A produção independente (terá custado menos de seis milhões de dólares) "Nomadland - Sobreviver na América" (na categoria de Drama) e "Borat, O Filme Seguinte" (nas comédias ou musicais), com duas estatuetas cada, foram os filmes vencedores dos Globos de Ouro.

Os prémios foram entregues no domingo à noite, com Tina Fey e Amy Poehler separadas por milhares de quilómetros (a primeira em Nova Iorque e a segunda em Los Angeles), mas a aparecer lado a lado na emissão televisiva e sem problemas de "delay", no que terá sido um dos aspetos que bem conseguidos num emissão que apesar de ter cumprido as três horas, mostrou limitações do "zoom" que estiveram para lá de alguns problemas técnicos.

A grande derrotada da noite dos prémios da Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood (HFPA, na sigla inglesa) acabou por ser a Netflix, principalmente porque, pelo segundo ano consecutivo, voltou a ficar sem o prémio principal, depois de ter "Mank" e "Os 7 de Chicago" como os filmes os mais nomeados.

Para o filme de David Fincher, foi mesmo uma humilhação: começou a noite com a liderança das seis nomeações e acabou sem nada (se tivesse sete, entraria na lista dos piores recordistas, ao lado de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", "Jogo Baixo" e "O Padrinho - Parte III").

Onde a Netflix voltou a confirmar foi nas séries, com um domínio esmagador de "The Crown" (Drama) e "Gambito de Dama" (Minissérie ou Telefilme), que ganharam os prémios em todas as categorias em que estavam nomeadas.

Nas comédias repetiu-se a grande triunfadora dos últimos Emmys, "Schitt's Creek".

As maiores surpresas da cerimónia aconteceram nas categorias de representação, onde também não se pode deixar de notar que, após a polémica racial pela falta de diversidade na composição da HFPA, três das quatro de cinema foram para atores negros.

Categorias de cinema com várias surpresas

A cerimónia virtual teve alguns problemas técnicos, principalmente de som, e é provável que tantas imagens por "zoom" de nomeados e vencedores a sorrir, chorar e agradecer às famílias e colegas tenham testado a resistência dos espectadores, mas a presença remota dos nomeados contribuiu para ver imagens inéditas nos Globos, como premiados abraçados pelos filhos pequenos ou até animais de estimação, ou a muito privada Jodie Foster a dar um beijo à esposa Alexandra Hedison.

Mas tudo ia ficando estragado logo ao primeiro prémio da noite: Laura Dern anunciou Daniel Kaluuya como o vencedor do prémio de Melhor Ator Secundário, mas o seu momento de vitória quase "descarrilou" quando começou a falar e não se ouviu qualquer som.

Laura Dern voltou à emissão e agradeceu atrapalhada em seu nome, mas quando já se tinha despedido e abandonava o palco, o ator regressou já em condições para fazer o seu discurso.

VEJA O MOMENTO.

O prémio de Kaluuya por "Judas e o Messias Negro" quando o favorito era Sacha Baron Cohen por “Os 7 de Chicago” foi uma das várias surpresas que os cerca de 90 membros da HFPA reservaram nos prémios para os filmes, quase todos das plataformas ou lançados em streaming pelos estúdios por causa dos cinemas estarem fechados.

Apesar de "Mank" e "Os 7 de Chicago" dominarem as nomeações, os prémios para "Nomadland" como Melhor Filme Drama e Chloé Zhao na Realização (uma mulher apenas pela segunda vez na história dos Globos, após Barbra Streisand em 1983 por "Yentl", e a primeira de ascendência asiática) corresponderam às previsões da maioria dos analistas.

Por cá, o filme sobre uma mulher com mais de 60 anos que perde tudo na grande crise económica de 2008 e decide viajar através de autocaravana pelo oeste americano como uma nómada moderna aguarda a reabertura dos cinemas para estrear.

Foi às palavras de um desses nómadas que Chloé Zhao recorreu no seu discurso: "A compaixão é o que deita abaixo as barreiras entre nós. Uma ligação de coração a coração, a tua dor é a minha dor. É misturada e partilhada entre nós".

"É por isso que me apaixonei por fazer filmes e contar histórias. Porque nos dá a chance de rir e chorar juntos. E nos dá a oportunidade de aprender uns com os outros e ter mais compaixão uns pelos outros", recordou.

Já a confirmação de "Borat, O Filme Seguinte" como Melhor Filme de Musical ou Comédia, permitiu à Amazon a "salvar a honra" para as plataformas de streaming nos prémios principais.

Mas nas previsões à volta das seis categorias dos atores, quatro tiveram vencedores inesperados.

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Além de Daniel Kaluuya, as surpresas foram Rosamund Pike como Melhor Atriz em Musical ou Comédia por “Tudo Pelo Vosso Bem”, Jodie Foster como Secundária por "O Mauritano" e principalmente Andra Day como Melhor Atriz em Drama por “Estados Unidos vs. Billie Holiday”.

Se nas duas primeiras categorias as favoritas eram, respetivamente, Maria Bakalova por "Borat, o Filme Seguinte" e Glenn Close por "Lamento de uma América em Ruínas", Andra Day era a menos favorita nas bolsas de apostas no grupo com Vanessa Kirby (“Pieces of a Woman”), Viola Davis ("Ma Rainey: A Mãe do Blues"), Frances McDormand ("Nomadland") e Carey Mulligan ("Uma Miúda com Potencial”).

Já a vitória a título póstumo de Chadwick Boseman por "Ma Rainey" (Ator Drama) e a de Sacha Baron Cohen por "Borat, O Filme Seguinte (Comédia ou Musical) eram esperadas e foram, em sentidos muito diferentes, dois momentos que estiveram entre os melhores da noite.

"Ele agradeceria a Deus, agradeceria aos seus pais, agradeceria aos seus antepassados pelos seus conselhos e sacrifícios", disse a viúva do ator falecido em agosto do ano passado.

"Mas eu não tenho as suas palavras. Mas temos que aproveitar todos os momentos para celebrar aqueles que amamos", acrescentou no fim dos agradecimentos.

Já Sacha Baron Cohen optou pelo humor ao receber o prémio de interpretação pela sequela de "Borat", dizendo logo a abrir que Donald Trump estava a contestar o resultado (e acrescentou que "ele está a dizer que votaram muitas pessoas mortas, o que é uma coisa muito rude para se dizer sobre a HFPA"), antes de agradecer a todos os que o ajudaram a fazer o filme durante a pandemia e "acima de tudo, ao meu guarda-costas, que me impediu de ser alvejado duas vezes. Sabes quem és e sabes que não tenho autorização para dizer o teu nome. Mas obrigado."

Ao aceitar o prémio de Melhor Filme de Comédia, o ator também não esqueceu dos agradecimentos a "grande revelação do filme", surpreendendo por se estar a referir não a Maria Bakalova, mas a Rudy Giuliani.

Os outros prémios de cinema também eram esperados: dos cinco para que estava nomeado, o único para "Os 7 de Chicago" foi pelo Argumento de Aaron Sorkin; "Soul - Uma Aventura com Alma" foi o esperado Melhor Filme de Animação e Banda Sonora; e Diane Warren, Laura Pausini, Niccolò Agliardi ganharam na categoria da canção por "Uma Vida à Sua Frente".

E finalmente, depois da polémica decisão da HFPA de exclui-lo da corrida a Melhor Filme Drama por causa do predomínio da língua coreana, a produção americana "Minari" ultrapassou o dinamarquês "Mais Uma Rodada" como Melhor Filme Estrangeiro.

Netflix faz a festa nas séries

Se nos filmes a Netflix teve de se contentar com quatro prémios em 14 categorias (dois para atores mais o de argumento e canção), nas séries ganhou seis em 11 possíveis.

O grande brilharete foi o da quarta temporada de "The Crown", que venceu nas quatro categorias em que estava nomeada: além dos prémios esperados como Melhor Série Drama, Atriz (para Emma Corrin como a Princesa Diana, ultrapassando Olivia Colman como Isabel II) e Atriz Secundária (Gillian Anderson como Margaret Thatcher, à frente de Helena Bonham Carter como Princesa Margarida), Josh O'Connor nem queria acreditar quando ganhou na categoria principal dos atores dramáticos pela interpretação do Príncipe Carlos, ultrapassado o favoritismo de Jason Bateman ("Ozark") e o mediatismo de Bob Odenkirk ("Better Call Saul"), Al Pacino ("Hunters") e Matthew Rhys ("Perry Mason").

As outras vitórias da plataforma eram esperadas: "Gambito de Dama" foi considerada a Melhor Minissérie ou Telefilme e Minissérie, e Anya Taylor-Joy a Melhor Atriz.

Grande triunfadora dos últimos Emmys, "Schitt's Creek" teve mais concorrência dos Globos e ganhou em duas das cinco categorias em que estava nomeada: Melhor Comédia ou Musical e Atriz para Catherine O'Hara.

No mesmo género, Jason Sudeikis foi o Melhor Ator por "Ted Lasso", enquanto John Boyega foi o Melhor Ator Secundário (sem distinção de géneros) pela antologia "Small Axe" e Mark Ruffalo o Ator em Telefilme ou Minissérie ("I Know This Much Is True").

Os prémios consensuais

Norman Lear

Pelo meio dos prémios para os filmes e as séries, houve "pausas" para as homenagens a Jane Fonda e Norman Lear, distinguidos respetivamente pelas carreiras em cinema e TV com os prémios Cecil B. DeMille e Carol Burnett.

O primeiro momento foi para Norman Lear, que enquanto co-criador ou adaptando formatos britânicos, realizador, produtor, supervisor e argumentista, está indiscutivelmente ligado à libertação do conservadorismo da TV americana graças a uma mão cheia de séries de comédia (as "sitcoms") na década de 1970 como "Uma Família às Direitas" (1971-79), "Maude" (1972-78), "The Jeffersons" (1975-85) e "Good Times" (1974-79).

"Com quase 99 [anos], posso dizer-vos que nunca vivi sozinho. Nunca ri sozinho e isso tem tanto a ver com o facto de estar aqui hoje como tudo o resto que conheço", explicou a partir da sua casa, antes de agradecer à família e às pessoas que o ajudaram, sem os quais "seria um Norman Lear completamente diferente esta noite".

Já Jane Fonda, com 83 anos, apareceu ao vivo para receber a sua estatueta.

"Somos uma comunidade de contadores de histórias, não somos? E em tempos de crise e turbulência como estes, contar histórias sempre foi essencial. As histórias podem mudar os nossos corações e as nossas mentalidades. Podem ajudar a ver-nos uns aos outros sob uma nova luz, a ter empatia, a reconhecer que entre toda a nossa diversidade, somos humanos em primeiro lugar", começou por dizer, recordando qual deve ser a primeira missão da indústria que representa.

O discurso da atriz foi um dos poucos com mensagens políticas, recordando filmes, séries e documentários do ano passado que a ajudaram a ver vários temas de forma diferente, antes de, virando-se para a diversidade, recordar que "existe uma história que temos tido medo de ver e ouvir sobre nós mesmos nesta indústria, uma história sobre quais as vozes que respeitamos e elevamos, e quais ignoramos. Uma história sobre aqueles a quem é oferecido um lugar à mesa e aqueles que são deixados de fora das salas onde são tomadas decisões".

"Portanto, vamos todos - incluindo todos os grupos que decidem quem é contratado, o que é feito e quem ganha prémios - vamos todos fazer um esforço para expandir essa tenda. Para que todos se levantem e a história de todos tenha a oportunidade de ser vista e ouvida", apelou.

Globos de Ouro não fogem à polémica racial

Durante o seu monólogo, Tina Fey chegou mesmo a esticar o braço e "tocar" na parceira, que brincou que "a tecnologia é tão boa que vocês nunca vão conseguir perceber a diferença", a propósito da distância entre as duas de Nova Iorque a Los Angeles.

Sem problemas de "delay", o seu trabalho inicial terá sido um dos aspetos que bem conseguidos da cerimónia virtual.

Começando por celebrar vários "blockbusters" (fictícios) que estavam nomeados (de "Parts of a Lady" a "Ali G Goes to Chicago") e as séries que todos viram em maratonas (a versão americana de "The Office", episódios antigos de "Columbo", programas de notícias muito tendenciosos), o duo aproveitou a circunstância dos nomeados estarem em presença remota e a (limitada) audiência à sua frente ser formada por trabalhadores dos serviços essenciais e da linha da frente no combate à pandemia, para lhes explicar a diferença entre filmes e séries num ano em que "vimos tudo nos nossos telefones... e o que eram os Globos de Ouro.

E Tina Fey não perdeu tempo para chegar à parte da polémica racial à volta da organização que dá os prémios revelada numa investigação do jornal Los Angeles Times.

"A Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood é formada por cerca de 90 jornalistas - nenhum negro - internacionais que vão aos 'movie junkets' [apresentações dos filmes e entrevistas para imprensa] todos os anos à procura de uma vida melhor. Dizemos cerca de 90 porque dois deles podem ser fantasmas e existem rumores de que o membro alemão é apenas uma salsicha em que alguém desenhou um pequeno rosto", esclareceu.

Ainda durante o monólogo Amy Poehler deu outra perspetiva sobre o funcionamento dos prémios: "Há muito lixo vistoso que foi nomeado, mas isso acontece. É assim que eles funcionam. Vários atores e projetos negros foram esquecidos”.

"A questão é que, mesmo com coisas estúpidas, a inclusão é importante. E não há membros negros na Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood. Vocês têm de mudar isso. Portanto, vamos a isso", acrescentou Tina Fey.

Três dos "europeus esquisitos", como também chamou a atriz aos membros da organização, haveriam mais tarde na cerimónia de prometer mais diversidade no "futuro".

Veja o monólogo inicial de Tina Fey e Amy Poehler:

LISTA COMPLETA DE PREMIADOS

CINEMA

MELHOR FILME (DRAMA)
"Nomadland - Sobreviver na América"

MELHOR FILME (COMÉDIA OU MUSICAL)
“Borat, O Filme Seguinte”

MELHOR REALIZAÇÃO
Chloé Zhao (“Nomadland”)

MELHOR ATOR (DRAMA)
Chadwick Boseman (“Ma Rainey: A Mãe do Blues”)

MELHOR ATRIZ (DRAMA)
Andra Day (“Estados Unidos vs. Billie Holiday”)

MELHOR ATOR (COMÉDIA OU MUSICAL)
Sacha Baron Cohen (“Borat, O Filme Seguinte”)

MELHOR ATRIZ (COMÉDIA OU MUSICAL)
Rosamund Pike (“Tudo Pelo Vosso Bem”)

MELHOR ATOR SECUNDÁRIO
Daniel Kaluuya (“Judas e o Messias Negro”)

MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA
Jodie Foster (“O Mauritano”)

MELHOR ARGUMENTO
"Os 7 de Chicago"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Minari (EUA)

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
"Soul - Uma Aventura com Alma"

MELHOR BANDA SONORA ORIGINAL
"Soul - Uma Aventura com Alma"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Uma Vida à Sua Frente" ("Uma Vida à Sua Frente") - Diane Warren, Laura Pausini, Niccolò Agliardi

TELEVISÃO

MELHOR SÉRIE (DRAMA)
“The Crown”

MELHOR SÉRIE (COMÉDIA)
“Schitt’s Creek”

MELHOR TELEFILME OU MINISSÉRIE
"Gambito de Dama"

MELHOR ATOR (SÉRIE DRAMA)
Josh O’Connor (“The Crown”)

MELHOR ATRIZ (SÉRIE DRAMA)
Emma Corrin (“The Crown”)

MELHOR ATOR (COMÉDIA OU MUSICAL)
Jason Sudeikis (“Ted Lasso”)

MELHOR ATRIZ (COMÉDIA OU MUSICAL)
Catherine O’Hara (“Schitt’s Creek”)

MELHOR ATOR EM TELEFILME OU MINISSÉRIE
Mark Ruffalo (“I Know This Much Is True”)

MELHOR ATRIZ EM TELEFILME OU MINISSÉRIE
Anya Taylor-Joy (“Gambito de Dama”)

MELHOR ATOR SECUNDÁRIO EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME
John Boyega (“Small Axe”)

MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME
Gillian Anderson (“The Crown”)

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