“A luta por um Brasil melhor não pode se tornar coadjuvante, (ficar) atrás de temas como o retorno da ditadura ou do pedido de intervenção militar. Infelizmente, é isso que tem acontecido no Brasil”, declarou à agência Lusa o rapper brasileiro.

Emicida, que é uma junção de MC e Homicida (porque os amigos diziam que “acabava” com os seus oponentes nas batalhas de rap) tem agendado para Portugal dois espetáculos.

A primeira apresentação será na quarta-feira, na Casa da Música, no Porto, e a outra na quinta-feira, no Armazém F, em Lisboa. O rapper declarou que é a terceira viagem a Portugal para apresentar o seu trabalho.

O músico, nascido num bairro pobre da periferia da cidade de São Paulo que tem nas suas letras uma forte mensagem de crítica social e política, declarou que “o Brasil vive um momento muito delicado”.

“Por um lado, as pessoas têm, obviamente todo o direito de se manifestar, têm a obrigação de se manifestar. O que constrói um país é o ato das pessoas brigarem por um país melhor”, declarou. Segundo Emicida, alcunha de Leandro Roque de Oliveira, de 29 anos, “as pessoas têm de tomar cuidado com a ignorância e o radicalismo, pois isso tem dado o tom das manifestações no Brasil”.

“(O radicalismo) tem feito com que as pessoas se coloquem em lugares que elas desconhecem. Elas estão aqui e apontam para o outro lado como se não vivessem tendo de ser o meio-termo durante o dia, várias vezes nas vidas delas”, argumentou.

"Em 2013, quando elas começaram e eu não participei, fui bem criticado, mas é uma coisa da qual não me arrependo até hoje”, afirmou o músico, que é um dos novos talentos do rap mais aclamados pelo público e crítica no Brasil.

“Existe um ponto crucial e óbvio (…) é claro que o partido da situação (Partido dos Trabalhadores/PT, da Presidente Dilma Rousseff) precisa ser alvo da perspetiva de todo o mundo, precisa ser duramente criticado para que a gente evolua enquanto democracia e tenha realmente o país que a gente deseja”, argumentou.

De acordo com o rapper, “no Brasil acontece uma coisa que é muito óbvia, quando o PT está sentado lá, tem dois pesos e duas medidas. A luta não tem a mesma preocupação do que nos momentos anteriores. Se as medidas fossem iguais, a gente teria uma democracia mais forte”.

“Mas acredito que embora seja lenta esta construção, acho a gente vai chegar num momento de maturidade maior enquanto sociedade em breve, espero que mais em breve”, disse.

Emicida tem cinco trabalhos divulgados, entre eles, um álbum de estúdio, intitulado “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Foi”, lançado em 2013.

A aventura da lusofonia e o "fascínio" de África

Já em 2015, o rapper fez uma viagem para conhecer os países africanos lusófonos, tendo passado algum tempo em Angola e Cabo Verde, com o objetivo de preparar o seu novo trabalho.

“Fascinante”, foi assim que Emicida descreveu a sua experiência na África lusófona, referindo ainda a “simplicidade, a humildade e a alegria pela vida dos dois povos", apesar da "miséria financeira".

“Conheci muita coisa com que fiquei fascinado. Eu não entendia a história dos dialetos crioulos, não sabia das variações, não sabia que tipo de língua era o crioulo”, disse, referindo ainda que conheceu os principais autores africanos lusófonos através das publicações feitas em Portugal.

“Só agora ficando tanto tempo em Cabo Verde, que eu pude entender que é uma espécie de corruptela do português, de um lugar de transição de pessoas escravizadas”, afirmou.

“Eu achei isso fascinante porque mesmo você tendo uma sociedade racista por tanto tempo, mesmo tendo um entretenimento que segrega tanto, mesmo você tendo uma série de estereótipos negativos sobre África, a África resiste com uma beleza muito intensa”, disse, afirmando que se sente transformado.

“Eu acho que a África fez isso comigo, já era uma coisa que eu buscava e faz parte do momento que eu vivo”, referiu.

“Neste momento especial, esta oportunidade de pisar o solo africano, entrar em contacto com a nossa ancestralidade, entrar em contacto com outro tipo de música, uma outra conceção de música, fez com que eu voltasse um ser humano muito melhor. Talvez este seja o meu disco mais feliz”, disse, acrescentando que existe uma relação forte de identidade entre estes países pela língua, que faz todos os países lusófonos "conversarem entre si".

"De certa maneira, o mundo todo se apropriou da riqueza material da África e, no final das contas, virou as costas para ela. Não acho que seja uma exclusividade do Brasil. Acho que dói mais em relação ao Brasil por se ter apropriado tanto, por ter sido o último país a abolir a escravidão, tudo isso faz com que a falta de um vínculo mais próximo, doa mais no brasileiro", indicou.

O músico afirmou que o seu próximo trabalho, a ser lançado este ano, vai ter influência africana, “mas não como um cliché”.

Emicida continuará a sua digressão europeia, nos próximos dias, passando pela França, pela Alemanha e pela Inglaterra.

@Lusa

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