Uma das plataformas “online” mais representativas da atual crítica portuguesa, À Pala de Walsh, acaba de lançar um livro – reunindo material de cinco anos de reflexões sobre a 7ª arte. Justamente, intitula-se “O Cinema não Morreu”.

A frase já foi muitas vezes proferidas por Jean-Luc Godard, ícone inspirador confesso do grupo; pode ter-se esvaído de significado real, mas não de evocar um caráter de “tragédia iminente”.

O livro é lançado pela Linha de Sombra, também sede da livraria que opera nas instalações da Cinemateca Portuguesa e onde a obra pode ser adquirida. No Porto, está à venda na livraria Flâneur.

Na entrevista, preferem esconder no anonimato as contribuições individuais: Carlos Natálio, Luís Mendonça e Ricardo Vieira Lisboa assinam coletivamente tudo que o fica dito a seguir…

Qual a razão para o livro se chamar "O Cinema não Morreu"?

Jean-Luc Godard, que é, de certo modo, uma figura totémica para qualquer crítico de cinema e, em particular, para muitos de nós ,“walshianos”, já declarou várias vezes a morte do cinema – na verdade em tantas ocasiões que a expressão já se transformou numa “blague” sem grande peso funerário. Ainda assim, quisemos que a nossa primeira publicação em formato de livro celebrasse o cinema na sua vivacidade histórica, mas especialmente contemporânea, já que “O Cinema Não Morreu” é também o título do capítulo do livro dedicado à produção cinematográfica mundial dos últimos cinco anos. Isto porque o cinema continua a ser a arte que nos emociona, que nos instiga a escrever, que nos transporta e nos eleva. Nessa medida, ele hoje está muitíssimo vivo – pelo menos em cada um de nós, os espectadores – e tanto maior quanto a disponibilidade de quem assiste e quer redescobri-lo na sua máxima vibração.
No entanto, o livro não se chama “O Cinema Vive” nem “Viva o Cinema”. Há um não no título, como que se prognosticasse uma qualquer doença. "O Cinema Não Morreu", mas pode estar em vias de... – há um “ainda” que se anuncia. Nesse caso, cada um de nós, que escreve sobre filmes e que os vê num regime ora compulsivo, ora compulsório, seremos os cantores alegres da sua morte. Quando o cinema morrer diremos “paz à sua alma”, mas enquanto isso não acontece, celebre-se a sua vida!

Queria que falassem um bocado sobre como surgiu "À Pala de Walsh", como é que decidiram fazer um "site" e o motivo para este nome.

No início do ano de 2012, o João Lameira, que tinha um blogue chamado “Na Paragem do 28”, entrou em contacto com o Carlos Natálio e com o Luís Mendonça com a ideia de criar um “site” de cinema que congregasse um pouco as iniciativas que cada um mantinha nos seus espaços individuais. Todos nós já escrevíamos sobre cinema com regularidade, mas cada um no seu canto, com o seu público. O propósito inicial foi o de criar um “site” com produção de conteúdo que, ao mesmo tempo que ia beber algumas das características da comunicação social dita institucional, tentava aproveitar a liberdade existente no digital. Isto até porque à data existiam muito poucos “sites” de cinema em Portugal e os que existiam tinham esta obsessão pelo cinema “mainstream” norte-americano. Nós queríamos ser um pouco mais ambiciosos e trabalhar no legado de grandes mestres do pensamento crítico sobre cinema, como era o caso de Serge Daney, Manny Farber, Bénard da Costa, entre outros.
A equipa, à qual se juntou o nosso benjamim, o Ricardo Vieira Lisboa, começou a reunir-se para delinear o que seria esse “site”: que rubricas teria, com que frequência publicaríamos textos, quem faria o quê, como organizaríamos a edição, o seu estilo formal, o que é que queríamos fazer e o que é que não queríamos que acontecesse. Discutimos muito, tínhamos planos megalómanos, pensávamos muito em poder viver um dia disto, da crítica. Hoje ainda pensamos nisso, mas menos… Então chegamos finalmente ao nome do espaço. Depois de muitas hipóteses absurdas ficámos com “À pala de Walsh”, que é um trocadilho entre a expressão "à pala", como algo que é feito sem receber dinheiro, gratuitamente – como é o caso deste projeto –, e a pala que tapava um dos olhos cegos de um dos cineastas que todos gostávamos muito, o norte-americano Raoul Walsh.
Interessa ainda salientar que, ao longo destes quase cinco anos, o projeto se metamorfoseou um pouco desde a sua ideia original. O que foi pensado por ser algo com uma equipa mais ou menos fechada com rubricas muito estanques, que pudesse ser facilmente designada como uma redação digital de um órgão de comunicação social exclusivamente dedicado ao cinema, foi sendo transformado numa grande comunidade cinéfila digital. Essa coletividade congrega hoje muitas vozes, formações, registos de escrita e pensamento que se unem em torno deste desejo de não deixar que as imagens que passam pelos nossos olhos, de lá saem sem um “feedback” qualquer, um retorno reflexivo. Hoje o "À pala de Walsh" é um pouco isso: um grande filme sobre cinema, a muitas mãos e, sobretudo, a muitos olhares.

Qual a expectativa em relação ao livro?

A primeira expectativa passa por fazer chegar a voz - ou o olhar - de uma nova geração de críticos ao maior número possível de leitores. Com isso, queremos que a crítica “online” possa ganhar uma outra dignidade. Quando dizemos "leitores" também falamos de colaboradores e mesmo de nós, cofundadores e coeditores. Podemos dizer que este livro ajudou-nos a ter uma noção mais clara do trabalho que temos desenvolvido nos últimos cinco anos. Perspetivamos, por isso, um livro que permita dar a ler de outro modo o “site” aos leitores, editores e colaboradores por igual. Portanto, esperamos que “O Cinema Não Morreu” torne o "À pala de Walsh" ainda melhor, mais exigente, consigo e com os filmes.
A outra expectativa passa pelo estímulo à reflexão sobre a importância da crítica e, é bom frisar, da crítica livre, implicada e criadora. A maioria de nós trabalha nesse espaço intermédio entre a investigação e a criação artística. É fundamental entender o exercício crítico como ato de criação e vice-versa. Ocorre-nos, nesse sentido, o caso de Godard, que nunca distinguiu o seu período de crítico do seu período de realizador. Ele chegou mesmo a considerar uma entrevista que fez a [Michelangelo] Antonioni, na sequência de “O Deserto Vermelho” [1964], como um filme entre filmes. Isto numa altura em que Godard já era um notabilíssimo realizador e havia aparentemente abandonado o ofício da crítica – o ofício talvez, mas a função crítica nunca abandonou de facto. Também para ele as imagens são - e parafraseamos – “complementos de ideias”.
Neste livro de uma imagem apenas - a fotografia magnífica da autoria da nossa fotógrafa, a Mariana Castro, que serve de separador dentro do livro – procuramos que as ideias se tornem eloquentes "complementos das imagens" para o leitor.

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