O segundo filme de Alice Rohrwacher observa uma família de apicultores que luta para preservar a agricultura tradicional.

Escrito assim parece ser um retrato sobre uma certa vivência rural, mas a realizadora alarga a sua perspetiva propondo um olhar bastante original sobre um modo de vida que está ameaçado e uma família que se confronta com realidades e tempos diferentes.

«O País das Maravilhas» coloca-nos num lugar rural, algures na Umbria, no centro da Itália, focando uma comunidade que ainda preserva hábitos artesanais. Seguimos a família, pai, mãe e quatro filhas.

Wolfgang (Sam Louwyck), o patriarca, é um alemão que foi para o campo produzir mel e que procura preservar as suas filhas do contacto com o exterior. Este apicultor vive crispado, em permanente conflito, até com os agricultores vizinhos, que utilizam pesticidas nas suas culturas, ameaçando as suas abelhas e a qualidade do seu mel.

É um homem que vê ameaças permanentes no mundo contemporâneo que o rodeia, resistiu à modernidade, e preparou a sua filha mais velha, Gelsomina (Maria Alexandra Lungu), para lhe suceder e preservar a atividade da quinta. Os dois entram em conflito quando Gelsomina, seduzida pelo fascínio da televisão, inscreve-se num concurso destinado a promover e premiar as famílias que melhor preservam as tradições italianas.

Tudo neste programa soa a artificial. Seja a necrópole etrusca, excessivamente primitiva, que serve de cenário, as intenções de premiar e divulgar o genuíno, e até a sua apresentadora (Monica Belluci), que surge transfigurada numa fada televisiva. Muito artifício para um pai e agricultor que é cioso do seu modo de vida.

«O País das Maravilhas» é um filme misterioso e poético sobre o outro tempo, um retrato de uma comunidade que parece vagamente inspirada no estilo de vida dos hippies. Alice Rohrwacher não procura explicações, consolida um olhar simultaneamente poético e cru, confrontando realidades distintas num filme efabulatório.

É o seu segundo filme, segue-se a «Corpo Celeste», e confirma que há uma nova cineasta, com 32 anos, capaz de nos propor um olhar diferente sobre um país que ainda não morreu. Como quem sonha, como quem nos transporta para o país das maravilhas.

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REVISTA METROPOLIS