“Mutações. The Last Poet” é toda ela uma grande e única obra, da autoria de Joana Escoval, que trabalhou o próprio espaço expositivo – as galerias do Museu Coleção Berardo, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa - como meio.

Trata-se de “uma obra completamente concebida de raiz, que implicou" obras de construção. "Toda a galeria foi construída. É uma peça muito grande. E a sua função é pôr-nos a andar através das peças e confrontar os nossos passos com a perceção que vamos ter”, num fluxo oscilante e sem a linearidade do percurso expositivo habitual, explicou o curador da mostra, Pedro Lapa.

A instalação consiste num espaço contínuo de curvas orgânicas, um corredor de paredes ondulantes, que pretende imprimir ao visitante a ideia de fluidez, à medida que avança, explicou a artista, Joana Escoval.

Ao longo deste corredor e das pequenas bifurcações que o compõem, não existem linhas retas e vão surgindo esculturas feitas de metais – cobre, ouro ou bronze – maioritariamente fios ondulantes que ligam o teto ou chão, ou que se entrelaçam com madeira ou minérios, como rochas feitas de lava.

A galeria que evoca “uma espécie de cobra que, à medida que vamos avançando, vai largando a pele”, vai sendo pontuada por esculturas, vídeos, rochas vulcânicas, sons e fios metálicos “condutores de tensões e energias” que se “encadeiam uns nos outros”.

A ideia que presidiu à criação desta instalação –- que demorou quatro meses a ser concebida, desde o convite até à sua conclusão -– foi a de “tornar o espaço mais líquido”, disse a artista.

Na medida em que a “arquitetura define muito a nossa [humana] presença, quis liquidificar o espaço do museu e pensá-lo como um órgão”, e pensá-lo como “coisas que abraçam, acomodam, que se adaptam, mais do que interrompem, ou barram”, como a arquitetura rígida e geométrica.

“À medida que vamos entrando, há um quebrar da arquitetura e um ir tornando o espaço mais líquido, numa ondulação permanente e não definição de espaço físico e matéria”, afirmou.

Este conceito é o que define o trabalho de Joana Escoval, “a permanente mutação”: “Não vivo bem com a ideia de que as coisas são de uma determinada maneira e não podem mudar, que tudo fica cá para sempre, da mesma forma, sem mutação”.

Por isso mesmo, esta exposição reflete uma ideia de futuro, “em que acabarão as fronteiras entre os animais e os meios vegetal e mineral”, sublinhou Rita Lougares, diretora artística do Museu Coleção Berardo.

Aliás, complementou a artista, “a separação entre nós e a natureza nunca existiu, é um conceito falso, uma barreira intelectual e capitalista. Nós somos a natureza”.

Para Joana Escoval, o seu trabalho tem também uma mensagem política, que é explicada, por exemplo, por uma peça que consiste num fio de ouro ao longo de uma parede, que tem pena de periquito enrolada e um pequeno ramo de árvore agarrado: “é bela e atrativa, mas em situação de estrangulação (da pena) e de interrupção (do crescimento do ramo).

Intitulada “In dream, I often see them destroying the entire forest as they search for it” ("Em sonho, vejo-os frequentemente a destruir a floresta toda à procura dele"), é uma alusão ao problema da extração de metais e à desflorestação da Amazónia, explicou.

As obras em vídeo são três: a imagem de um sol a pôr-se refletida numa parede, acompanhada de uma gravação de sons captados na natureza; uma imagem escura de uma pessoa de cabelo comprido a montar a cavalo, na qual se vê apenas o cabelo, a crina e a cauda de cavalo a oscilarem ao ritmo da corrida do animal, com o som de fundo de uma música soprada num búzio; dois monitores frente a frente, um com os olhos de um felino e o outro com os olhos de um humano, num confronto entre dois seres predadores.

A exposição termina abruptamente, com a galeria ondulante a desembocar na saída, “como se fossemos projetados para o exterior”, afirmou Pedro Lapa, no final, explicando que “não há fim formatado, só quando se chega ao fim é que se percebe”.

Na saída está exposto um cartaz, que é um convite para uma pequena caminhada na Estufa Fria, no dia 13, a seguir à inauguração, durante a qual os participantes entram em contacto com uma escultura da artista, peça esta que, por sua vez, vai adquirindo as mutações naturais do contacto com as mãos humanas e com o exterior.

Esta é, aliás, uma tónica também em toda a mostra e que reflete a ideia de mutação da matéria e de interação entre os elementos da natureza: as peças metálicas, conforme a sua natureza, vão sofrendo a oxidação natural da exposição a que vão estar sujeitas durante o período em que vão estar expostas.

A artista convida os visitantes a voltarem, para verem essas alterações. A exposição está patente até dia 19 de abril.

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