Na noite desta quinta-feira, dia 19 de janeiro, a peça de teatro "Tudo Sobre a Minha Mãe", em cena no Teatro São Luiz, em Lisboa, foi interrompida pela performer e atriz travesti brasileira Keyla Brasil.

A ativista invadiu o palco seminua e gritou "transfake", em referência ao facto de uma das duas personagens trans ser interpretada por um ator cisgénero, André Patrício. "Transfake! Desce do palco! Tenha respeito por este lugar", gritou.

A peça contava incialmente com a participação de uma atriz trans (a atriz Gaya de Medeiros, que veste a pele de Agrado, uma prostituta transexual), quatro mulheres e três homens.

"Respeito. Gente, boa noite. Sou atriz e prostituta. O que está a acontecer agora é um assassinato, um apagamento da nossa identidade como travesti. Por favor, não toquem em mim", disse.

"Nós não temos espaço para estar aqui neste palco", acrescentou Keyla Brasil, questionando porque é que "não são contratadas travestis". "André Patrício tenha ética e, por favor, não volte a este lugar amanhã", pediu.

"Eu entendo a tua posição", frisou o ator.

"Estamos aqui a fazer um espetáculo que defende a vossa luta. (...) Eu trabalhei com atores trans desde os meus 18 anos. Eu adoro a vossa causa, estou pela vossa causa", acrescentou a atriz Maria João Luís.

Veja o vídeo:

Esta sexta-feira, 20 de janeiro, o site do Teatro São Luiz anunciou que a contestação levou a uma mudança no elenco. "No seguimento de vários atos de contestação pela representação de uma personagem trans por um ator cis e pela criação de condições de acesso e representatividade para pessoas trans, o Teatro do Vão decidiu alterar o elenco do espetáculo Tudo Sobre A Minha Mãe, texto de Samuel Adamson, a partir do filme de Pedro Almodóvar, com encenação de Daniel Gorjão, integrando a atriz trans Maria João Vaz na interpretação da personagem Lola. Esta possibilidade torna-se agora viável pelo empenho do Teatro São Luiz e do Teatro Municipal do Porto", pode ler-se na página do teatro.

"Tudo Sobre a Minha Mãe", texto de Samuel Adamson a partir do filme de Pedro Almodóvar, centra- se na vida de Manuela – uma enfermeira, mãe solteira, que assiste à morte do filho no dia em que completaria 17 anos.

Na peça, Manuela parte numa viagem à procura do pai do filho e, nesse recuperar do passado, encontra uma antiga amiga com quem ele se prostituiu, conhece uma freira e começa a trabalhar como assistente de uma conhecida atriz de teatro.

"'Tudo Sobre a Minha Mãe' é um espetáculo sobre a incondicionalidade da força feminina – sobre o que é ser mulher (periférica ou não, racializada ou não, cis ou transgénero). Parte da dramaturgia destas mulheres, que de tão incondicionais fazem cair a concretude do espaço e do tempo cinematográficos, tornando-as símbolos de sobrevivência e resistência. Daniel Gorjão pretende com este espetáculo dar palco e voz a temas que se encontram socialmente em discussão na agenda mediática, como é o caso da identidade de género e orientação sexual, permitindo uma reflexão por parte do público", pode ler-se na apresentação da peça.

Escolha de corpos 'queer' foi ato político na peça "Tudo Sobre a Minha Mãe"

A escolha de corpos 'queer' para o elenco da peça "Tudo Sobre a Minha Mãe" foi um "ato político", confessou o diretor artístico Daniel Gorjão à agência Lusa, em janeiro, admitindo que gostava que esse caráter deixasse de ser necessário, "daqui por uns anos".

Para Daniel Gorjão há a expectativa de que o ato político de hoje se torne corrente e adquira normalidade, "daqui por uns anos”, como disse à Lusa, no final de um ensaio da peça "Tudo Sobre a Minha Mãe", a partir do texto de Samuel Adamson, sobre o filme homónimo de Pedro Almodóvar, com tradução de Hugo van der Ding.

Pegar em 2023 numa peça que se estreou em 2007, a partir de um filme realizado em 1999, permitiu também levar para o palco “outro olhar” sobre questões que já eram atuais no filme, mas que hoje ganham outra dimensão, afirmou Gorjão, a propósito de ter aberto um 'casting' para a encenação, e de ter encontrado uma atriz trans que pudesse fazer o papel de Agrado, figura antes desempenhada por uma atriz e por um ator gay.

“Não pelo objeto em si, porque não mexemos na história, mas pela forma como percecionamos o objeto à luz do que é a sociedade hoje em dia”, sublinhou o diretor artístico.

A título de exemplo citou o facto de, no filme, a personagem Agrado ter sido interpretada pela atriz Antonia San Juan; na versão do dramaturgo australiano adaptada para teatro e estreada oito anos mais tarde, em 2007, no Old Vic, em Londres, a personagem foi desempenhada por um “ator gay, um homem 'queer'” e, na versão que agora dirige, quase 24 anos após a estreia em filme, ser interpretada por uma mulher trans.

Apesar de se contar sempre a mesma história, esta sofre alterações de perceção, de inclusão e de representatividade ao longo do tempo. Por isso, é “muito importante” que Agrado seja agora representada por Gaya de Medeiros, disse.

Podia "ser outra atriz qualquer, 'cis' ou um homem gay travestido, mas, neste momento, em que essa questão é tão aberta na nossa sociedade, e em que o acesso de minorias ao mercado de trabalho e a sua representatividade está tão na ordem do dia, foi muito importante abrir um 'casting' e encontrar uma atriz trans que pudesse fazer o papel”, frisou.

O facto de, no futuro, "escolher Gaya de Medeiros não ser um 'statement', mas ser normal", e de poder vir a escolhê-la "para fazer qualquer papel feminino”, é vontade do encenador que, no entanto, admite uma necessidade de "mudança em consciência, com ação e 'step by step'”, por só assim ter "consistência", disse Daniel Gorjão à Lusa.

Por estar ciente de “estarmos a viver no tempo da mudança e a senti-la”, o diretor artístico da peça entende que, por ter “um lugar de privilégio”, se sente na obrigação de fazer escolhas.

Assim, afirmou, em janeiro, que gostaria que o papel de Lola também tivesse sido interpretado por uma mulher trans, o que “em termos de produção não foi possível, já que o ator teve de se desdobrar em mais do que um papel”.

“Mas se há possibilidade de o fazer, pois então vamos fazê-lo”, explicou na altura, porque também é “nossa obrigação dar corpo e voz a outros corpos”, uma constante no trabalho realizado tanto no Teatro do Vão como no de programador.

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