Do cinema à televisão, o prolífico Tiago R. Santos tem escrito alguns dos argumentos portugueses mais elogiados da última década e meia, de sucessos cinematográficos como “Call Girl”, “A Bela e o Paparazzo”, “Os Gatos Não Têm Vertigens” (que lhe valeu os prémios Sophia e SPA para Melhor Argumento), “O Leão da Estrela”, “Índice Médio de Felicidade” ou “Parque Mayer”, participando na escrita de séries como “País Irmão”, “Os Filhos do Rock” e “Conta-me Como Foi”.

O seu mais recente trabalho, a série “O Mundo Não Acaba Assim”, em parceria com quatro colegas de ofício e um sem-número de atores conhecidos, ficará como uma das experiências criativas mais conseguidas dos tempos de confinamento.

As escolhas de Tiago R. Ramos

“O Mundo Não Acaba Assim”

Tiago R. Santos: “A série que me manteve ligado à sanidade durante o Grande Confinamento. Em exibição na RTP, co-criada/escrita/realizada por mim, Artur Ribeiro, Filipe Homem Fonseca, Nuno Duarte e Luís Filipe Borges, será um testamento à necessidade de contar histórias, mesmo quando nem sequer conseguimos sair de casa. Fizemos de tudo em apenas seis episódios - drama, comédia, ação, animação, musicais – com a ajuda de um espantoso grupo de atores. É quase surreal pensar como isto aconteceu. Foi urgente, visceral, imediato."

Onde: Integralmente disponível na RTP Play. Pensado inicialmente como um projeto puramente criativo dos argumentistas Tiago R. Santos, Artur Ribeiro, Filipe Homem Fonseca, Nuno Duarte e Luís Filipe Borges, que fazia uso dos constrangimentos próprios da pandemia ao colocar os diversos intérpretes a comunicarem entre si dentro das suas próprias casas, a série foi criada para as redes sociais com o título “Chamada para a Quarentena" e, com mais de 300.000 visualizações, acabou por dar o salto para a televisão, com o nome de “O Mundo Não Acaba Assim” e exibida em horário nobre na RTP, em seis episódios.

"Fetch the Bolt Cutters"

Tiago R. Santos: “Estava em Nova Iorque na primeira vez que escrevi um guião para uma longa-metragem - entre turnos de restaurante e aulas noturnas – e na altura a minha banda sonora foi “When the Pawn...”, o segundo álbum de Fiona Apple. Corta para quase 20 anos depois e a cantora americana voltou a ser a minha companheira de escrita com “Fetch the Bolt Cutters”. Não há ninguém como ela e o seu novo álbum nada é nada menos do que prodigioso. Algumas letras são facas afiadas, outras monumentos à fragilidade e há sempre um sentido de humor que me faz sorrir nos momentos mais inesperados."

Onde: Disponível no Spotify. Quinto álbum de estúdio da cantautora norte-americana Fiona Apple, lançado já durante a pandemia e considerado por muitos críticos como o melhor da sua carreira.

“Liberdade”

Tiago R. Santos: “O filme do russo Kirill Mikhanovsky, um tremendo talento com alma de nómada – tem três filmes produzidos em três países: Rússia, de onde é natural, Brasil e agora Estados Unidos – é uma mistura entre John Cassavetes, [Emir] Kusturica, Sean Baker e até um bocadinho de [Martin] Scorsese em 'Por Um Fio' (1999). Usando apenas não-atores com o carisma e a naturalidade de veteranos, 'Liberdade' é um filme de excessos, ébrio, frenético, a transbordar de vida, de angústia e alegria e vodka e jarros de conserva impossíveis de abrir e casacos que se rasgam e estranhos que se abraçam e se embebam juntos e canções e acordeões e os mortos que se choram, como países aos quais já não se pode regressar. É maravilhoso.”

Onde: Disponível no MEO Videoclube e na Filmin, estreará no Cinema Ideal a 16 de junho. Terceira longa-metragem do russo Kirill Mikhanovsky, sobre as desventuras de um jovem russo-americano que conduz uma carrinha de transporte de pessoas incapacitadas em Milwaukee, venceu o troféu John Cassavetes na última edição dos Independent Spirit Awards.

“What We Do in the Shadows”

Tiago R. Santos: “Não sei quantas vezes recomendei a amigos e estranhos que vissem 'O Que Fazemos Nas Sombras', um falso documentário da Nova Zelândia, produzido em 2014, sobre um absurdo grupo de vampiros que partilha um apartamento. Quando soube que iam transformar a premissa numa 'sitcom' americana, pensei que a ideia era boa mas iria sempre faltar-lhe o tom e o estilo (ou a ausência de estilo, o que tem ainda mais piada) de Jemaine Clement e Taika Waititi. Engano meu. A série é hilariante, o 'casting' de Matt Berry é um golpe de génio e Colin Robinson, o vampiro que suga a energia das pessoas através do tédio, é uma criação dos infernos."

Onde: Disponível na HBO Portugal. Série televisiva produzida pela FX e criada por Jemaine Clement, que adapta o “mockumentary” de terror de 2014 com o mesmo título escrito e realizado por Clement e Taika Waititi. Atualmente a meio da segunda temporada, a ação centra-se em quatro vampiros que partilham casa em Nova Iorque.

"I Know This Much is True"

Tiago R. Santos: “Adaptação do romance de Wally Lamb, esta série de Derek Cianfrance - com Mark Ruffalo numa extraordinária interpretação como os gémeos Thomas e Dominick – é devastadora. Cianfrance regressa ao imediatismo de 'Blue Valentine', a câmara sempre colada às emoções das personagens, captando o desespero, a solidão e o eterno amor fraterno. Imperdível."

Onde: Disponível na HBO Portugal. Minissérie de seis episódios produzida para a HBO, cuja exibição começou no início de maio, assente na relação conturbada entre dois irmãos gémeos, um deles com esquizofrenia, a partir do romance de Wally Lamb.

"Quanto Tempo Tem Um Dia, Experiências na Maternidade" e "Manual de Sobrevivência de um Escritor"

Tiago R. Santos: “Como ficou claro nos últimos meses - com o Estado e do Ministério da Cultura a abandonarem grande parte do setor cultural que passa por dificuldades – insistir num trabalho criativo no nosso país é um ato de resistência e coragem. Susana Moreira Marques e João Tordo, amigos e escritores de extraordinário talento, lançam dois livros em plena crise, ambos não-ficção, ambos sobre experiências que me tocam na pele, talvez até ambos sobre a mesma angústia: o que é que deixamos quando já cá não estivermos?”

Onde: À venda nas livrarias. “Quanto Tempo Tem um Dia, Experiências na Maternidade”, de Susana Moreira Marques, foi publicado este mês pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, e apresenta as reflexões da autora sobre as vivências com as suas filhas e as histórias que foi ouvindo de outras mães. “Manuel de Sobrevivência de um Escritor”, de João Tordo, foi publicado também este mês pela Companhia das Letras, e apresenta um olhar profundo sobre o ofício de escritor, válido todos aqueles que se interessam pelo mundo da escrita.

“Espero-te Bem”

Tiago R. Santos: “Estreia de 'Espero-te Bem', uma obra performática (não são todas?) que criei de origem para uma plataforma digital de comunicação, convidado pela Gerador no contexto do festival Oeiras Ignição Gerador. Encenada por Carla Chambel, que também faz parte do elenco, acompanhada por Mariana Pacheco, Pedro Laginha e Heitor Lourenço. Correspondências verbais e visuais entre quatro indivíduos. Se os espectadores se divertirem metade do gozo que me deu a escrever, já ficarei muito contente.”

Onde: Estreia a 19 de junho, pelas 20h30, no Palco Gerador, pensada de raiz para a plataforma digital, retrata correspondências verbais e visuais entre quatro indivíduos durante a Grande Crise de Saúde Pública de 2020.

"Gigaton"

Tiago R. Santos: “Como receber a visita de um velho amigo que não víamos há tanto tempo. É aquele abraço que precisamos neste período de confinamento. O 'Black' foi o meu hino durante a adolescência e os Pearl Jam estão comigo desde então. 'Gigaton' são eles a fazerem aquilo que fazem tão bem e, num mundo que vai ficando cada vez mais estranho, esse sentimento de familiaridade não é apenas acolhedor: é fundamental.”

Onde: Disponível no Spotify, edição física também à venda. Décimo primeiro álbum de estúdio da banda norte-americana Pearl Jam, o primeiro em sete anos, lançado no final de março.

“Last Week Tonight”

Tiago R. Santos: “Não é de agora. Já desde 2014 que a primeira coisa a fazer numa segunda-feira de manhã, assim que o café está pronto, é assistir a 'Last Week Tonight', o brilhante programa de John Oliver que nos obriga – com muita piada – a olhar para muitas das coisas que estão erradas com o mundo."

Onde: Disponível na HBO Portugal. Talk-show norte-americano com um olhar satírico à atualidade conduzido pelo humorista britânico John Oliver. Arrancou em abril de 2014 e vai atualmente na sétima temporada, tendo conquistado inúmeros prémios, incluindo 17 Emmys, designadamente o de Melhor Talk Show nos últimos quatro anos.

“Dead Eyes”

Tiago R. Santos: “Connor Ratliff, actor e comediante de moderado sucesso, foi despedido há vinte anos por Tom Hanks, na véspera de participar no quinto Episódio de 'Irmãos de Armas'. Agora, em 2020, faz a reconstituição dos eventos, como se fosse um podcast 'true crime' sobre o evento mais insignificante. Mas, em pleno confinamento, quando todas as notícias são sobre o COVID, é fundamental encontrar um espaço onde se pode falar – e ouvir – sobre tudo o que não é importante.”

Onde: O podcast pode ser ouvido aqui. Ao longo de vários episódios, Connor Ratliff percorre vários eventos da sua vida, recorrendo a diversos convidados, nomeadamente o ator Jon Hamm, para tentar resolver o mistério que o consume há duas décadas: a razão de Tom Hanks o ter despedido de um pequeno papel na série “Irmãos de Armas”, supostamente por ele ter “dead eyes” [olhos sem expressão].

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