Pedro Barroso morreu na noite de segunda-feira, dia 16 de março, aos 69 anos. A notícia foi confirmada por Nuno Barroso, filho do cantor português. "Lamento informar o falecimento do meu pai António Pedro da silva Chora Barroso", escreveu na sua conta no Facebook.

No passado dia 8 de março o seu filho, Nuno Barroso, deu conta, nas redes sociais, da entrada do músico num hospital de Lisboa, “em fase terminal”.

O artista estava doente há vários anos. “A condição física, após mais um ano de tratamentos médicos, impede-me de tocar; e, mesmo na parte de canto, canso-me ao fim de minutos e, portanto... as coisas são como são...”, disse o músico à Lusa em 2019.

Na sua conta no Facebook, o ator Ruy de Carvalho também confirmou a notícia. "Receber esta notícia foi um duro golpe. Estávamos pouca vezes juntos, mas gostávamos muito um do outro. Até um dia, meu querido amigo. Perdemos um grande artista, um grande ser humano", escreveu o ator nas redes sociais.

Esta terça-feira, depois das 22h00, a Antena 1 vai transmitir o último concerto de Pedro Barroso, que decorreu em dezembro de 2019 no Teatro Virgínia, em Torres Novas, a sua terra adotiva. "Cesso atividade como músico, não me retirando obviamente, nem como homem das ideias, nem das artes, nem das palavras. E da diferença. Não abandono a intervenção crítica, nem a cidadania”, escreveu então.

O músico gravou mais de 30 discos e celebrou 50 anos de carreira em 2019. Cantor de intervenção e defensor da liberdade com temas célebres como "Menina dos Olhos de Água", era apelidado por muitos como o "último trovador português".

Da carreira musical, afirmou guardar "gratas recordações" e ter "um mundo de abraços" pelos muitos que espalhou. Se não tivessem sido as cantigas, disse, "não tinha conhecido mundo".

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O artista atuou por todo o país e deu concertos em Espanha, França, Croácia, Canadá, Estados Unidos, Brasil, Países Baixos, Bélgica, Suécia, Suíça, Luxemburgo, Hungria, Alemanha e China, em 50 anos de carreira.

Foi um dos cantautores revelados pelo Zip-Zip, programa da RTP, em dezembro de 1969. Tinha terminado já as gravações do álbum "Novembro", que assumia ser "a sua despedida das canções".

“É um CD histórico, um duo ibérico e... que vai ser falado. Merece o colo cuidadoso de uma produção sofrida, cuidada e importante. Nunca escrevi tanta corda!... Ter uma canção minha cantada a meias com o Patxi Andión é obviamente uma valorização imensa e o tema é lindíssimo”, disse à Lusa aquando do espetáculo de comemorações dos seus 50 anos de carreira em novembro de 2019.

“A escolha tímbrica e o simbolismo desta geração ibérica de cantores de luta e da sensibilidade diz tudo. Ambos nos estreámos no [programa televisivo] Zip Zip, em 1969. Também aí é histórico”, referiu o cantor, esperançoso na “valorização” deste seu trabalho discográfico.

Um dos trovadores de Abril

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Pedro Barroso com Marinho e Pinto

Cantor de intervenção e defensor da liberdade, Pedro Barroso, nascido em 1950 na vila ribatejana de Riachos, estreou-se muito jovem no Teatro Radiofónico, em 1965, e saltou para a ribalta na sua estreia em televisão, em 1969, no lendário programa “Zip-Zip”, gravando o seu primeiro EP, “Trova-dor”, logo no ano seguinte.

Ao longo de mais de 50 anos de carreira, gravou mais de 30 discos e gravou tambem livros de ficção e poesia.

Autor de canções tão célebres como “Viva quem Canta” e “Menina dos Olhos de Água”, Pedro Barroso realizou ao longo das décadas inúmeros espectaculos, em Portugal e no estrangeiro, actividade que manteve em paralelo não só com um percurso como professor de Educação Física do ensino secundário e de especialista no ensino de crianças surdas-mudas.

Tinha tgambém uma intensa actividade sindical, como dirigente no Sindicato dos Músicos e na Sociedade Portuguesa de Autores.

Pai do também músico Nuno Barroso, recebeu muitas distinções, nomeadamente da Associação 25 Abril, em 2008, e da Sociedade Portuguesa de Autores, de que recebeu a Medalha de Honra em 2017.

"Música bonita com palavras inteligentes"

Em 2009, quando celebrou 40 anos de carreira, em declarações à Lusa Barroso defendeu que a "canção tem que consubstanciar algumas reflexões" e, não rejeitando "o fazedor de chulas" que foi, afirma que "faz música bonita com palavras inteligentes".

Refletindo, na ocasião, sobre a sua carreira, o músico afirmou: "Durante muito tempo fiz coisas que me encomendavam editorialmente, para vender, podia ter ficado por aí, pelo fazedor de chulas populares, mas desde há 20 anos que mudei de rumo".

"Desde então" - prosseguiu - "comecei a fazer o que me dava prazer e tivesse a profundidade que eu desejava".

Na altura, Pedro Barroso prometia “tirar uma licença sabática e talvez editar mais ou dois CD".

"Irei dedicar-me mais ao Pedro Chora, pintor, que é uma outra faceta minha, e ao Pedro Barroso escritor, cantigas, só mais um ou outro disco", acrescentou.

Da carreira musical, afirmou guardar "gratas recordações" e ter "um mundo de abraços" pelos muitos que espalhou, e diz que se não fossem as cantigas "não tinha conhecido mundo".

Amigos e colegas recordam Pedro Barroso, um músico que o país "conheceu mal"

A cantora Simone de Oliveira, que conheceu e colaborou com Pedro Barroso, que morreu hoje, em Lisboa, disse à Lusa, muito emocionada, que a morte do músico é "um desgosto" para si.

"O Pedro foi um homem da palavra e da música que este país, infelizmente, conheceu mal", disse a cantora, salientando a "excecionalidade do trabalho" do cantor e compositor. "Convivi com ele, estivemos para fazer um projeto juntos que fomos adiando devido às nossas vidas", disse a cantora.

O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, também lamentou a morte do músico Pedro Barroso, de quem era amigo, e que recordou como "uma das figuras mais importantes da música popular portuguesa".

"Acabo de ser informado do falecimento de Pedro Barroso, autor, músico e intérprete que conhecia há mais de 50 anos e de quem tive a honra de ser amigo. Pedro Barroso foi, sem dúvida, uma das figuras mais importantes da música popular portuguesa", refere a segunda figura do Estado, numa mensagem de pesar enviada à Lusa.

O presidente da Assembleia da República transmitiu, em seu nome e do parlamento, "o mais sentido pesar e fraterna solidariedade" à família e deixa uma palavra de agradecimento a Pedro Barroso.

"Pela sua atividade enquanto músico de intervenção, e, bem assim, pela defesa intransigente dos direitos dos autores, é enorme a minha gratidão", refere.

Já o fadista João Chora, um dos artistas que gravaram temas de Pedro Barroso, disse que o músico "marca a história da música portuguesa". "Homem muito querido pelos ribatejanos, que deixa uma ternura imensa, como foi visível no concerto de dezembro dos seus 50 anos de carreira", disse.

O músico iniciou-se nas lides musicais em 1969, no programa televisivo "Zip-Zip", de autoria e apresentação de Carlos Cruz, José Fialho Gouveia e Raul Solnado.

"Era um homem muito atencioso e grato aos músicos com quem trabalhava", afirmou Chora, que se referiu a Pedro Barroso como "um homem inteligente e solidário".

Pedro Barroso é autor da letra e música do "Fado Ribatejo", gravado por João Chora em 1999, e que é o seu "cartão de visita", referiu o fadista.

O músico e pintor Pedro Barroso, de 69 anos, morreu hoje de madrugada, num hospital de Lisboa, disse o seu filho à Lusa, o também músico Nuno Barroso.

Pedro Barroso nasceu em Lisboa, em 28 de novembro de 1950, numa família de Riachos, Torres Novas, cidade onde viveu desde a infância e que sempre considerou a sua terra natal.

Intérprete de êxitos como "Menina dos Olhos D’Àgua", celebrou, em dezembro passado, 50 anos de carreira, com um concerto na localidade.

No passado dia 20 de dezembro, na véspera desse derradeiro concerto, escreveu na sua página oficial, na rede social Facebook: “Sim. Corto a 'jaqueta de forcado' amanhã [dia 21], no velho Teatro Virgínia, pelas 21:30 - com testemunho de 600 cúmplices [espectadores]; e quero dizer com isto, que cesso atividade como músico, não me retirando obviamente, nem como homem das ideias, nem das artes, nem das palavras. E da diferença. Não abandono a intervenção crítica, nem a cidadania, pelo menos enquanto o último neurónio mo permitir”.

Pedro Barroso deixou um álbum gravado, "Novembro", a editar "em breve", segundo a discográfica Ovação.

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