Ele quis dar-nos qualquer coisa para a música e acabou por nos dar vários discos que hoje integram o leque de álbuns mais relevantes da música portuguesa dos últimos tempos. Podemos agradecer à cisma o facto de termos um disco como este "Bairro do Amor". Nem sempre a teimosia é qualidade de alto gabarito, mas, desta feita, assim o foi. 1989, uma viragem de década e, para Palma, um momento decisivo para lançar este registo, que já estava pronto, apenas não tinha interessados na maquete. A verdade é que o disco chegou ao século XXI, cumprindo os desígnios do seu criador, e muitos dos temas que saem deste bairro correm cidades, compondo grande parte do alinhamento dos espetáculos.

Um quarto de século, o patamar dos 25 anos, que marca a diferença entre a maturidade e a precocidade. Um patamar de peso que, para Palma, que se fez acompanhar da sua banda (gang), da qual faz parte o seu filho Vicente, significou pequenas mudanças subtis: canções com arranjos mais rock n’ roll e crus, com mais espaço para pintar improvisos sobre as famosas telas.

Os mesmos 25 também passaram por Palma, de cabelo mais grisalho, voz mais grave, que, a dada altura, confessa à plateia ter de baixar o tom em temas como “a Escola” ou “Minha Senhora da Solidão”. 25 que, conforme se diz na gíria mais popular, não passam apenas de um número, já que estas canções, e a sua interpretação, não são datadas no tempo e continuam a mexer com pulsações e a provocar arrepios na pele.

O mestre começa ao piano com “Frágil” e mantém, durante todo o espetáculo, com o filho, uma espécie de rotina entre o piano e a guitarra, à qual já nos habituámos de tantas outras vezes que o vimos. A enchente que praticamente lotou o CCB canta em coro, baixinho, todas as faixas - o momento de poder ouvir algumas delas, quiçá pela primeira vez, é demasiado relevante para ser sobreposto. Contudo, as palmas não são contidas, assim como os múltiplos elogios feitos. Para o registo fica “Dá-me Lume”, “Só”, a sempre surpreendente “Passos em Volta” e a única “Bairro do Amor”, com Palma ao piano.

Imprudentes foram os que deixaram a sala após a segunda versão de “Frágil”, cumprindo à risca o alinhamento do disco. Ainda que esse tivesse sido o mote para a convocatória, a noite ainda estava apenas no início, já que Palma iria ainda brindar-nos com, pelo menos, mais uma hora e meia de temas, fazendo a viagem de volta para o presente, enquanto, com a ajuda do gang, fazia rejuvenescer canções umas atrás das outras, como a “Espécie de Vampiro” ou “Tempo dos Assassinos”, raramente ouvidas nos concertos mais recentes, ou a sempre emocionante “Estrela do Mar”, novamente no piano. “Cara de Anjo Mau” foi um dos temas que mais ganhou com os arranjos mais crus, fazendo jus à própria dicotomia da música. Já “Jeremias Fora da Lei” foi acompanhada por um banjo.

E se, por um lado, “Portugal, Portugal” assustou por não deixar de ser atual, “A Gente vai continuar” trouxe o já habitual conforto e ânimo, estendeu-nos as mãos e satisfez os vários pedidos feitos ao longo da noite.

Já o inicio e o final do encore foram marcados por Palma, é certo, mas, sobretudo, por Bob Dylan, com “Mister Bojangles”, com Palma vestido a rigor, com chapéu clássico e camisa branca, a divertir com os passos de sapateado meio trapalhões, e “Like a Rolling Stone”, a fechar e a elevar o volume de todas as vozes solitárias do auditório.

No Grande Auditório do CCB, Jorge Palma acabou por dar um dos melhores concertos que já lhe vimos. Um ambiente familiar, com muitas caras conhecidas, que inclusivamente já vimos em palco com o cantor. No final, fica a certeza de que muitos ainda tratarão as “suas nódoas negras sentimentais” ao som de "Bairro do Amor" por muitos mais anos.

Alinhamento
Frágil
A Escola
Minha Senhora da Solidão
Uma Vez
Eternamente Tu
Dá-me Lume

Passos em Volta
Bairro do Amor
Boletim Meteorológico
Frágil
Página em Branco
Espécie de Vampiro
Quarteto da Corda
Olá (Cá Estamos Nós Outra Vez)
Imperdoável
Estrela do Mar
Deixa-me rir
Dormias Tão Sossegada
Cara de Anjo Mau
Portugal, Portugal

Encore
Mister Bojangles (Bob Dylan)
Encosta-te a mim
Canção de Lisboa
Jeremias Fora da Lei
A Gente Vai Continuar
Tempo dos Assassinos
Like a Rolling Stone (Bob Dylan)

Texto: Rita Bernardo

Fotografias: João Lambelho

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