Em comunicado, o Teatro da Didascália refere que o cancelamento se fica a dever ao “crescente aumento” de casos de COVID-19 registado nos últimos dias, que conduziu à implementação de medidas mais restritivas pelas autoridades competentes.

A companhia acrescenta que, tendo em conta a “atual indefinição” na evolução da pandemia, está a preparar todos os meios técnicos disponíveis para possibilitar a apresentação daquele espetáculo de forma virtual, nos dias 13 e 15 de novembro, no Palco Online do Gerador (gerador.eu).

“Paisagem Efémera” é um projeto que se centra num processo de pesquisa sobre as diferentes particularidades de Joane, convidando a descobrir a paisagem e a memória desta vila de Famalicão.

“Estamos a trabalhar a partir de um contexto muito local, neste caso sobre a paisagem natural e rural de Joane, mas aproveitamos elementos específicos desta paisagem para debater temas tão globais”, como por exemplo, “as alterações climáticas”, afirmou à Lusa o diretor artístico do projeto.

O nome “Paisagem Efémera” tem a ver com o facto de, “de alguma forma, encararmos a paisagem como uma coisa estanque, que está ali para sempre, mas a verdade é que pode, eventualmente, extinguir-se ou sofrer mutações”, disse Bruno Martins, apontando o caso do degelo da Antártida.

Conta com direção artística de Bruno Martins, tendo como criadores e intérpretes António Júlio, Margarida Gonçalves e Rui Souza.

O projeto integra ainda dois formatos de partilha virtual de processos e conhecimento que contribuíram para o processo criativo: Conversas ao Pé da Porta e o podcast Áudio Derivas.

Margarida Gonçalves desenvolveu “um projeto relacionado com uma paisagem central de Joane, que é um baldio. Ela reflete sobre esta resiliência das plantas, sobre a forma como ocupam os espaços e como elas, depois de nós desaparecermos, persistem e ficarão a ocupar os espaços que deixaremos devolutos”.

Bruno Martins explica que “foi importante para o trabalho desta criadora, as ervas que cresceram nas ruas durante a pandemia, durante a quarentena, em que estivemos em casa", "a quantidade de ervas e ervinhas que cresceram por todos os lados, porque as pessoas e os carros não passavam por lá”.

Um outro criador, António Júlio, abordará o rio Pele, “um rio que é praticamente impercetível em Joane, apesar de ser muito importante, por exemplo, para a indústria local - deu até o nome a uma fábrica muito conhecida de Famalicão”.

Nas palavras de Bruno Martins, é “um rio importante porque fornece precisamente a água para a ETAR da referida fábrica, atravessa e divide a vila, mas ao mesmo tempo é quase invisível e impossível aceder-lhe”.

“De alguma forma, queremos fazer emergir este rio, dar-lhe visibilidade e falar da forma como o tratamos”, sublinhou.

De acordo com Bruno Martins, haverá ainda tempo para um trabalho sobre procissões desaparecidas, que será desenvolvido pelo músico Rui Souza.

“Rui Souza irá trabalhar na igreja de Joane, num órgão de tubos, explorando cantos de procissões que, entretanto, se extinguiram. Será um trabalho sonoro, entre a música experimental e o ressoar daquele órgão de tubos”, explicou.

Por sua vez, Bruno Martins desenvolveu um trabalho mais “discursivo”.

“É uma espécie de prólogo do percurso e é no formato de apresentação de candidatura a presidência de junta de freguesia. Aproveito esse discurso para falar/evidenciar questões importantes do ponto de vista social e urbanístico da vila. São o resultado de uma série de entrevistas a moradores da freguesia sobre o que gostariam para a vila. Será um discurso mais ou menos absurdo e irónico sobre a proposta deste candidato à presidência de junta”, sustentou.

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