos e outras coisas”, com os quais pretendeu fazer pensar os seus leitores durante várias décadas.

Questionado se essas histórias e outros temas que se manifestam no mundo atual têm uma solução, Quino revelou descrença: “Conhecendo o género humano, não acho que exista solução”.

Sobre o panorama atual do seu país de origem, a Argentina, Quino admitiu: “Com muita amargura de ver o péssimo nível de tudo. Um estado de espírito que é extensível à pequena Mafalda, segundo o ilustrador.

Uma das última vezes que o artista foi visto em público foi em janeiro de 2015, numa manifestação em Buenos Aires para repudiar o ataque ao semanário satírico francês 'Charlie Hebdo'.

“Mafalda teria uma tristeza terrível pelo atentado”, disse então Quino, que compareceu em cadeira de rodas e com um cartaz que dizia: “Eu sou Charlie”.

EXHIBITION FOR THE 50TH ANNIVERSARY OF MAFALDA IN BUENOS AIRES

Esta quarta-feira, o jornal espanhol El País recorda ainda a resposta de Quino quando lhe perguntaram como seria Mafalda na atualidade. Segundo a publicação, o autor contrapôs que provavelmente essa "menina sábia" estaria morta, porque seria um dos desaparecidos da ditadura militar argentina (1976-1983).

Distinguido ao longo da sua carreira com vários galardões, como a Medalha da Ordem e das Letras de França e o Prémio Príncipe das Astúrias da Comunicação e Humanidades, Quino, reconheceu que gostaria de ser recordado como “alguém que fez pensar as pessoas sobre as coisas que acontecem”.

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